Imagine sentir um forte sismo junto à costa. Em poucos segundos, tudo parece voltar à normalidade. Mas, de repente, o mar recua centenas de metros de forma invulgar, deixando o fundo do oceano exposto. O silêncio instala-se. Minutos depois, uma enorme massa de água avança a grande velocidade em direção à costa.
Parece um cenário digno de um filme-catástrofe, mas trata-se de um fenómeno natural perfeitamente possível. Portugal já viveu uma das maiores tragédias da sua História, em 1755, quando um poderoso terramoto gerou um tsunami devastador que destruiu grande parte de Lisboa e atingiu várias zonas da costa portuguesa.
Hoje, a ciência confirma que o risco continua a existir. Embora seja impossível prever quando ocorrerá um novo grande sismo, os especialistas sabem quais são as zonas mais vulneráveis e quais os comportamentos que podem salvar vidas.

Portugal encontra-se numa das regiões sísmicas mais importantes da Europa
O território português situa-se próximo da fronteira entre as placas tectónicas Euro-Asiática e Africana, uma das áreas geologicamente mais ativas do Atlântico Nordeste.
Grande parte dos sismos sentidos em Portugal são de reduzida magnitude e não provocam danos significativos. Contudo, existem estruturas tectónicas capazes de gerar abalos de grande intensidade, entre as quais se destacam:
- Banco de Gorringe;
- Zona Açores-Gibraltar;
- Golfo de Cádis;
- Falhas submarinas ao largo da costa portuguesa.
Quando um destes sismos ocorre sob o fundo do mar e provoca deslocação vertical da crosta terrestre, enormes volumes de água podem ser empurrados, originando um tsunami.
Ao contrário das ondas normais, um tsunami transporta uma quantidade gigantesca de energia durante centenas ou milhares de quilómetros.
Porque é que um tsunami é tão perigoso?
Em mar aberto, um tsunami pode deslocar-se a velocidades superiores a 700 km/h, sendo praticamente impercetível para embarcações. O verdadeiro perigo surge quando a onda se aproxima da costa. À medida que a profundidade diminui, a velocidade reduz-se drasticamente, mas toda essa energia transforma-se numa parede de água que pode atingir vários metros de altura.
Além da primeira onda, podem surgir várias outras durante horas, algumas ainda maiores.
Por esse motivo, nunca se deve regressar à zona costeira depois da passagem da primeira vaga.

Algarve é uma das regiões mais vulneráveis
Diversos estudos científicos colocam o Algarve entre as zonas portuguesas potencialmente mais expostas a tsunamis gerados no Atlântico.
Cidades como:
- Portimão;
- Lagos;
- Albufeira;
- Faro;
- Tavira;
- Vila Real de Santo António.
podem dispor de um tempo de reação muito reduzido, dependendo da localização e magnitude do sismo que origine o fenómeno.
A elevada concentração de população junto à linha de costa e a reduzida altitude de muitas zonas aumentam significativamente a vulnerabilidade.
Lisboa poderá voltar a enfrentar um cenário semelhante ao de 1755
A Área Metropolitana de Lisboa continua a ser uma das regiões que merece maior atenção.
Concelhos como:
- Lisboa;
- Oeiras;
- Cascais;
- Almada;
- Barreiro;
- Seixal;
- Setúbal;
- Península de Tróia.
podem sofrer impactos significativos em determinados cenários de tsunami.
O estuário do Tejo funciona como um corredor natural que poderá amplificar os efeitos da propagação da água para o interior.
Foi precisamente nesta região que ocorreu uma das maiores catástrofes naturais da História da Europa.
Centro de Portugal também está sob vigilância
A costa centro apresenta igualmente zonas suscetíveis.
Entre elas destacam-se:
- Peniche;
- Nazaré;
- Figueira da Foz;
- Aveiro.
Em algumas destas áreas, a configuração da costa poderá contribuir para aumentar localmente a altura das ondas.
Açores vivem permanentemente com risco sísmico
Os Açores localizam-se numa das zonas tectónicas mais ativas do planeta.
A proximidade da junção de placas torna o arquipélago particularmente vulnerável tanto a sismos como a tsunamis.
Embora os habitantes estejam mais habituados à atividade sísmica, o risco continua permanentemente monitorizado pelas autoridades.
Madeira também pode ser afetada
Na Madeira, o risco é considerado inferior ao dos Açores, mas não inexistente.
Além dos tsunamis gerados por grandes sismos oceânicos, existem cenários associados a deslizamentos submarinos de grande dimensão que podem originar ondas destrutivas.
As zonas costeiras do Funchal, Câmara de Lobos e Ponta do Sol encontram-se entre as áreas analisadas pelos especialistas.
Portugal dispõe atualmente de sistemas modernos de alerta
Depois de vários desastres ocorridos noutras partes do mundo, os sistemas internacionais de vigilância evoluíram significativamente.
Portugal integra atualmente o sistema europeu de alerta de tsunamis coordenado pela UNESCO.
O Centro de Alerta de Tsunamis do IPMA monitoriza continuamente:
- atividade sísmica;
- alterações no fundo oceânico;
- dados recolhidos por sensores e estações sísmicas;
- modelos de propagação das ondas.
Sempre que existe risco significativo, as autoridades podem emitir alertas para as zonas potencialmente afetadas.
O problema continua a ser o tempo
Mesmo com tecnologia avançada, existe uma limitação inevitável.
Quando o epicentro ocorre relativamente perto da costa portuguesa, o tsunami pode atingir algumas zonas em poucas dezenas de minutos.
Por isso, os especialistas insistem que reconhecer os sinais naturais pode salvar vidas.
Os sinais que nunca devem ser ignorados
Caso esteja junto ao mar e ocorra um sismo forte ou prolongado, não espere por uma confirmação oficial.
Os principais sinais de alerta são:
- tremor de terra intenso;
- recuo invulgar do mar;
- ruído forte proveniente do oceano semelhante ao de um comboio ou avião;
- comportamento anormal da água.
Se observar algum destes sinais, abandone imediatamente a zona costeira.
O que deve fazer para aumentar as probabilidades de sobrevivência
Em caso de suspeita de tsunami:
- Afaste-se imediatamente da praia, porto ou marginal.
- Procure zonas elevadas ou edifícios robustos.
- Nunca vá observar o mar.
- Não utilize o automóvel se provocar congestionamento.
- Siga sempre as instruções da Proteção Civil.
- Não regresse enquanto não existir autorização oficial.
Recorde que um tsunami pode ser composto por várias ondas sucessivas.
O terramoto de 1755 continua a ser um aviso para o futuro
No dia 1 de novembro de 1755, Lisboa sofreu uma das maiores catástrofes naturais alguma vez registadas na Europa.
Ao violento terramoto seguiram-se incêndios devastadores e um tsunami que destruiu grande parte da frente ribeirinha.
Milhares de pessoas perderam a vida em Portugal, Espanha e Norte de África.
Passados quase três séculos, este episódio continua a ser estudado por sismólogos de todo o mundo.
Preparação é a melhor forma de reduzir o risco
Ninguém consegue impedir um sismo ou um tsunami.
Mas é possível reduzir significativamente o número de vítimas através da preparação.
Conhecer as rotas de evacuação, participar em simulacros, saber interpretar os sinais naturais e agir rapidamente pode fazer toda a diferença.
O Atlântico oferece paisagens deslumbrantes e faz parte da identidade portuguesa. Contudo, também recorda que a Natureza possui uma força impossível de controlar.
Estar informado hoje pode significar salvar vidas amanhã.




