Poucos portugueses sabem que existe uma expressão italiana que associa o nosso povo a quem tenta obter vantagens sem pagar. A frase “Non fare il portoghese”, que significa literalmente “Não faças de português”, continua a ser utilizada em Itália para repreender quem procura entrar gratuitamente num espetáculo, evitar pagar uma conta ou aproveitar benefícios a que não tem direito.
À primeira vista, a expressão pode parecer ofensiva ou até incompreensível. Afinal, porque motivo os portugueses ficaram ligados a esta ideia?
A resposta encontra-se num episódio fascinante da História, protagonizado por D. Manuel I, um Papa renascentista e uma das mais sumptuosas embaixadas alguma vez organizadas por Portugal.
Curiosamente, a origem desta expressão revela muito mais sobre quem abusou de um privilégio do que sobre os portugueses.
O que significa “Non fare il portoghese”?
Em Itália, a expressão “Non fare il portoghese” é usada para censurar alguém que tenta beneficiar de um serviço sem pagar ou procura aproveitar-se de uma situação de forma oportunista.
É equivalente a expressões como:
- “não se faça de esperto”;
- “não tente entrar sem pagar”;
- “pague o que deve”.
Embora ainda seja utilizada em diversas regiões italianas, muitos desconhecem completamente a sua verdadeira origem histórica.
E essa origem está longe de retratar um comportamento típico dos portugueses.
Tudo começou com D. Manuel I
Para compreender esta história é necessário recuar até ao reinado de D. Manuel I, um dos monarcas mais importantes da História de Portugal.
Conhecido como “O Venturoso”, governou entre 1495 e 1521, numa época em que o país vivia o auge da Era dos Descobrimentos. As viagens marítimas tinham aberto novas rotas comerciais, trazendo para Portugal enormes riquezas provenientes de África, da Índia, do Oriente e, mais tarde, do Brasil. O reino afirmava-se como uma das maiores potências europeias.
D. Manuel I pretendia reforçar ainda mais essa posição no plano político e religioso.
Foi com esse objetivo que organizou uma embaixada extraordinária destinada ao Papa.

A embaixada portuguesa que deslumbrou Roma
No início de 1514, D. Manuel I enviou a Roma uma das mais luxuosas missões diplomáticas da época.
A delegação era chefiada por Tristão da Cunha, acompanhado por figuras como Diogo de Pacheco, João de Faria e Garcia de Resende, responsável pelo registo da missão.
No dia 12 de março de 1514, a embaixada portuguesa percorreu as ruas de Roma num desfile que ficou para a História.
Os romanos nunca tinham visto nada semelhante.
Os membros da comitiva exibiam vestes ricamente ornamentadas e transportavam presentes exóticos provenientes dos territórios portugueses espalhados pelo mundo.
A mensagem era clara.
Portugal era uma potência global.

Presentes dignos de um rei
Os presentes oferecidos ao Papa Leão X impressionaram profundamente a corte pontifícia.
Entre eles encontravam-se:
- joias de enorme valor;
- tecidos orientais;
- especiarias raras;
- objetos artísticos;
- um cavalo árabe;
- leopardos;
- um jaguar.
Mas houve um presente que ultrapassou todos os restantes.
Um magnífico elefante branco, conhecido como Hanno (ou Annone, em italiano).
O animal tornou-se rapidamente uma das grandes atrações de Roma.
O Papa afeiçoou-se profundamente ao elefante, que passou a integrar as cerimónias e festividades da corte pontifícia.
A sua fama espalhou-se por toda a Europa.
Infelizmente, Hanno morreu apenas dois anos depois, em 1516, permanecendo até hoje como uma das figuras mais curiosas da história do Vaticano.
O privilégio concedido pelo Papa
O sucesso da embaixada portuguesa foi tão grande que Papa Leão X decidiu distinguir oficialmente os portugueses.
Segundo a tradição histórica, concedeu-lhes diversos privilégios durante a permanência em Roma.
Entre esses benefícios encontrava-se a possibilidade de usufruir gratuitamente de determinados serviços e espaços públicos, incluindo alguns espetáculos, hospedarias e estabelecimentos frequentados pela corte.
Tratava-se de uma recompensa diplomática.
Não era um privilégio concedido ao acaso.
Era um reconhecimento pelo prestígio internacional de Portugal e pela magnificência da missão enviada por D. Manuel I.
Quando os italianos começaram a fazer-se passar por portugueses
Naturalmente, a notícia espalhou-se rapidamente.
Muitos habitantes de Roma perceberam que bastava afirmarem ser portugueses para tentarem beneficiar dessas isenções.
Começaram então a apresentar-se como membros da comunidade portuguesa sempre que pretendiam evitar determinados pagamentos.
Na realidade, não eram portugueses.
Apenas fingiam sê-lo.
Foi precisamente esse comportamento que deu origem à expressão “fare il portoghese”, ou seja, “fazer-se passar por português” para obter uma vantagem indevida.
Com o passar do tempo, o verdadeiro significado perdeu-se.
A expressão deixou de fazer referência aos italianos que fingiam ser portugueses.
Passou, injustamente, a associar os próprios portugueses ao comportamento daqueles impostores.
Uma expressão que sobreviveu aos séculos
Mais de cinco séculos depois, a expressão continua presente no vocabulário italiano.
Embora muitos a utilizem sem intenção ofensiva, poucos conhecem a sua verdadeira origem.
Curiosamente, a história demonstra precisamente o contrário da ideia que acabou por prevalecer.
Os portugueses nunca procuraram entrar gratuitamente nos locais.
Limitavam-se a usufruir de um privilégio oficialmente concedido pelo Papa.
Quem abusou da situação foram outros.
Foi a repetição desse comportamento que acabou por distorcer completamente o significado inicial.
Uma curiosidade histórica pouco conhecida
A história de “Non fare il portoghese” é frequentemente apontada como um dos exemplos mais curiosos de como determinadas expressões populares sobrevivem ao longo dos séculos, mesmo quando a realidade que lhes deu origem é praticamente esquecida.
É também uma demonstração de como os acontecimentos históricos podem transformar profundamente o significado das palavras.
Aquilo que começou por representar uma distinção diplomática atribuída a Portugal acabou por converter-se numa expressão popular de sentido pejorativo.
O legado de D. Manuel I
Apesar desta curiosa consequência linguística, o reinado de D. Manuel I continua a ser recordado como um dos períodos mais brilhantes da História de Portugal.
Foi durante o seu governo que:
- Vasco da Gama consolidou a rota marítima para a Índia;
- Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil;
- o comércio português atingiu uma dimensão sem precedentes;
- nasceu o estilo arquitetónico manuelino, hoje Património Mundial.
O esplendor do império português impressionava toda a Europa.
A embaixada enviada a Roma foi apenas uma das muitas demonstrações desse poder.
Uma expressão que conta uma história diferente daquela que parece
À primeira vista, “Non fare il portoghese” pode parecer uma crítica aos portugueses.
Mas basta conhecer a sua origem para perceber que a realidade foi bem diferente.
Os portugueses não evitaram pagar porque fossem maus pagadores.
Beneficiaram de um privilégio oficialmente concedido pelo Papa como reconhecimento diplomático.
Foram outros que decidiram aproveitar essa situação, fingindo pertencer à comunidade portuguesa.
Ao longo dos séculos, a memória coletiva alterou os factos e transformou uma distinção honorífica numa expressão injusta.
Hoje, conhecer esta história é também uma forma de recuperar a verdade por detrás de uma das expressões mais curiosas da língua italiana.




