Sempre que a terra treme, instala-se inevitavelmente a preocupação. Depois de um sismo sentido em Portugal, uma das perguntas mais frequentes é sempre a mesma: poderá ocorrer um tsunami?
A resposta não é tão simples quanto parece.
Embora alguns dos maiores tsunamis da história tenham sido desencadeados por fortes sismos submarinos, nem todos os terramotos originam um tsunami. Para que isso aconteça, têm de verificar-se condições geológicas muito específicas.
Portugal é um país com uma longa história sísmica e encontra-se numa região onde o risco existe, embora seja relativamente reduzido quando comparado com outras zonas do planeta, como o Oceano Pacífico.
Mas até que ponto devemos preocupar-nos? Existe realmente o risco de um tsunami atingir a costa portuguesa? E será possível prever um fenómeno desta dimensão? Descubra tudo o que é importante saber.
O que é um tsunami?
Um tsunami consiste numa série de ondas gigantes geradas por uma deslocação brusca de enormes massas de água.
Ao contrário das ondas comuns provocadas pelo vento, os tsunamis têm origem em fenómenos geológicos de grande intensidade, capazes de deslocar o fundo do oceano.
Em mar aberto, estas ondas podem viajar a velocidades superiores a 700 km/h, praticamente à velocidade de um avião comercial.
Curiosamente, no alto mar podem ter apenas alguns centímetros de altura, tornando-se praticamente impercetíveis para embarcações. É quando se aproximam da costa que tudo muda. À medida que a profundidade diminui, a energia da onda concentra-se verticalmente, podendo formar paredes de água com vários metros de altura e enorme poder destrutivo.
O que pode provocar um tsunami?
Embora os terramotos sejam a principal causa, existem vários fenómenos capazes de originar um tsunami.
1. Terramotos submarinos
São responsáveis pela maioria dos tsunamis registados no mundo.
Quando duas placas tectónicas se movimentam subitamente e provocam uma elevação ou afundamento do fundo do mar, milhões de toneladas de água são deslocadas em poucos segundos.
É precisamente essa deslocação que gera as ondas gigantes.
Contudo, nem todos os sismos submarinos provocam tsunamis.
Para isso acontecer, normalmente é necessário que:
- o sismo tenha elevada magnitude;
- o movimento seja predominantemente vertical;
- o epicentro esteja localizado sob o oceano.
2. Deslizamentos submarinos
Grandes massas de sedimentos podem desprender-se das encostas submarinas.
Quando isso acontece, o volume de água deslocado pode gerar um tsunami, por vezes muito localizado, mas extremamente perigoso.
3. Erupções vulcânicas
As erupções vulcânicas submarinas ou o colapso parcial de ilhas vulcânicas também conseguem provocar tsunamis.
Os Açores, devido à sua origem vulcânica, são particularmente sensíveis a este tipo de fenómeno.
4. Impacto de meteoritos
Apesar de extremamente raro, o impacto de um grande meteorito no oceano teria capacidade para gerar um tsunami de enormes proporções.
Felizmente, trata-se de um cenário excecional.
Um sismo provoca sempre um tsunami?
Não.
Esta é uma das ideias mais erradas e mais difundidas.
Na realidade, a maioria dos sismos nunca gera tsunamis.
Mesmo alguns terramotos de magnitude elevada podem não produzir qualquer deslocação significativa da água.
Por outro lado, há sismos menos intensos que, dependendo da profundidade, localização e tipo de falha geológica, conseguem originar ondas relevantes.
Cada caso é analisado individualmente pelos centros internacionais de monitorização.
Portugal corre risco de sofrer um tsunami?
Sim.
Embora o risco seja relativamente reduzido, Portugal encontra-se numa região suscetível à ocorrência de tsunamis.
Segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), tanto Portugal Continental como os Açores e a Madeira podem ser afetados por tsunamis gerados no Atlântico.
As principais zonas de risco situam-se:
- ao largo do sudoeste da Península Ibérica;
- no Golfo de Cádis;
- em zonas de atividade tectónica do Atlântico;
- na região vulcânica dos Açores.
Ao longo dos últimos dois mil anos foram registados vários tsunamis que atingiram a costa portuguesa.
Grande parte deles teve origem em fortes sismos submarinos.
O terramoto de 1755 continua a ser o maior exemplo
Sempre que se fala em tsunamis em Portugal, é impossível não recordar o devastador terramoto de 1 de novembro de 1755.
Depois do enorme sismo, Lisboa foi atingida por sucessivas ondas gigantes que destruíram parte significativa da frente ribeirinha.
Milhares de pessoas que tinham fugido dos edifícios em direção ao rio acabaram surpreendidas pelo avanço repentino das águas.
O desastre provocou dezenas de milhares de vítimas em Portugal, Espanha e norte de África.
Ainda hoje continua a ser um dos acontecimentos naturais mais marcantes da história europeia.
Poderá repetir-se um fenómeno semelhante?
Segundo vários especialistas em sismologia, sim.
Não é possível prever quando ocorrerá um novo grande sismo semelhante ao de 1755.
No entanto, a comunidade científica considera que o risco existe.
O investigador João Duarte Fonseca explica que determinadas estruturas geológicas existentes no Golfo de Cádis continuam a apresentar condições que poderão gerar novos grandes sismos e, eventualmente, tsunamis.
A boa notícia é que atualmente existem sistemas muito mais evoluídos de monitorização, comunicação e proteção civil do que há quase três séculos.
Portugal está preparado?
Portugal integra atualmente o Sistema de Alerta de Tsunamis para o Atlântico Nordeste e Mediterrâneo, coordenado pela UNESCO.
Em caso de risco real, o sistema consegue emitir alertas em poucos minutos para as autoridades nacionais.
O país participa ainda em exercícios internacionais de resposta a tsunamis e possui planos de emergência em diversas zonas costeiras.
Apesar disso, muitos especialistas defendem que ainda existe margem para melhorar:
- reforço da educação pública;
- melhor sinalização das zonas de evacuação;
- realização de simulacros;
- construção de infraestruturas mais resilientes.
Existem sistemas capazes de prever tsunamis?
Os tsunamis não podem ser previstos com antecedência.
O que existe atualmente são sistemas capazes de os detetar rapidamente depois da ocorrência de um sismo.
No Oceano Pacífico, países como o Japão e os Estados Unidos dispõem das redes de monitorização mais avançadas do mundo.
No Atlântico, continuam a ser desenvolvidos projetos para reforçar estes mecanismos de alerta precoce.
Quanto mais cedo for emitido um aviso, maiores são as probabilidades de salvar vidas.
Houve risco de tsunami após o sismo sentido em Portugal?
Após o sismo registado ao largo da costa portuguesa, muitas pessoas recearam a possibilidade de um tsunami.
No entanto, as autoridades esclareceram rapidamente que não existia qualquer risco.
Apesar de o terramoto ter sido sentido em várias regiões do país, a magnitude, profundidade e características do evento não reuniam as condições necessárias para gerar um tsunami.
Foram igualmente registadas algumas réplicas, mas nenhuma alterou essa avaliação.
Como agir perante um alerta de tsunami?
Caso alguma vez seja emitido um alerta oficial, deverá agir de imediato.
As principais recomendações são:
- abandonar rapidamente zonas costeiras;
- dirigir-se para locais elevados;
- nunca permanecer junto ao mar para observar as ondas;
- seguir apenas as indicações da Proteção Civil;
- acompanhar informação oficial através do IPMA e das autoridades.
Em situações deste tipo, cada minuto pode fazer a diferença.
A prevenção continua a ser a melhor defesa
Portugal possui condições geológicas que justificam uma vigilância permanente, mas isso não significa que um tsunami seja iminente.
Os especialistas recordam que o conhecimento científico evoluiu significativamente nas últimas décadas e que hoje existem sistemas muito mais eficazes para monitorizar a atividade sísmica e emitir alertas.
Ainda assim, conhecer os riscos, compreender como estes fenómenos acontecem e saber como reagir continua a ser uma das formas mais importantes de proteger vidas.
Quando a natureza demonstra toda a sua força, informação rigorosa, preparação e rapidez de resposta são os maiores aliados da população.




