Há mais de 500 anos que a presença portuguesa deixou marcas na costa ocidental de África. No sul do Senegal, uma comunidade de raízes luso-africanas conserva apelidos portugueses, tradições católicas e um crioulo cuja origem está ligada à língua portuguesa.
Parece difícil de acreditar, mas a milhares de quilómetros de Portugal existe uma região onde ainda ecoam palavras de origem portuguesa. Estamos na Casamansa, no sul do Senegal, um território onde a História deixou uma herança cultural extraordinária e onde sobrevivem comunidades que mantêm uma ligação profunda ao passado português.
Conhecidos como Fijus di Terra, expressão do crioulo local que significa «filhos da terra», estes descendentes de antigas comunidades luso-africanas representam um dos testemunhos mais curiosos da expansão portuguesa em África.
O seu passado está ligado à chegada dos navegadores portugueses à costa ocidental africana, às relações estabelecidas com as populações locais e à formação de famílias de ascendência africana e europeia. Ao longo das gerações, desenvolveram uma identidade própria, marcada pela religião católica, por apelidos de origem portuguesa, por costumes herdados dos antepassados e pelo uso de uma língua crioula de base portuguesa.
Existe, porém, uma particularidade importante: aquilo que ainda sobrevive não é propriamente o português falado em Portugal, mas o crioulo de Casamansa, uma língua com raízes portuguesas que evoluiu durante séculos em contacto com diferentes povos africanos.
É uma história de encontros, resistência cultural e memória coletiva. Uma história que demonstra como a presença portuguesa ultrapassou fronteiras e deixou marcas que nem o tempo, nem as mudanças políticas conseguiram apagar.
Há uma distinção histórica importante: os primeiros contactos portugueses com a região remontam ao século XV, mas a formação da comunidade luso-africana de Ziguinchor consolidou-se sobretudo a partir do século XVII. Por isso, os mais de 500 anos referem-se à antiguidade da presença portuguesa na região, não à existência comprovada de uma comunidade organizada com essa idade.
A chegada dos portugueses à Casamansa: os primeiros contactos
Para compreender a origem dos Fijus di Terra, é necessário recuar até ao século XV, quando os navegadores portugueses começaram a explorar a costa ocidental africana, estabelecendo relações comerciais com diferentes povos e reinos locais.
Os primeiros contactos com a região da Casamansa ocorreram por volta de 1445, no contexto da expansão marítima portuguesa. Os navegadores subiram os rios, estabeleceram contactos com as populações locais e desenvolveram atividades comerciais que incluíam a troca de produtos, a aquisição de ouro e outras mercadorias e, tragicamente, o tráfico de pessoas escravizadas.
Em 1588, os portugueses fundaram Cacheu, na atual Guiné-Bissau, que se tornaria um dos principais centros da sua presença na região.
Algumas décadas depois, em 1645, um grupo de povoadores oriundos de Cacheu estabeleceu uma feitoria em Ziguinchor, nas margens do rio Casamansa. Este acontecimento é particularmente importante, porque está associado ao início da formação do crioulo de Casamansa enquanto realidade linguística local. A presença portuguesa prolongou-se durante séculos, desenvolvendo relações comerciais, políticas, religiosas e familiares com as comunidades africanas.
Ao longo desse período, homens portugueses estabeleceram relações com mulheres africanas, sobretudo de comunidades locais como os Nyun e os Diola. Dessas ligações nasceram famílias de ascendência luso-africana, que desenvolveram uma identidade cultural própria.
Foi neste contexto que se consolidaram as comunidades historicamente conhecidas como os portugueses de Ziguinchor e os Fijus di Terra.
Quem são realmente os Fijus di Terra?
A expressão Fijus di Terra, também escrita Fidjus di Terra, significa literalmente «filhos da terra».
Historicamente, esta designação estava associada a um grupo social de Ziguinchor, constituído sobretudo por famílias de ascendência luso-africana, que mantinham uma ligação particular à propriedade da terra, à religião católica e à cultura de influência portuguesa.
Os Fijus di Terra distinguiam-se de outros grupos da região pela língua crioula que utilizavam, pelos costumes, pelas tradições religiosas e por determinados hábitos de vestuário de influência europeia.
A sua identidade não resultava exclusivamente da ascendência europeia. Era também consequência de uma longa convivência com as populações locais, da transmissão de costumes familiares e da criação de redes económicas e sociais próprias.
Alguns estudos históricos sobre Ziguinchor identificam diferentes segmentos sociais, entre os quais os Fijus di Fidalgu, associados à aristocracia local, os Fijus di Terra e outras comunidades provenientes da Guiné-Bissau e de territórios vizinhos.
Esta organização social mostra que a comunidade possuía uma estrutura própria, construída ao longo de gerações.
É importante, contudo, não confundir esta designação histórica com uma etnia oficialmente reconhecida pelo Estado senegalês. Os Fijus di Terra representam uma identidade histórico-cultural específica, enquanto o crioulo de Casamansa é utilizado por pessoas pertencentes a diferentes comunidades étnicas.
A religião católica e os costumes portugueses que sobreviveram
Um dos elementos que mais contribuiu para preservar a identidade dos Fijus di Terra foi a religião católica.
Durante a presença portuguesa, a evangelização ganhou importância na região, sendo acompanhada pela construção de espaços religiosos e pelo desenvolvimento de comunidades cristãs.
A religião tornou-se um elemento de união entre várias famílias de ascendência luso-africana e ajudou a manter determinadas tradições durante os períodos de domínio colonial francês e posteriormente no Senegal independente.
As missas, as celebrações religiosas, os casamentos e as festas comunitárias passaram a desempenhar um papel importante na transmissão da identidade cultural.
Uma das tradições historicamente associadas à antiga comunidade portuguesa de Ziguinchor era o chamado Domingo de Ziguinchor.
Nesse dia, as famílias vestiam-se cuidadosamente para participar na missa e passear pelas ruas e jardins da cidade. Os homens apresentavam-se frequentemente de casaco e chapéu, enquanto as mulheres utilizavam vestuário elegante de inspiração europeia.
Era mais do que uma simples tradição de domingo. Representava uma forma de afirmar a identidade comunitária e preservar hábitos que tinham atravessado gerações.
A língua crioula também desempenhava um papel essencial nas celebrações religiosas, sendo utilizada em determinados contextos litúrgicos e comunitários.
O catolicismo e o crioulo acabaram, assim, por funcionar como importantes elementos de coesão entre diferentes grupos locais.
O crioulo de Casamansa: uma língua africana com raízes portuguesas
Se existe uma herança que torna esta comunidade verdadeiramente singular, é a língua.
O crioulo de Casamansa, também conhecido como crioulo afro-português de Casamansa, é uma língua crioula cuja principal base lexical é o português.
É frequentemente designado pelos próprios falantes como Kriyol ou Liŋgu Kristoŋ, expressão que significa «língua dos cristãos».
Não é português europeu, nem uma versão simplificada da língua portuguesa. É uma língua com estrutura gramatical própria, desenvolvida ao longo de séculos através do contacto entre o português e diferentes línguas africanas.
A sua formação está relacionada com a convivência entre os comerciantes portugueses, os povoadores de origem europeia e as comunidades locais.
Ao longo do tempo, recebeu influências de línguas como o mandinga, o uolofe e o Nyun, entre outras.
A proximidade histórica com o crioulo da Guiné-Bissau é particularmente importante. Ambas as línguas pertencem ao grupo dos crioulos da Alta Guiné, apresentam muitas semelhanças e permitem, em determinadas circunstâncias, uma compreensão mútua bastante elevada.
Onde se fala o crioulo de Casamansa?
A língua está especialmente associada à região da Baixa Casamansa, no sul do Senegal.
A sua principal área de utilização encontra-se em Ziguinchor, nomeadamente em bairros como Santhiaba, Boudody, Boucotte-Corentas, Escale, Kandé e Néma.
Também existem comunidades de falantes em localidades vizinhas, como:
- Niaguis;
- Adéane;
- Sindone;
- Djibonker;
- Brin;
- Fanda;
- Agnack;
- Koundioundou.
O crioulo também chegou a outras regiões do Senegal, incluindo Dacar, através de movimentos migratórios e da deslocação de famílias.
Uma das características mais interessantes é o facto de não pertencer exclusivamente aos descendentes de portugueses.
É utilizado por pessoas de diferentes comunidades, sobretudo pelos Nyun, mas também por membros de grupos como os Manjaco e os Mancagne.
Em muitos contextos, funciona como língua de comunicação entre cristãos de diferentes origens étnicas.
Quantas pessoas ainda falam crioulo de Casamansa?
Não existe um recenseamento linguístico suficientemente recente que permita determinar com exatidão o número de falantes.
Contudo, os estudos publicados no Atlas of Pidgin and Creole Language Structures (APiCS), com contributos dos linguistas Noël Bernard Biagui e Nicolas Quint, apresentam estimativas de aproximadamente 10 mil falantes nativos.
Quando se incluem as pessoas que utilizam o crioulo como segunda língua, o número poderá situar-se entre 20 mil e 50 mil.
Uma estimativa académica mais recente, publicada em 2023, aponta igualmente para cerca de 20 mil utilizadores entre primeira e segunda língua.
Estes números devem ser interpretados como estimativas, não como resultados de um recenseamento oficial.
Porque está esta língua a perder falantes?
Apesar da sua importância histórica, o crioulo de Casamansa perdeu parte da influência que teve durante o período colonial.
Até ao início da década de 1960, era uma das principais línguas de comunicação nos mercados e no porto de Ziguinchor.
A situação começou a mudar depois da independência do Senegal, em 1960.
Com o fortalecimento das estruturas administrativas nacionais, a chegada de funcionários e comerciantes provenientes do Norte do país e a crescente influência do uolofe, o crioulo foi perdendo espaço nas atividades comerciais e na vida urbana.
O francês, língua oficial do Senegal, também desempenhou um papel importante na administração, na educação e nos serviços públicos.
Atualmente, o crioulo continua a ser utilizado em algumas famílias, comunidades cristãs, mercados e celebrações religiosas, mas enfrenta dificuldades na transmissão às gerações mais novas.
A investigação linguística identifica uma redução da sua utilização, sobretudo devido à concorrência do uolofe nas áreas urbanas e do mandinga em determinadas zonas rurais.
Existe, no entanto, um sinal de esperança: algumas comunidades continuam a transmitir a língua às crianças e a utilizá-la diariamente.
Não é correto afirmar, sem uma referência específica, que a UNESCO atribui oficialmente ao crioulo de Casamansa determinada classificação de perigo de extinção. O que a investigação académica confirma é que a língua está em retração e necessita de iniciativas de documentação, valorização e transmissão intergeracional.
Os apelidos portugueses que continuam vivos em Ziguinchor
Uma das marcas mais curiosas da herança portuguesa encontra-se nos apelidos das famílias da Casamansa.
Mesmo depois de Portugal ter perdido o controlo da região, muitos nomes de família permaneceram e continuam a ser reconhecidos pela população local.
Entre os mais conhecidos encontram-se:
- Carvalho;
- Pereira;
- Mendes;
- Gomes;
- Nunes;
- Tavares;
- Alvarenga;
- Alves;
- Lopes;
- Silva.
Alguns destes apelidos sofreram adaptações à pronúncia e à escrita locais.
É o caso de Mendes, que pode surgir sob a forma Mendy, ou de Gomes, que aparece frequentemente como Gomis.
Estes nomes representam uma ligação familiar e histórica a Portugal, mas não significam necessariamente que todas as pessoas que os utilizam sejam descendentes diretas de portugueses.
O mais interessante é perceber como a presença portuguesa conseguiu deixar uma marca tão profunda numa sociedade africana, mesmo depois de séculos de mudanças políticas e culturais.
A língua, os apelidos e os costumes são testemunhos de uma história que continua a ser transmitida dentro das famílias.
1886: o ano em que Portugal perdeu a Casamansa
Durante vários séculos, a Casamansa esteve integrada na esfera colonial portuguesa na África Ocidental.
Contudo, a expansão francesa e a definição das fronteiras coloniais europeias alteraram profundamente a situação política da região.
Em 1886, através de uma convenção luso-francesa, Portugal cedeu à França a região de Casamansa, incluindo Ziguinchor, recebendo em contrapartida outros territórios.
A transferência encerrou um longo período de administração portuguesa e iniciou uma nova fase da história local.
A presença francesa trouxe outras instituições, novas estruturas administrativas e uma política de assimilação cultural que procurava integrar as populações no sistema colonial francês.
As famílias de ascendência portuguesa procuraram preservar a sua identidade e continuaram a valorizar as origens europeias, a religião católica e a língua crioula.
A historiadora Céline Labrune-Badiane estudou precisamente este processo de afirmação da identidade afro-portuguesa em Casamansa durante o século XIX e o início do século XX.
A investigação demonstra que estas famílias desenvolveram estratégias sociais e educativas próprias, mantendo relações económicas e familiares que ajudaram a preservar a sua identidade.
Com o passar do tempo, porém, foram perdendo influência política e económica, sobretudo à medida que o poder administrativo se concentrava progressivamente em Dacar.
O Senegal atual: português nas escolas e nas universidades
Apesar de o francês ser a língua oficial do Senegal, o português continua a ter uma presença importante no sistema de ensino.
É necessário, contudo, fazer uma distinção: o crioulo de Casamansa não tem estatuto de língua oficial ou de língua nacional reconhecida na Constituição senegalesa.
O português é ensinado como língua estrangeira e pode ser escolhido como disciplina no ensino secundário, além de estar presente no ensino universitário.
Esta presença tem contribuído para reforçar as relações culturais entre Portugal e o Senegal.
O Instituto Camões mantém uma rede de ensino da língua portuguesa no país, incluindo:
- Dacar: Centro de Língua Portuguesa na Universidade Cheikh Anta Diop, inaugurado em 2006.
- Ziguinchor: Centro de Língua Portuguesa na Universidade Assane Seck, inaugurado em 2015.
Estes centros promovem o ensino, a investigação, a divulgação cultural e o contacto com a língua portuguesa.
Em Ziguinchor, a sua existência tem um significado particularmente especial, uma vez que se encontra numa região onde a herança linguística portuguesa continua presente na vida de algumas comunidades.
Assim, o português europeu e o crioulo de Casamansa representam duas realidades linguísticas distintas, mas ligadas por uma história comum.
O conflito de Casamansa e os desafios das comunidades locais
A história contemporânea da Casamansa também é marcada por um conflito político e militar que começou em 1982, quando o Movimento das Forças Democráticas de Casamansa (MFDC) iniciou a luta pela independência da região.
O movimento separatista desenvolveu uma luta prolongada contra o Estado senegalês, provocando confrontos armados, deslocações de populações e dificuldades económicas.
A instabilidade afetou diferentes comunidades da região, independentemente da sua origem étnica ou religião.
Ao longo dos anos, foram realizados esforços de negociação e assinados acordos de paz com diferentes fações do movimento.
Em 2026, o organismo War Watch, associado à Academia de Direito Internacional Humanitário e Direitos Humanos de Genebra, considerou que o conflito armado não internacional entre o Estado senegalês e o MFDC tinha terminado em maio desse ano, na sequência da redução dos confrontos e dos avanços no processo de estabilização.
Isso não significa, contudo, que todos os problemas tenham desaparecido.
A presença de minas terrestres, a necessidade de reintegrar populações deslocadas e as dificuldades socioeconómicas continuam a afetar determinadas localidades.
Um projeto das Nações Unidas para a região, com implementação entre março de 2025 e março de 2026, identificou a contaminação por minas, a pobreza e a insegurança alimentar como obstáculos importantes à recuperação de várias comunidades.
Para os Fijus di Terra, tal como para as restantes comunidades da Casamansa, a preservação da identidade cultural está também ligada à estabilidade social, ao acesso à educação e à possibilidade de transmitir os costumes familiares às gerações seguintes.
Uma herança que merece ser preservada
A história dos Fijus di Terra é uma das páginas menos conhecidas da presença portuguesa em África.
Durante séculos, famílias de ascendência luso-africana construíram uma identidade própria, marcada por relações entre povos, religiões, línguas e culturas diferentes.
Os apelidos portugueses continuam a sobreviver, o catolicismo mantém uma presença importante e o crioulo de Casamansa permanece como testemunho de uma história linguística extraordinária.
Mas esta herança não pertence apenas aos descendentes de portugueses. O crioulo é também património de diferentes comunidades africanas que o adotaram como língua materna ou como meio de comunicação.
Preservá-lo significa reconhecer a contribuição dos portugueses, mas também valorizar os povos africanos que participaram na sua formação e que o mantiveram vivo ao longo de gerações.
A Universidade Assane Seck, o Centro de Língua Portuguesa do Instituto Camões e os trabalhos de investigação desenvolvidos por linguistas e historiadores são importantes para documentar e divulgar este património.
Porque cada palavra que desaparece, cada história familiar que deixa de ser contada e cada tradição que se perde representa uma pequena parte da memória coletiva que desaparece com ela.
A história dos Fijus di Terra recorda-nos que a influência de Portugal não terminou quando os últimos representantes da administração colonial abandonaram a região.
Continuou nas famílias, nos nomes, nas igrejas, nas canções e numa língua que atravessou fronteiras e sobreviveu à passagem dos séculos.
A quase 3000 quilómetros de Portugal, há quem continue a guardar uma parte da nossa história. Não fala exatamente a língua de Camões, mas conserva nas palavras e na memória uma herança que começou há mais de cinco séculos.
Fontes e leituras complementares
- Observatório da Língua Portuguesa – Os Fijus di Terra
- APiCS – Estudo linguístico sobre o crioulo de Casamansa
- Universidade de Oran 2 – Investigação sobre o crioulo de Casamansa
- CODESRIA – Educação e identidade das comunidades portuguesas na Casamansa
- Instituto Camões – Ensino da língua portuguesa no Senegal
- War Watch – História e evolução do conflito de Casamansa
- Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – Recuperação e desenvolvimento da Casamansa




