O verão é sinónimo de dias mais longos, temperaturas elevadas e maior atividade ao ar livre. Mas é também a época em que os mosquitos se tornam mais ativos, aumentando o risco de transmissão de algumas doenças que, até há poucos anos, eram consideradas pouco frequentes na Europa.
Uma dessas doenças é provocada pelo vírus do Nilo Ocidental (West Nile Virus), que já está a circular em vários países europeus. Desde o início da época de transmissão de 2026, foram confirmados dezenas de casos humanos adquiridos localmente e as autoridades de saúde mantêm uma vigilância apertada sobre a evolução da situação.
Embora Portugal não registe atualmente um surto de grande dimensão, especialistas admitem que a presença do vírus no território nacional é uma possibilidade real, sobretudo devido às condições climáticas e à existência dos mosquitos responsáveis pela transmissão.
De acordo com a TSF, a Organização Mundial da Saúde (OMS) já apelou aos países europeus para reforçarem as medidas de prevenção, numa altura em que a época de maior risco está apenas a atingir o seu pico.
O que é o vírus do Nilo Ocidental?
O vírus do Nilo Ocidental é um agente infeccioso pertencente à família dos flavivírus, a mesma que inclui outros vírus conhecidos, como o da dengue e o da febre-amarela.
Foi identificado pela primeira vez em 1937, no Uganda, junto ao distrito de West Nile, de onde herdou o nome.
Atualmente, encontra-se distribuído por vários continentes, incluindo África, Europa, Ásia, Médio Oriente e América.
Nos últimos anos, os especialistas têm observado uma expansão gradual da sua presença em território europeu.
Como é transmitido?
Ao contrário de muitas doenças contagiosas, o vírus do Nilo Ocidental não se transmite normalmente de pessoa para pessoa.
O ciclo de transmissão envolve principalmente:
- aves selvagens, que funcionam como reservatórios naturais do vírus;
- mosquitos do género Culex, que adquirem o vírus ao picarem aves infetadas;
- seres humanos e cavalos, considerados hospedeiros ocasionais.
Depois de infetado, o mosquito pode transmitir o vírus quando volta a picar outro animal ou uma pessoa.
Segundo os especialistas, os seres humanos não desenvolvem níveis suficientes do vírus no sangue para manter este ciclo de transmissão.
Por isso, a infeção não passa através do contacto habitual entre pessoas.
A Europa está a registar novos casos
O Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC) acompanha semanalmente a evolução da doença durante a época de maior atividade dos mosquitos.
Até 22 de julho de 2026, foram identificadas 35 áreas afetadas em vários países europeus.
Entre os países com transmissão local encontram-se:
- Itália;
- Grécia;
- Espanha;
- Roménia;
- Macedónia do Norte;
- França.
No conjunto destes países, o ECDC contabilizou 81 casos humanos adquiridos localmente durante a atual época de transmissão.
Os números poderão continuar a aumentar durante os meses de verão, período em que as condições meteorológicas favorecem a proliferação dos mosquitos.
O vírus pode chegar a Portugal?
Para vários especialistas, essa possibilidade deve ser encarada como bastante provável.
O médico infeciologista Diogo Pedro considera que a questão não será propriamente “se”, mas “quando” poderão surgir novos casos em território nacional.
Ainda assim, sublinha que isso não significa que Portugal venha a enfrentar uma crise sanitária semelhante à provocada pela pandemia de Covid-19.
Na realidade, o vírus já não é totalmente desconhecido no país.
Ao longo dos últimos anos foram identificados casos em cavalos no sul de Portugal e, embora raros, também já existiram infeções humanas.
O facto de existirem mosquitos capazes de transmitir o vírus significa que as autoridades continuam a manter vigilância epidemiológica permanente.
Porque aumenta o risco durante o verão?
A resposta está no ciclo de vida dos mosquitos.
Entre o final da primavera e o início do outono, especialmente entre julho e setembro, as temperaturas mais elevadas favorecem:
- maior reprodução dos mosquitos;
- aumento da sua atividade;
- aceleração da replicação do vírus dentro do inseto.
Quanto mais quente for o ambiente, maiores tendem a ser as condições para a circulação do vírus.
Regiões húmidas, zonas com águas paradas e temperaturas elevadas apresentam normalmente maior vulnerabilidade.
Quais são os sintomas?
A maioria das pessoas infetadas não desenvolve qualquer sintoma.
Estima-se que cerca de 80% das infeções sejam assintomáticas.
Quando a doença se manifesta, os sintomas costumam surgir entre dois e catorze dias após a picada do mosquito.
Os sinais mais frequentes incluem:
- febre;
- dores musculares;
- dores de cabeça;
- fadiga intensa;
- mal-estar geral;
- náuseas;
- vómitos;
- erupções cutâneas;
- gânglios aumentados.
Numa fase inicial, o quadro clínico pode ser facilmente confundido com uma gripe ou outra infeção viral comum.
Quando pode tornar-se perigoso?
Embora a maioria das infeções evolua favoravelmente, existe uma pequena percentagem de casos que pode desenvolver complicações neurológicas graves.
Estas incluem:
- meningite;
- encefalite;
- inflamação da medula espinal.
As pessoas com maior risco são:
- idosos;
- doentes crónicos;
- pessoas imunodeprimidas.
Nestes grupos, a doença pode provocar sequelas permanentes e, em situações excecionais, tornar-se fatal.
Existe vacina?
Atualmente não existe uma vacina aprovada para utilização generalizada em seres humanos contra o vírus do Nilo Ocidental.
Também não existe um tratamento antiviral específico.
O tratamento disponível centra-se essencialmente no alívio dos sintomas e no suporte clínico dos doentes que desenvolvem formas mais graves da doença.
Por esse motivo, a prevenção continua a ser a melhor forma de proteção.
Como reduzir o risco de infeção?
As autoridades de saúde recomendam várias medidas simples, mas muito eficazes:
- utilizar repelente de insetos;
- vestir roupa de mangas compridas ao amanhecer e ao entardecer;
- instalar redes mosquiteiras nas janelas;
- evitar águas paradas em vasos, baldes, pneus ou recipientes exteriores;
- manter piscinas e depósitos de água devidamente tratados.
Eliminar locais onde os mosquitos se reproduzem continua a ser uma das medidas mais eficazes para reduzir o risco.
As alterações climáticas podem favorecer a propagação?
Vários especialistas consideram que o aquecimento global pode desempenhar um papel importante.
Temperaturas médias mais elevadas prolongam a época de atividade dos mosquitos e criam condições mais favoráveis à circulação do vírus.
Além disso, alterações nos padrões de precipitação e humidade podem aumentar as áreas adequadas à reprodução destes insetos.
Embora as alterações climáticas não sejam a única explicação para o aumento dos casos na Europa, são apontadas como um dos fatores que podem favorecer a expansão geográfica da doença.
Portugal deve preocupar-se?
Neste momento, não existe indicação de um surto de grande dimensão em Portugal.
Contudo, isso não significa ausência de risco.
O país reúne várias condições favoráveis à presença do mosquito transmissor, sobretudo durante os meses mais quentes.
Por essa razão, a vigilância epidemiológica continua ativa e as autoridades acompanham permanentemente a evolução da situação na Europa.
Informação e prevenção continuam a ser as melhores defesas
A circulação do vírus do Nilo Ocidental em vários países europeus demonstra que esta doença deixou de ser uma realidade distante.
Apesar de a maioria das infeções ser ligeira ou mesmo assintomática, existem grupos particularmente vulneráveis que podem desenvolver complicações graves.
Adotar medidas simples de proteção contra as picadas de mosquito continua a ser a forma mais eficaz de reduzir o risco.
Num verão marcado pelo aumento das temperaturas e pela maior atividade destes insetos, alguns gestos aparentemente simples — como eliminar águas paradas ou utilizar repelente — podem fazer toda a diferença.




