Os dois fortes sismos que atingiram recentemente a Venezuela voltaram a recordar uma realidade que muitas vezes permanece esquecida até ao momento em que a terra treme: nenhum país com atividade sísmica está totalmente imune às consequências de um grande terramoto.
A sucessão de dois abalos de elevada magnitude, separados por apenas alguns segundos, demonstrou como uma sequência sísmica pode multiplicar os danos materiais e aumentar significativamente o risco para a população.
Embora Portugal apresente características geológicas diferentes das da Venezuela, os especialistas alertam que o território nacional continua exposto a um risco sísmico relevante. Mais preocupante ainda é o facto de existirem milhares de edifícios construídos segundo normas antigas, que poderão não oferecer a resistência necessária perante um sismo de grande intensidade.
A questão impõe-se: estará Portugal verdadeiramente preparado para enfrentar um evento semelhante?
Dois sismos consecutivos aumentaram o risco na Venezuela
Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), a Venezuela foi atingida por um sismo de magnitude 7,2, seguido cerca de 40 segundos depois por um segundo abalo de 7,5.
Esta sucessão quase imediata representa um dos cenários mais perigosos em Engenharia Sísmica.
O primeiro sismo fragiliza estruturas, cria fissuras invisíveis e reduz a capacidade resistente dos edifícios. Quando um segundo abalo ocorre poucos segundos depois, muitas construções já perderam parte da sua estabilidade, aumentando significativamente a probabilidade de colapso.
É precisamente esta combinação que preocupa os especialistas.
Portugal também enfrenta risco sísmico
Apesar de a realidade geológica portuguesa ser diferente da venezuelana, Portugal encontra-se localizado numa região com histórico de forte atividade sísmica. O país continua marcado pelo terramoto de 1 de novembro de 1755, considerado um dos mais devastadores da história europeia, que destruiu grande parte de Lisboa e alterou profundamente o desenvolvimento urbano da capital.
Desde então, a ciência evoluiu significativamente, mas o risco nunca desapareceu.
Segundo o especialista em Engenharia Sísmica Xavier Romão, um cenário de grande intensidade poderia igualmente provocar danos muito significativos em território nacional, sobretudo em determinadas zonas urbanas.
Nem todos os edifícios respondem da mesma forma
Um dos aspetos frequentemente ignorados é que dois edifícios localizados lado a lado podem reagir de forma completamente diferente perante o mesmo sismo.
Esta diferença depende de diversos fatores, entre os quais:
- ano de construção;
- normas técnicas em vigor na época;
- qualidade dos materiais utilizados;
- estado de conservação;
- tipo de fundações;
- características do terreno onde assentam.
Assim, a intensidade do sismo é apenas uma parte da equação.
A vulnerabilidade das construções desempenha um papel igualmente determinante.
As construções mais antigas inspiram maior preocupação
Em Portugal, os especialistas apontam para uma vulnerabilidade acrescida em muitos edifícios construídos antes da entrada em vigor das normas sísmicas mais exigentes.
Particular atenção merece uma parte significativa das construções erguidas durante as décadas de 1980 e 1990, concebidas numa altura em que os regulamentos estruturais eram menos rigorosos do que os atualmente aplicados.
Embora muitas destas edificações cumprissem plenamente a legislação existente na época, poderão apresentar limitações perante um sismo de elevada magnitude.
A situação é ainda mais sensível em zonas históricas, onde persistem edifícios bastante antigos e, em muitos casos, degradados pelo tempo.
O solo também influencia os estragos
Quando se fala em terramotos, a maioria das pessoas concentra-se apenas na magnitude.
No entanto, os especialistas recordam que o tipo de solo pode amplificar significativamente os efeitos sentidos à superfície.
Segundo a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, determinados terrenos conseguem aumentar a intensidade das vibrações sísmicas.
Em algumas situações poderá ainda ocorrer um fenómeno conhecido como liquefação, durante o qual solos saturados em água perdem temporariamente resistência, comprometendo a estabilidade das fundações.
Este fenómeno explica porque razão bairros muito próximos podem sofrer níveis de destruição bastante diferentes durante o mesmo sismo.
Portugal continua a ser um país de risco sísmico
A Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil identifica Portugal como um dos países europeus onde o risco sísmico continua a merecer especial atenção.
Embora não seja possível prever quando ocorrerá um grande terramoto, sabe-se que determinadas regiões apresentam maior perigosidade, nomeadamente:
- Lisboa e Vale do Tejo;
- Algarve;
- litoral sudoeste;
- Açores.
Estas áreas encontram-se mais próximas de importantes estruturas tectónicas responsáveis pela atividade sísmica que afeta o território nacional.
A prevenção continua a ser a melhor defesa
Especialistas defendem que o conhecimento técnico atualmente disponível permite reduzir significativamente os riscos.
O reforço estrutural de edifícios vulneráveis, aliado ao cumprimento rigoroso das normas de construção, constitui uma das principais formas de minimizar futuras perdas humanas e materiais.
Contudo, estas intervenções exigem investimento, planeamento e programas públicos de longo prazo.
Sem essa aposta preventiva, milhares de edifícios continuarão expostos às consequências de um eventual grande sismo.
O papel do Laboratório Nacional de Engenharia Civil
O Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) tem vindo a alertar para a existência de inúmeras construções vulneráveis espalhadas pelo território português.
Os especialistas defendem que a identificação sistemática dos edifícios de maior risco deverá constituir uma prioridade nacional.
As zonas urbanas antigas, especialmente aquelas que apresentam sinais de degradação, merecem uma atenção particular, uma vez que poderão concentrar um número elevado de construções estruturalmente frágeis.
O que pode cada cidadão fazer?
Embora ninguém consiga impedir um terramoto, existem medidas simples que aumentam significativamente a segurança, sublinha o Postal.
Entre elas destacam-se:
- fixar estantes, armários e móveis pesados às paredes;
- evitar colocar objetos pesados em locais elevados;
- conhecer os locais mais seguros dentro da habitação;
- preparar um pequeno kit de emergência;
- definir previamente um plano familiar de atuação.
Estas ações podem fazer a diferença durante os primeiros minutos após um sismo.
Um alerta que não deve ser ignorado
Os recentes acontecimentos na Venezuela servem como um poderoso lembrete de que a natureza continua a desafiar os limites da engenharia.
Portugal dispõe hoje de mais conhecimento científico, melhores técnicas construtivas e sistemas de monitorização muito mais avançados do que há algumas décadas.
Ainda assim, milhares de edifícios permanecem vulneráveis.
Investir na prevenção, reforçar as construções mais antigas e sensibilizar a população poderá ser determinante para reduzir o impacto do próximo grande sismo.
Porque, quando a terra treme, a preparação faz frequentemente a diferença entre resistir e colapsar.




