Portugal tem risco sísmico real — e a história já deixou provas dolorosas disso. Do terramoto de 1755 ao devastador sismo de Benavente, em 1909, passando pela atividade sísmica frequente nos Açores, o território português está longe de ser imune aos grandes movimentos da Terra.
Mas existe uma diferença essencial entre risco sísmico e previsão de um terramoto. A ciência não consegue dizer em que dia, a que horas, em que local exato ou com que magnitude ocorrerá o próximo grande sismo. O que é possível fazer é estudar a perigosidade sísmica, conhecer as zonas mais expostas, avaliar a vulnerabilidade dos edifícios e preparar pessoas, famílias e comunidades. O próprio IPMA salienta que não existe atualmente um método capaz de prever, a curto prazo, quando, onde e com que magnitude ocorrerá um sismo.
E esta é talvez a mensagem mais importante: Portugal não precisa de viver com medo dos terramotos, mas precisa de estar preparado para eles.
Onde existe maior risco sísmico em Portugal?
Não é correto elaborar uma simples lista de cidades “seguras” e “perigosas”. O risco sísmico resulta da combinação de vários fatores: a perigosidade da região, a exposição da população, o tipo de terreno e a vulnerabilidade das construções.
Ainda assim, os dados históricos e a informação do IPMA permitem identificar áreas que merecem especial atenção.
No continente, o IPMA caracteriza a sismicidade como intermédia em termos globais de frequência e magnitude. A maior concentração de sismos ocorre no sul do Algarve, sobretudo a sudoeste do Cabo de São Vicente. Existem também aglomerações sísmicas identificadas na região de Évora, na faixa litoral entre Santarém e Coimbra e a leste da Costa Vicentina.
Nos Açores, a realidade é diferente: a sismicidade é considerada elevada em termos de frequência e intermédia em termos de magnitude.
Isto significa que o risco sísmico não está concentrado numa única cidade portuguesa.
Lisboa: uma cidade marcada pelo terramoto de 1755
Quando se fala de sismos em Portugal, Lisboa é inevitavelmente uma das primeiras cidades a surgir. Não apenas pela dimensão da cidade atual, mas sobretudo pela memória de uma das maiores catástrofes da história portuguesa.
A 1 de novembro de 1755, um enorme terramoto atingiu Portugal e provocou uma devastação particularmente grave em Lisboa. A Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil indica uma magnitude aproximada de 8,75 e refere que o sismo desencadeou um tsunami com cerca de 15 metros de altura, além de fenómenos de liquefação do solo e deslizamentos de terras. A tragédia não ficou limitada aos edifícios destruídos.
O impacto atingiu profundamente a população, as infraestruturas, a economia e a própria organização da cidade.
Mais de dois séculos depois, a memória permanece.
E há uma questão que continua a preocupar especialistas: o que aconteceria se um sismo de grande intensidade atingisse hoje uma zona densamente povoada da região de Lisboa?
A resposta não depende apenas da magnitude do sismo.
Depende também da qualidade e idade dos edifícios, das características dos solos, da concentração populacional e da capacidade das infraestruturas para resistirem e recuperarem.
O solo também pode fazer diferença
Um dos aspetos menos conhecidos do risco sísmico é que o mesmo terramoto pode ser sentido de forma diferente em locais relativamente próximos.
A natureza do terreno pode influenciar a propagação e a intensidade do movimento sísmico à superfície.
É por isso que a avaliação do risco não consiste simplesmente em localizar falhas geológicas num mapa.
Os estudos de perigosidade sísmica utilizam zonas sismogénicas que têm em consideração características sismológicas, tectónicas e geológicas, bem como a relação entre a frequência dos sismos e as suas magnitudes.
Esta realidade ajuda a explicar por que motivo duas zonas da mesma cidade podem apresentar vulnerabilidades diferentes perante um grande abalo.
Setúbal e Península de Setúbal: uma região que merece atenção
A região de Setúbal também surge inevitavelmente quando se analisa a sismicidade do território português.
A localização geográfica, a proximidade de zonas sísmicas relevantes, a concentração populacional e a existência de áreas urbanizadas sobre diferentes tipos de terreno são fatores que devem ser considerados numa avaliação de risco.
A própria história sísmica demonstra que a região não está afastada destes fenómenos.
Em 1858, um sismo atingiu Setúbal e Santo André, tendo sido sentido em praticamente todo o território continental. O IPMA identifica esse acontecimento entre os sismos históricos relevantes de Portugal.
Por isso, falar de risco sísmico na Península de Setúbal não significa anunciar que determinada cidade será atingida por um grande terramoto. Significa reconhecer que a preparação é importante numa região com exposição significativa.
Algarve: uma das zonas de maior atividade sísmica
O Algarve é conhecido pelas praias, pelo turismo e pelo clima ameno. Mas existe outra realidade, menos visível, que merece atenção: a atividade sísmica.
Segundo o IPMA, a maior parte dos sismos registados no continente ocorre no sul do Algarve, principalmente na zona a sudoeste do Cabo de São Vicente.
Esta área está associada a estruturas tectónicas capazes de gerar sismos importantes.
O historial sísmico da região e das áreas marítimas próximas demonstra que não se trata de uma possibilidade meramente teórica. O catálogo do IPMA identifica o sudoeste do Cabo de São Vicente como uma das principais áreas de geração de sismos importantes, incluindo os grandes eventos de 1755 e o sismo de 1969.
Faro, Lagos, Portimão e outras localidades algarvias encontram-se numa região onde a preparação para fenómenos sísmicos deve ser levada a sério.
Mas é importante não cair numa simplificação: estar no Algarve não significa que todas as localidades tenham exatamente o mesmo risco.
A perigosidade pode variar de acordo com a localização, o terreno, a distância às fontes sísmicas e as características das construções.
Vale do Tejo e Benavente: a memória do sismo de 1909
Se 1755 representa a maior tragédia sísmica da história moderna de Portugal, Benavente representa uma das mais importantes demonstrações de que grandes sismos também podem ocorrer no interior do território continental.
Na tarde de 23 de abril de 1909, um forte sismo teve epicentro na região de Benavente e Samora Correia.
O IPMA estima uma magnitude de 6,0 e uma intensidade máxima de X na escala de Mercalli modificada na zona epicentral. O sismo provocou cerca de 40 mortos e uma destruição muito significativa na região. Os efeitos foram sentidos também em Lisboa, Setúbal e Évora.
Este episódio é particularmente importante porque demonstra que o risco sísmico português não pode ser reduzido ao litoral ou à capital.
O Vale Inferior do Tejo também faz parte da história sísmica do país.
E o Porto? O risco não é zero
O Norte de Portugal apresenta, de forma geral, uma atividade sísmica diferente da observada no sul do país.
O IPMA indica que, no continente, a sismicidade é globalmente intermédia e que a maior concentração de sismos ocorre no sul do Algarve e a sudoeste do Cabo de São Vicente, existindo outras zonas de concentração sísmica.
Isso não significa, contudo, que uma cidade como o Porto esteja totalmente protegida.
Menor perigosidade não significa risco zero.
Um sismo suficientemente forte pode ser sentido a grandes distâncias e provocar efeitos diferentes consoante as características do terreno, dos edifícios e das infraestruturas.
Por isso, a melhor forma de olhar para o risco sísmico não é perguntar apenas “qual é a cidade mais perigosa?”, mas sim “quão preparada está esta comunidade para enfrentar um sismo?”
Açores: uma realidade sísmica muito particular
Nos Açores, os sismos fazem parte da própria realidade geológica do arquipélago.
O IPMA classifica a sismicidade açoriana como alta em termos de frequência e intermédia em termos de magnitude. A localização do arquipélago numa região tectonicamente complexa ajuda a explicar esta atividade.
Ao longo da história, vários sismos provocaram danos significativos.
Entre os acontecimentos mais marcantes encontram-se os sismos de 1957-1958 no Faial, o de 1980 nos Açores e o de 1998 no Faial. O catálogo histórico do IPMA regista, entre outros, o sismo de 1980 com intensidade VIII/IX e 61 vítimas mortais, bem como o de 1998, com intensidade VIII/IX e oito vítimas mortais.
Nos Açores, portanto, a preparação não é uma preocupação distante.
É uma componente essencial da prevenção e proteção das comunidades.
O perigo não está necessariamente onde se imagina
Existe uma ideia bastante comum de que o maior perigo está sempre exatamente sobre uma falha geológica.
A realidade é bastante mais complexa.
O impacto de um sismo depende de diversos fatores: magnitude, profundidade, distância à origem, características do terreno, tipo de construção e vulnerabilidade das estruturas.
Um edifício antigo e vulnerável pode sofrer danos importantes mesmo perante um sismo que não seja extraordinariamente forte.
Por outro lado, uma construção projetada e executada de acordo com normas adequadas pode apresentar um comportamento muito diferente perante o mesmo movimento do solo.
É por isso que a engenharia sísmica desempenha um papel tão importante na redução do risco.
O LNEC disponibiliza, inclusivamente, metodologias e documentos específicos para a avaliação da segurança sísmica de edifícios existentes, incluindo estruturas de betão armado e edifícios de alvenaria.
A idade do edifício pode ser importante
Quem vive numa casa antiga raramente pensa nela como uma possível ameaça.
É simplesmente a casa onde vive.
Mas, perante um grande sismo, as características construtivas tornam-se determinantes.
Materiais, técnicas de construção, alterações estruturais realizadas ao longo dos anos, estado de conservação e normas aplicáveis no momento da construção podem influenciar significativamente o comportamento do edifício.
Isto não significa que “casa antiga” seja sinónimo de “casa insegura”.
Significa que a vulnerabilidade de uma construção deve ser avaliada de forma técnica, sobretudo quando existem sinais de degradação, alterações estruturais relevantes ou outras características que possam comprometer o comportamento sísmico.
E existe ainda outro perigo: o tsunami
Quando se fala no terramoto de 1755, existe uma parte da história que não pode ser esquecida.
O mar também pode tornar-se uma ameaça.
A ANEPC identifica seis regiões tsunamigénicas capazes de gerar tsunamis sísmicos significativos para Portugal: a região da Falha da Glória, Banco Gorringe, Ferradura, Algarve, Gibraltar-Alboran e Vale do Tejo.
Segundo a mesma entidade, as zonas de maior suscetibilidade a tsunamis em Portugal continental distribuem-se ao longo da costa sul e ocidental entre o Cabo de São Vicente e Peniche, incluindo zonas estuarinas e lagunares.
O tsunami de 1755 é o exemplo histórico mais impressionante.
Depois do grande sismo, as ondas atingiram a costa portuguesa e penetraram em estuários, incluindo o Tejo, provocando danos muito graves.
Por isso, quem vive ou passa férias junto ao litoral deve conhecer também os procedimentos de emergência associados a um possível tsunami.
É possível prever o próximo grande terramoto?
Não.
E é importante dizê-lo sem ambiguidades.
O IPMA explica que não existe atualmente um método científico capaz de prever, a curto prazo, um sismo indicando com certeza quando, onde e com que magnitude irá ocorrer.
Assim, qualquer publicação nas redes sociais que anuncie uma data concreta para um grande terramoto deve ser encarada com enorme cautela.
Não é possível transformar um estudo de perigosidade sísmica numa previsão de calendário.
Os cientistas podem estudar padrões históricos, zonas sismogénicas, períodos de recorrência e probabilidades.
Não conseguem marcar no calendário o próximo terramoto.
E esta distinção é fundamental para evitar alarmismo.
O que fazer antes de um sismo?
A preparação começa muito antes de qualquer abalo.
Uma família pode adotar medidas simples para reduzir riscos dentro de casa:
- Fixar devidamente estantes, móveis altos e objetos pesados.
- Evitar colocar objetos pesados em locais elevados.
- Identificar zonas mais seguras dentro da habitação.
- Conhecer as saídas e os caminhos de evacuação.
- Definir previamente um ponto de encontro familiar.
- Ter água e alguns alimentos de emergência.
- Manter medicamentos essenciais acessíveis.
- Ter uma lanterna e meios de comunicação adequados.
- Saber onde desligar água, eletricidade ou gás, quando aplicável e em segurança.
- Conhecer os contactos e procedimentos de emergência.
Também é importante conversar com as crianças sobre o que fazer. Uma criança que sabe como reagir terá muito mais hipóteses de manter a calma quando os adultos também estiverem assustados.
E durante o sismo?
Quando a terra começa a tremer, o instinto pode mandar correr.
Mas o pânico pode aumentar o perigo.
O objetivo principal deve ser proteger-se durante o movimento, evitando janelas, objetos que possam cair e zonas onde exista risco de queda de elementos estruturais.
Não é aconselhável tentar sair precipitadamente pelas escadas enquanto o edifício está a tremer.
Depois do abalo, devem ser avaliados os perigos existentes e seguidas as instruções das autoridades.
A preparação prévia é importante precisamente porque, naquele momento, não haverá tempo para pesquisar no telemóvel o que fazer.
O que acontece depois de um grande sismo?
O primeiro abalo pode não ser o único problema.
Podem ocorrer réplicas, cortes de eletricidade, interrupções de água, falhas de telecomunicações, incêndios, estradas bloqueadas ou danos em edifícios e infraestruturas.
Por isso, uma família preparada deve pensar também nas horas seguintes.
É igualmente importante evitar sobrecarregar as redes telefónicas e não espalhar informações não confirmadas.
O IPMA disponibiliza informação sobre a atividade sísmica registada pela Rede Sísmica Nacional e atualiza os dados à medida que são analisados novos elementos.
Em situação de emergência, as indicações oficiais devem prevalecer sempre sobre rumores nas redes sociais.
Afinal, quais são as zonas de Portugal que merecem maior atenção?
Não existe uma classificação simples que permita dizer que determinada cidade será necessariamente mais afetada do que outra.
Mas, olhando para a informação científica e histórica disponível, há áreas que merecem particular atenção:
Sul do Algarve e sudoeste do Cabo de São Vicente — uma das principais zonas de atividade sísmica do continente.
Lisboa e região envolvente — elevada concentração populacional e infraestrutural, associada a uma história sísmica particularmente relevante e a diferentes condições geológicas.
Setúbal e Península de Setúbal — região com historial sísmico e elevada exposição urbana.
Vale Inferior do Tejo e Benavente — área marcada pelo importante sismo de 1909.
Açores — arquipélago com atividade sísmica elevada em termos de frequência.
Mas existe uma ressalva essencial: o risco é local. Mesmo dentro da mesma região, diferentes solos, edifícios e níveis de exposição podem alterar significativamente as consequências de um sismo.
Portugal deve ter medo ou estar preparado?
Talvez a melhor resposta seja: nenhum dos dois extremos.
Viver aterrorizado à espera de um terramoto não é prevenção.
Ignorar o risco também não é.
A atitude mais racional está no meio: conhecer a realidade, preparar a habitação, conversar com a família, saber como agir e acompanhar fontes oficiais.
Portugal tem uma memória sísmica demasiado importante para ignorar o problema.
1755 continua a ser uma cicatriz na história de Lisboa.
1909 continua a lembrar Benavente de que os grandes sismos também podem ocorrer no interior do continente.
Os Açores continuam a demonstrar diariamente que a atividade sísmica faz parte da dinâmica natural do território.
E o Algarve permanece numa das zonas continentais onde a atividade sísmica assume particular relevância.
A terra não envia um aviso com antecedência.
Não há uma notificação no telemóvel a dizer que faltam dez minutos.
Não existe uma data que possa ser assinalada no calendário.
Mas existe algo que está ao alcance de todos: a preparação.
Porque talvez nunca seja necessário utilizar um kit de emergência. Talvez nunca seja necessário executar um plano familiar. Talvez nunca se viva um grande terramoto.
Mas, se esse dia chegar, cada segundo contará.
E nesse momento, saber o que fazer pode fazer toda a diferença.
O melhor momento para se preparar para um terramoto não é depois de a terra começar a tremer. É agora.
Fontes e informação oficial
A informação deste artigo foi revista à luz de fontes do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) e do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC).




