Portugal tem uma ligação profunda ao mar. Durante séculos, os oceanos foram caminhos de partida, aventura, descoberta e encontro com outros povos. Dessa memória nasceu uma identidade marítima que continua presente na cultura, na história e no imaginário português. E poucas embarcações representam tão bem essa herança como o majestoso Navio-Escola Sagres.
Com as suas velas brancas, os três mastros imponentes e as inconfundíveis Cruzes de Cristo pintadas no pano, o Sagres é muito mais do que um navio da Marinha Portuguesa. É um símbolo nacional, uma embaixada flutuante e uma verdadeira escola de coragem, disciplina e conhecimento do mar.
Há quem lhe chame o mais belo navio do mundo. A sua silhueta elegante, sobretudo quando navega de velas desfraldadas, ajuda a perceber porquê. Mas a beleza do Sagres não está apenas na sua aparência. Está também na história extraordinária que transporta: nasceu na Alemanha, atravessou a Segunda Guerra Mundial, serviu a Marinha do Brasil e acabou por encontrar em Portugal a sua casa definitiva.
Desde 1962, navega sob a bandeira portuguesa, formando gerações de oficiais, visitando portos de todo o mundo e levando consigo a imagem de um país cuja história está profundamente ligada aos oceanos.

Navio-Escola Sagres: nasceu na Alemanha, tornou-se um símbolo de Portugal
A história do atual Navio-Escola Sagres começa longe de Portugal, nos estaleiros da Blohm & Voss, em Hamburgo, na Alemanha. O contrato para a sua construção foi assinado em dezembro de 1936. A quilha foi colocada a 15 de julho de 1937 e o navio foi lançado à água a 30 de outubro desse mesmo ano. No entanto, só ficou concluído e foi incorporado na Marinha Alemã em fevereiro de 1938.
Recebeu então o nome de Albert Leo Schlageter e foi concebido para servir como navio-escola da Kriegsmarine, a Marinha de Guerra alemã. O Sagres fazia parte de uma série de quatro veleiros encomendados pela Marinha Alemã, conhecidos pela sua construção robusta e pelas características que os tornaram particularmente adequados à formação de marinheiros.
O primeiro foi o Gorch Fock, construído em 1933. Seguiu-se o Horst Wessel, em 1936, que viria a tornar-se o atual USCGC Eagle, ao serviço da Guarda Costeira dos Estados Unidos. O terceiro foi precisamente o Albert Leo Schlageter, futuro Sagres português. O quarto, chamado Herbert Norkus, nunca chegou a ser concluído devido ao início da guerra.
O estaleiro alemão construiu ainda o veleiro Mircea para a Marinha Romena, seguindo o mesmo projeto de base. Estas embarcações ficaram ligadas por uma história comum e continuam a ser reconhecidas pela sua elegância e características de navegação.

A Segunda Guerra Mundial mudou o destino do navio
Quando começou a Segunda Guerra Mundial, em 1939, o Albert Leo Schlageter já se encontrava ao serviço da Marinha Alemã. Durante grande parte do conflito, permaneceu atracado no porto de Kiel, sendo utilizado para a instrução de marinharia e navegação. Em 1944, voltou a navegar no mar Báltico, numa altura em que a Marinha Alemã pretendia reforçar a preparação dos seus marinheiros.
Foi durante uma dessas viagens de instrução que ocorreu um dos episódios mais dramáticos da sua história.
A 4 de novembro de 1944, durante um temporal, o navio embateu numa mina. O acidente provocou a morte de 18 elementos da guarnição. Apesar da violência do impacto, a embarcação conseguiu sobreviver, graças à sua estrutura compartimentada e às anteparas estanques que limitavam a entrada de água.
Depois das reparações, foi levado para Flensburg, onde se encontrava quando a guerra terminou na Europa.
No final do conflito, o navio passou para as mãos dos vencedores. Coube aos Estados Unidos da América, juntamente com outras embarcações alemãs, como parte da distribuição dos bens apreendidos após a derrota da Alemanha.
O seu destino estava prestes a mudar novamente. E, desta vez, o caminho conduzi-lo-ia até à América do Sul.

Guanabara: os anos ao serviço da Marinha do Brasil
Depois da guerra, os Estados Unidos não encontraram uma instituição nacional interessada em ficar com o veleiro. Em 1948, decidiram cedê-lo à Marinha do Brasil, mediante o pagamento de um valor simbólico de 5000 dólares.
A embarcação recebeu o nome de Guanabara, em homenagem à conhecida baía do Rio de Janeiro.
O seu estado exigia reparações importantes e a viagem até ao Brasil foi inicialmente realizada a reboque. Depois de recuperado, passou a desempenhar funções de navio-escola, contribuindo para a formação de marinheiros brasileiros.
Durante mais de uma década, realizou numerosas viagens de instrução ao longo da costa brasileira. A sua última viagem ao serviço da Marinha do Brasil terminou a 21 de julho de 1959, tendo sido formalmente retirado do serviço em novembro de 1960.
Portugal acompanhava a situação de perto. A antiga embarcação utilizada pela Marinha Portuguesa como navio-escola já não reunia as condições necessárias para assegurar a continuidade das viagens de instrução.
Foi então que surgiu a oportunidade de adquirir o Guanabara.

Como chegou a Portugal e se tornou o Navio-Escola Sagres?
Em 1961, Portugal procurava uma embarcação capaz de substituir o anterior navio-escola Sagres. O Guanabara apresentava características que correspondiam às necessidades da Marinha Portuguesa.
A aquisição ficou muito ligada à intervenção do Dr. Pedro Teotónio Pereira, então Ministro da Presidência, cuja ação foi determinante para concretizar o negócio.
O contrato de compra foi assinado no Rio de Janeiro a 10 de outubro de 1961, pelo valor de 150 000 dólares.
A incorporação oficial na Marinha Portuguesa ocorreu a 30 de janeiro de 1962, ao abrigo da Portaria n.º 18 997. No entanto, foi a 8 de fevereiro desse ano que teve lugar a cerimónia de içar oficialmente, pela primeira vez, a bandeira portuguesa.
O antigo Guanabara passou a chamar-se Sagres, herdando o nome do navio que Portugal pretendia substituir.
A 25 de abril de 1962, iniciou a sua primeira viagem com a bandeira portuguesa. Partiu do Brasil e chegou a Lisboa a 23 de junho, depois de fazer escalas no Recife, no Mindelo e no Funchal.
Estava assim iniciado um novo capítulo na vida de um veleiro que, apesar de ter nascido na Alemanha e servido o Brasil, viria a tornar-se um dos maiores símbolos marítimos de Portugal.

Antes do atual Sagres existiram outros dois navios com o mesmo nome
A história do nome Sagres na Marinha Portuguesa é mais antiga do que a própria embarcação que hoje conhecemos.
O atual navio é, na realidade, o terceiro a utilizar esta designação. Antes dele, existiram duas embarcações que também desempenharam funções importantes na formação de marinheiros portugueses.
Sagres I: a corveta que começou a tradição
O primeiro navio chamado Sagres foi uma corveta de casco de madeira, construída em Inglaterra, nos estaleiros Young, Son and Magnay.
Foi lançada à água em 1858 e, depois de ter desempenhado várias missões, foi adaptada para servir como navio-escola fundeado.
Entre 1884 e 1898, esteve ligada à formação dos marinheiros portugueses. A sua função terminou quando a Escola de Marinheiros passou para outra embarcação, a corveta Estefânia.
Este primeiro Sagres marcou o início de uma tradição que viria a atravessar gerações.
Sagres II: o veleiro alemão que foi apreendido em Portugal
O segundo navio a receber o nome Sagres também tinha origem alemã.
Foi construído em 1896, nos estaleiros Rickmer C. Rickmers, em Geestemünde, e recebeu inicialmente o nome do seu armador: Rickmer Rickmers.
Em 1916, quando a Alemanha declarou guerra a Portugal, o veleiro encontrava-se no porto da Horta, nos Açores. Foi então apreendido pelas autoridades portuguesas, passando a chamar-se Flores.
Durante alguns anos, esteve ligado ao transporte marítimo e foi utilizado pelos ingleses, mantendo a bandeira e a tripulação portuguesas. Mais tarde, regressou ao serviço de transporte mercante de Portugal.
Em 1924, foi integrado na Marinha Portuguesa como navio-escola e recebeu novamente o nome Sagres.
Durante quase quatro décadas, contribuiu para a formação dos marinheiros portugueses. Quando o atual Sagres foi adquirido, em 1961, o anterior navio-escola deixou de desempenhar essa função e passou a chamar-se Santo André.
A sucessão das três embarcações mostra como o nome Sagres se tornou uma referência na história da Marinha Portuguesa.

Três voltas ao mundo: o Sagres conquistou os oceanos
O Navio-Escola Sagres não foi feito apenas para permanecer atracado nos portos. A sua missão é navegar, formar marinheiros e representar Portugal em diferentes partes do planeta.
Ao longo da sua vida ao serviço da Marinha Portuguesa, realizou inúmeras viagens de instrução e missões internacionais. Entre os feitos mais impressionantes contam-se as três voltas ao mundo.
Primeira volta ao mundo: 1978-1979
A primeira circum-navegação teve início em 1978 e terminou em 1979. Foi uma viagem histórica para a Marinha Portuguesa, levando o veleiro a atravessar oceanos, visitar países distantes e demonstrar a capacidade da sua guarnição para enfrentar uma navegação de longa duração.
Entre os momentos marcantes desta viagem esteve a chegada a Tóquio, em dezembro de 1978, o primeiro porto asiático visitado pelo Sagres.
Segunda volta ao mundo: 1983-1984
A segunda grande viagem começou em 1983 e terminou em 1984. O navio voltou a percorrer rotas oceânicas de grande dimensão, reforçando a sua reputação internacional e a experiência dos marinheiros que nele serviam.
Terceira volta ao mundo: 2010
A terceira circum-navegação aconteceu em 2010. Foi mais uma demonstração de que, apesar da idade, o Sagres continuava preparado para enfrentar grandes viagens.
A viagem terminou a 24 de dezembro de 2010, depois de meses de navegação e de passagem por vários países e continentes.
Estas três voltas ao mundo fazem parte dos momentos mais importantes da história do navio e são uma das razões pelas quais o Sagres ocupa um lugar tão especial na Marinha Portuguesa.

Como é o Navio-Escola Sagres? Características e dimensões
A beleza do Sagres não é apenas uma questão de gosto. A sua construção, as proporções dos mastros e a disposição das velas dão-lhe uma silhueta facilmente reconhecida em qualquer porto.
O atual NRP Sagres é uma barca de três mastros, com casco de aço e uma área vélica que impressiona pela dimensão.
Entre as suas principais características encontram-se:
- Comprimento: 89,5 metros.
- Largura: 12 metros.
- Deslocamento máximo: cerca de 1900 toneladas.
- Altura dos mastros principais: aproximadamente 46,2 metros.
- Número de velas: 23.
- Área vélica: cerca de 1971 metros quadrados.
- Propulsão à vela: 10 velas redondas e 13 velas latinas.
- Propulsão mecânica: motor diesel de 1000 cavalos.
O navio pode navegar à vela ou utilizar o motor diesel, dependendo das condições meteorológicas, da necessidade de manobra e dos objetivos da missão.
A combinação entre a tecnologia moderna e a navegação tradicional permite que os cadetes contactem com técnicas de marinharia que exigem conhecimentos, disciplina, coordenação e espírito de equipa.
É precisamente essa conjugação entre tradição e exigência que torna o Sagres tão especial.
O significado das Cruzes de Cristo nas velas
Uma das características mais marcantes do Navio-Escola Sagres são as grandes cruzes vermelhas que se destacam nas velas brancas.
Trata-se da Cruz de Cristo, símbolo associado à Ordem Militar de Cristo, fundada em 1319, na sequência da extinção da Ordem dos Templários.
A Ordem de Cristo teve uma importância significativa na história marítima portuguesa. O Infante D. Henrique foi seu governador e regedor a partir de 1420, e os recursos da Ordem contribuíram para financiar as viagens marítimas dos portugueses.
A cruz vermelha tornou-se um dos símbolos associados aos navios da expansão portuguesa, sendo particularmente reconhecida nas embarcações ligadas às viagens dos séculos XV e XVI.
No Sagres, esta representação não é apenas um elemento decorativo. É uma referência visual à história marítima nacional e à ligação entre o passado e o presente.
Quando as velas se abrem ao vento e as Cruzes de Cristo se tornam visíveis no meio do oceano, o navio apresenta uma imagem que muitos portugueses reconhecem imediatamente.
Qual é a missão atual do Navio-Escola Sagres?
Apesar da sua aparência histórica, o Sagres continua a desempenhar funções muito importantes na Marinha Portuguesa.
A sua principal missão é proporcionar formação prática aos cadetes da Escola Naval, os futuros oficiais da Marinha.
A bordo, os alunos têm contacto direto com a vida no mar e participam nas diferentes atividades necessárias ao funcionamento de um navio. Aprendem a navegar, interpretar instrumentos, executar manobras, trabalhar com as velas, comunicar e colaborar com os restantes elementos da guarnição.
A experiência embarcada permite-lhes compreender que a segurança do navio depende do trabalho coletivo. Cada tarefa tem importância e cada elemento da tripulação contribui para o sucesso da missão.
Mas o Sagres tem outra função igualmente relevante: representar Portugal no estrangeiro.
A Marinha Portuguesa utiliza-o em visitas oficiais, comemorações internacionais, encontros de grandes veleiros e iniciativas de apoio à política externa nacional.
É frequente o navio abrir as portas ao público durante as escalas, permitindo que portugueses e estrangeiros conheçam o seu interior e contactem com a história da embarcação.
Por esse motivo, é frequentemente descrito como uma verdadeira embaixada itinerante de Portugal.
A viagem de 2026: o Sagres voltou a atravessar o Atlântico
O Navio-Escola Sagres continua a navegar e a cumprir missões internacionais. Em 2026, realizou mais uma importante viagem de instrução, que decorreu entre 30 de abril e 22 de agosto.
Partiu da Base Naval de Lisboa em direção aos Estados Unidos da América, levando cadetes da Escola Naval e desempenhando simultaneamente uma missão de representação nacional.
A viagem incluiu uma passagem por Nova Iorque, Hamilton, nas Bermudas, Norfolk, Baltimore, Boston e New Bedford, entre outras escalas, antes do regresso a Portugal através dos Açores.
A presença do Sagres nos Estados Unidos coincidiu com as comemorações dos 250 anos da independência norte-americana e com a participação na Sail 250, um encontro internacional de grandes veleiros.
O navio também participou em iniciativas de apoio à candidatura portuguesa a membro não permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas e promoveu o contacto com as comunidades portuguesas e lusodescendentes.
A escala em New Bedford foi particularmente emotiva. A cidade norte-americana possui uma importante comunidade de origem portuguesa e a chegada do Sagres foi recebida com manifestações de orgulho e entusiasmo. Durante a estadia, mais de 10 200 pessoas visitaram o navio.
No balanço final da viagem de 2026, a Marinha Portuguesa revelou números impressionantes:
- Cerca de 10 870 milhas náuticas percorridas, equivalentes a mais de 20 000 quilómetros.
- Mais de 1650 horas de navegação.
- Nove portos praticados.
- Cerca de 68 000 visitantes ao longo da viagem.
Estes números mostram que o Sagres continua a ser muito mais do que uma peça histórica. É um navio ativo, com uma missão atual e uma presença internacional que continua a despertar admiração.
Um dos navios mais condecorados da Marinha Portuguesa
O prestígio do Sagres também se reflete nas distinções que recebeu ao longo da sua história.
É considerado o navio mais condecorado da Marinha Portuguesa e o único a ostentar condecorações estrangeiras no seu estandarte nacional.
Entre as distinções atribuídas encontram-se:
- Ordem do Infante D. Henrique, em 1985.
- Medalha Naval Vasco da Gama, em 2007.
- Ordem Militar de Cristo, em 2012.
- Medalha de Mérito Tamandaré, atribuída pelo Brasil em 2016.
- Estrela de Honra de 1.ª Classe, atribuída por Cabo Verde em 2016.
- Membro Honorário da Ordem Militar de Avis, em 2017.
- Distinção atribuída pela Marinha da Colômbia, em 2018.
Estas condecorações reconhecem o contributo do navio para a formação marítima, a representação internacional e o reforço das relações de Portugal com outros países.
Um símbolo que atravessa gerações
O Navio-Escola Sagres tem uma história que atravessa diferentes países, conflitos e gerações de marinheiros.
Nasceu na Alemanha, sobreviveu à guerra, serviu o Brasil e encontrou em Portugal uma nova missão. Desde 1962, tem levado a bandeira portuguesa pelos oceanos, formando cadetes e representando o país em portos de todo o mundo.
É impossível olhar para este veleiro sem recordar a ligação histórica de Portugal ao mar. Mas o seu significado vai muito além da memória dos Descobrimentos. O Sagres representa também o trabalho, a disciplina, a coragem e a capacidade de adaptação de quem escolhe a vida marítima.
Quando navega com as velas abertas e as Cruzes de Cristo desenhadas contra o céu, há uma imagem que permanece na memória: a de um navio que, apesar de ter nascido longe, se tornou profundamente português.
Talvez seja por isso que tantos o consideram o mais belo navio do mundo. Não apenas pela elegância dos seus mastros e das suas velas, mas por tudo aquilo que representa.
Porque há embarcações que transportam pessoas e mercadorias. E há outras que transportam uma história inteira.
O Sagres pertence à segunda categoria.
E enquanto continuar a navegar, continuará também a levar Portugal consigo.
Fontes e leituras complementares
- Marinha Portuguesa – História do Navio-Escola Sagres
- Marinha Portuguesa – Características técnicas do NRP Sagres
- Marinha Portuguesa – O navio e os seus símbolos
- Marinha Portuguesa – Balanço da viagem do Sagres em 2026
- Museu de Marinha – A tradição dos navios-escola portugueses
- Marinha do Brasil – História do navio-veleiro Guanabara




