De rainhas que desafiaram o poder a mulheres que abriram caminho na política, na literatura, na música e no desporto, conheça 15 figuras femininas que deixaram uma marca inesquecível na História portuguesa.
A História de Portugal foi escrita por reis, navegadores, guerreiros, artistas e políticos. Mas, durante séculos, muitas das mulheres que contribuíram para transformar o país permaneceram à margem dos relatos mais conhecidos, como se os seus feitos não merecessem o mesmo lugar na memória coletiva.
Apesar das limitações impostas pela sociedade, das desigualdades e dos obstáculos que enfrentaram, algumas conseguiram influenciar o destino do reino, defender os mais vulneráveis, transformar a cultura portuguesa ou conquistar espaços que durante muito tempo lhes foram negados.
Umas ficaram conhecidas pela coragem. Outras, pela inteligência, pela sensibilidade artística ou pela capacidade de desafiar as regras do seu tempo. Houve também quem se tornasse símbolo de resistência, quem levasse o nome de Portugal aos quatro cantos do mundo e quem abrisse portas para as gerações seguintes.
Nem todas nasceram no território português, tal como hoje o conhecemos, mas todas estão ligadas à História, à cultura ou à memória de Portugal.
Conheça 15 mulheres que marcaram a História de Portugal, desde a fundação do reino até à contemporaneidade, e descubra por que razão as suas histórias continuam a merecer ser contadas.

1. D. Teresa: a mulher que marcou os primeiros passos de Portugal
D. Teresa de Leão, também conhecida como Teresa Urraca, nasceu por volta de 1080 e morreu em 1130. Filha de Afonso VI de Leão e Castela, casou com o conde D. Henrique de Borgonha, a quem foi entregue o governo do Condado Portucalense.
Dessa união nasceu D. Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal. Após a morte de D. Henrique, em 1112, D. Teresa assumiu um papel central na governação do território, procurando preservar e ampliar a sua influência política.
O seu percurso ficou marcado pelas alianças que estabeleceu e pelos conflitos que acabaram por opô-la ao próprio filho. D. Afonso Henriques pretendia afirmar a sua autoridade sobre o Condado Portucalense, enquanto D. Teresa procurava conservar o poder que tinha conquistado.
O confronto decisivo aconteceu na Batalha de São Mamede, a 24 de junho de 1128, quando as forças de D. Afonso Henriques derrotaram os partidários da mãe. Este acontecimento é considerado um marco fundamental no processo que conduziu à independência portuguesa. A Assembleia da República assinala esta batalha como o início da governação do Condado Portucalense por D. Afonso Henriques.
Durante muito tempo, D. Teresa foi retratada sobretudo como a mãe derrotada pelo filho. Contudo, a sua importância histórica vai muito além desse conflito: foi uma governante que exerceu poder num período decisivo para a formação de Portugal.

2. Rainha Santa Isabel: a soberana que ficou na memória pela paz e pela generosidade
Isabel de Aragão nasceu em Saragoça, em 1271, e casou com D. Dinis, rei de Portugal. Tornou-se uma das figuras femininas mais veneradas da História portuguesa, sendo conhecida como Rainha Santa Isabel.
Durante o reinado do marido, destacou-se pela intervenção em conflitos familiares e políticos. Um dos episódios mais conhecidos foi a sua tentativa de conciliação entre D. Dinis e o filho, o futuro D. Afonso IV, quando as relações entre ambos ameaçavam terminar em confronto armado.
A sua reputação ficou igualmente ligada à caridade, à assistência aos pobres e à fundação ou apoio a instituições religiosas. Depois de enviuvar, em 1325, aproximou-se ainda mais da vida espiritual e da assistência aos necessitados.
A tradição religiosa associa-lhe o célebre Milagre das Rosas, segundo o qual os alimentos que levava aos pobres se teriam transformado em rosas quando confrontada pelo marido. Este episódio pertence à memória devocional da rainha e tornou-se uma das histórias mais populares da sua vida.
Isabel morreu em Estremoz, em 1336. Foi beatificada pelo Papa Leão X em 1516 e canonizada pelo Papa Urbano VIII em 1625. Os seus restos mortais encontram-se no Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, em Coimbra, cidade onde continua a ser venerada como padroeira. O município de Coimbra disponibiliza informação sobre o mosteiro e a urna da Rainha Santa.
A sua história permanece associada à paz, à compaixão e à capacidade de intervir num mundo em que o poder e as disputas dinásticas tantas vezes se sobrepunham às necessidades humanas.

3. Inês de Castro: a mulher que se tornou protagonista da mais célebre história de amor portuguesa
Poucas figuras femininas despertaram tanta emoção na literatura e na memória coletiva como Inês de Castro.
Nascida na Galiza, por volta de 1325, Inês chegou a Portugal como dama de companhia de D. Constança Manuel, esposa do infante D. Pedro. A relação amorosa entre Inês e D. Pedro, que viria a ser rei como D. Pedro I, acabou por se transformar numa das histórias mais conhecidas da nossa História.
O relacionamento gerou tensões políticas e familiares. D. Afonso IV, pai de D. Pedro, receava as consequências que a influência da família Castro poderia ter nos assuntos do reino. Em 1355, Inês foi executada por ordem régia, num acontecimento que se tornou um dos episódios mais trágicos da monarquia portuguesa.
Quando chegou ao trono, D. Pedro perseguiu os homens que considerava responsáveis pela morte de Inês. Mais tarde, afirmou que se tinham casado em segredo, embora as circunstâncias e a confirmação desse casamento sejam objeto de discussão histórica. A imagem da coroação póstuma de Inês pertence sobretudo à tradição literária e lendária que se desenvolveu em torno do casal.
A história ficou também ligada à Quinta das Lágrimas, em Coimbra, lugar tradicionalmente associado aos encontros dos amantes. A chamada Fonte das Lágrimas conserva marcas avermelhadas nas rochas, mas a explicação científica está relacionada com algas vermelhas, e não com o sangue de Inês, como conta a lenda.
Inês e D. Pedro encontram-se sepultados no Mosteiro de Alcobaça, em túmulos que estão entre os exemplos mais notáveis da escultura funerária medieval portuguesa.
A sua história ultrapassou os factos históricos e tornou-se matéria de poesia, teatro, pintura e música, perpetuando um amor cuja dimensão trágica continua a emocionar gerações.

4. Brites de Almeida: a lendária Padeira de Aljubarrota
A Batalha de Aljubarrota, travada em 1385, foi um dos momentos decisivos da independência portuguesa. Ao lado dos protagonistas militares, a memória popular guardou também a história de Brites de Almeida, a lendária Padeira de Aljubarrota.
Segundo a tradição, Brites seria uma mulher de grande força física e coragem, natural de Faro, que teria vivido em Aljubarrota durante o conflito entre portugueses e castelhanos.
A lenda conta que, depois da batalha, encontrou sete castelhanos escondidos num forno e os matou com a pá que utilizava no seu trabalho. O episódio transformou-a num símbolo de resistência popular e numa das figuras femininas mais curiosas da tradição histórica portuguesa.
No entanto, não existe documentação histórica sólida que permita confirmar todos os pormenores desta narrativa ou garantir que os acontecimentos se passaram exatamente como são contados.
É importante distinguir a personagem lendária da história documental da batalha. Isso não diminui a relevância cultural de Brites de Almeida: a sua imagem permaneceu viva na tradição oral e tornou-se um símbolo da coragem atribuída ao povo português perante uma ameaça externa.
A Padeira de Aljubarrota recorda ainda como as lendas podem contribuir para a identidade de uma comunidade e para a forma como uma vitória histórica é transmitida de geração em geração.

5. Carolina Beatriz Ângelo: a médica que abriu caminho ao voto feminino
No início do século XX, as mulheres portuguesas enfrentavam importantes limitações no acesso à vida política. Carolina Beatriz Ângelo foi uma das figuras que mais contribuíram para desafiar essa realidade.
Nascida na Guarda, em 1878, licenciou-se em Medicina e desenvolveu atividade profissional numa época em que poucas mulheres conseguiam aceder ao ensino superior e às profissões tradicionalmente masculinas.
Foi também uma destacada defensora dos direitos das mulheres e participou na organização do movimento sufragista português, ligado à luta pelo acesso feminino ao voto e à participação política.
Em 28 de maio de 1911, nas eleições para a Assembleia Nacional Constituinte, tornou-se a primeira mulher a votar em Portugal. A sua condição de mulher viúva, alfabetizada e chefe de família permitiu-lhe invocar os critérios da lei eleitoral então em vigor, que não excluía expressamente todas as mulheres nos termos que viriam a ser adotados posteriormente.
A sua participação eleitoral teve uma enorme importância simbólica. Nas eleições seguintes, a legislação passou a restringir de forma mais explícita o direito de voto aos cidadãos do sexo masculino.
Carolina Beatriz Ângelo morreu em 1911, poucos meses depois deste acontecimento histórico. O seu percurso demonstrou como o conhecimento, a coragem cívica e a capacidade de interpretar a lei podiam abrir brechas num sistema profundamente desigual.
A Assembleia da República recorda Carolina Beatriz Ângelo como a primeira mulher a votar em Portugal.

6. Antónia Adelaide Ferreira, a Ferreirinha: a mulher que ajudou a afirmar o Douro
Antónia Adelaide Ferreira, conhecida popularmente como Ferreirinha, nasceu em 1811, no Peso da Régua. Tornou-se uma das maiores figuras da viticultura duriense do século XIX e teve um papel importante na consolidação da atividade vinícola da região.
Viúva aos 33 anos, assumiu a gestão dos negócios familiares e demonstrou uma extraordinária capacidade de decisão numa época em que os grandes negócios eram, em larga medida, dominados por homens.
A sua atividade esteve ligada ao cultivo da vinha, à produção e exportação de Vinho do Porto e à modernização das práticas vitícolas. Durante a crise provocada pela filoxera, uma praga devastadora para as vinhas europeias, procurou soluções, estudou métodos de combate à doença e investiu na recuperação e expansão de propriedades agrícolas.
A Ferreirinha não se limitou a preservar uma fortuna herdada. Desenvolveu os negócios, introduziu inovações e defendeu os interesses do Douro, uma região cuja economia dependia profundamente da vinha e do vinho.
A sua memória ficou também associada à generosidade. Várias referências biográficas destacam a atenção que dedicava aos trabalhadores e às populações mais pobres, bem como o apoio a iniciativas sociais, nomeadamente nos domínios da educação e da saúde.
A Ferreirinha morreu em 1896, deixando um legado empresarial que continua ligado à história do vinho português. A RTP preserva uma biografia ilustrada dedicada à empresária e à sua influência no Douro.
A sua história demonstra como a visão empresarial e a determinação podem transformar uma região inteira, mesmo quando as circunstâncias parecem desfavoráveis.

7. Catarina Eufémia: a ceifeira que se tornou símbolo da resistência
Catarina Eufémia nasceu em Baleizão, no Alentejo, em 1928. Era uma trabalhadora rural que vivia num contexto de pobreza e de fortes desigualdades sociais.
Em maio de 1954, participou num protesto de trabalhadoras agrícolas que reivindicavam melhores salários. A manifestação decorreu durante o Estado Novo, num período em que as greves e as reivindicações laborais podiam ser violentamente reprimidas.
A 19 de maio, Catarina foi morta a tiro por um elemento da Guarda Nacional Republicana durante a intervenção policial que dispersava o protesto. Tinha 26 anos, três filhos e estava grávida de um quarto. Segundo os relatos que marcaram a memória deste acontecimento, transportava ao colo o filho mais novo quando foi baleada. A RTP Ensina apresenta a história da ceifeira e o contexto da sua morte.
A tragédia provocou profunda comoção e transformou Catarina Eufémia num símbolo da luta dos trabalhadores rurais e da resistência ao regime de Salazar.
A sua imagem foi evocada por escritores, poetas e músicos, que encontraram na sua história uma expressão da dignidade humana perante a injustiça.
Catarina não ocupava um cargo político nem pertencia às elites culturais. Era uma mulher do campo que reivindicava condições de vida mais justas. É precisamente isso que torna a sua história tão poderosa: a memória de uma mulher comum que acabou por representar a luta de milhares de outras pessoas.

8. Irmã Lúcia: a vidente de Fátima cuja história atravessou fronteiras
Lúcia dos Santos nasceu em Aljustrel, na freguesia de Fátima, em 1907. Ficou conhecida internacionalmente como Irmã Lúcia, por ter sido uma das três crianças que afirmaram ter presenciado as aparições de Nossa Senhora na Cova da Iria, em 1917.
Segundo os testemunhos dos pastorinhos, as aparições começaram a 13 de maio e repetiram-se mensalmente até 13 de outubro desse ano. Francisco e Jacinta Marto, seus primos, partilharam com Lúcia a experiência que viria a transformar Fátima num dos maiores centros de peregrinação católica do mundo.
A experiência religiosa foi transmitida através de testemunhos e memórias escritas por Lúcia, que se tornou a principal narradora dos acontecimentos. As mensagens atribuídas às aparições tiveram grande impacto na devoção mariana e contribuíram para o crescimento do Santuário de Fátima.
Ao longo da vida, Lúcia ingressou em comunidades religiosas e acabou por viver no Carmelo de Santa Teresa, em Coimbra. Faleceu a 13 de fevereiro de 2005.
O seu percurso está inseparavelmente ligado à história religiosa contemporânea de Portugal. A partir de um acontecimento ocorrido numa pequena localidade, desenvolveu-se uma realidade espiritual com repercussão internacional, que continua a atrair peregrinos de vários continentes.
A história das aparições pertence ao âmbito da fé católica e deve ser entendida nesse contexto. O impacto religioso, cultural e social de Fátima, por sua vez, é uma realidade histórica observável.
O Santuário de Fátima disponibiliza uma cronologia da vida dos videntes e dos acontecimentos de 1917.

9. Florbela Espanca: a poetisa que transformou a dor em literatura
Florbela Espanca nasceu em Vila Viçosa, em 1894, e morreu em Matosinhos, em 1930. Foi uma das vozes mais intensas e singulares da poesia portuguesa do início do século XX.
A sua obra distingue-se pela expressão de sentimentos profundos, pelo desejo de liberdade, pela inquietação interior e pela reflexão sobre o amor, a solidão e a condição feminina.
Num período em que as mulheres enfrentavam fortes convenções sociais, Florbela escreveu com uma frontalidade pouco comum. Os seus poemas deram voz a sentimentos contraditórios e a uma sensibilidade que nem sempre foi compreendida pelos seus contemporâneos.
Entre as obras mais conhecidas encontram-se Livro de Mágoas, publicado em 1919, e Livro de Soror Saudade, de 1923. A sua produção inclui ainda contos, correspondência e textos em prosa, revelando uma autora muito mais ampla do que a imagem de poetisa triste que tantas vezes lhe é atribuída.
Florbela morreu no dia do seu 36.º aniversário, depois de uma vida marcada por dificuldades pessoais e sofrimento emocional. A sua morte contribuiu para a construção de uma imagem trágica que, durante muito tempo, acompanhou a leitura da sua obra.
Hoje, a sua poesia continua a ser lida e estudada, precisamente pela intensidade com que aborda sentimentos humanos universais.
A sua importância reside não apenas na força literária, mas também na forma como afirmou uma voz feminina independente numa sociedade de convenções rígidas.

10. Amália Rodrigues: a voz que levou o fado ao mundo
Amália Rodrigues nasceu em 1920 e tornou-se uma das figuras mais emblemáticas da música portuguesa. A sua voz e a sua interpretação transformaram o fado numa expressão artística reconhecida internacionalmente.
A sua carreira desenvolveu-se ao longo de várias décadas, atravessando palcos portugueses e estrangeiros. Amália interpretou poemas de grandes escritores, trabalhou com compositores de diferentes estilos e contribuiu para alargar as possibilidades musicais do fado.
A artista não se limitou a reproduzir a tradição. Através da sua voz, da escolha dos poemas e da intensidade interpretativa, ajudou a dar uma dimensão universal a uma música profundamente ligada à experiência urbana portuguesa, especialmente à cidade de Lisboa.
Ao longo da carreira, alcançou reconhecimento internacional e tornou-se uma referência para gerações de fadistas. O seu nome passou a ser associado à identidade musical do país, mesmo junto de públicos que não compreendiam a língua portuguesa.
Amália morreu em Lisboa, em 1999, e foi sepultada no Panteão Nacional, em reconhecimento pelo seu contributo para a cultura portuguesa. O Museu do Fado reúne informação biográfica, discografia e documentos sobre a sua carreira.
O legado de Amália permanece vivo nas gravações, nos palcos e na memória de um país que encontrou na sua voz uma forma de se reconhecer perante o mundo.

11. Rosa Mota: a campeã que fez história no atletismo português
Nascida no Porto, em 1958, Rosa Mota tornou-se uma das maiores figuras do atletismo mundial e uma das atletas mais importantes da história do desporto português.
A sua carreira foi marcada por uma impressionante sequência de resultados internacionais, especialmente na maratona. Em Los Angeles, nos Jogos Olímpicos de 1984, conquistou a medalha de bronze. Quatro anos depois, em Seul, alcançou o ouro olímpico, tornando-se a primeira mulher portuguesa a conquistar uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos.
O triunfo de 1988 teve um significado especial para o país. Numa modalidade que exige resistência física, preparação rigorosa e enorme capacidade mental, Rosa Mota demonstrou que uma atleta portuguesa podia competir e vencer ao mais alto nível internacional.
O seu percurso incluiu ainda títulos mundiais e europeus, além de vitórias em algumas das maratonas mais prestigiadas do mundo.
Para além dos resultados, Rosa Mota tornou-se uma referência na promoção do desporto e dos valores olímpicos. A sua persistência e consistência inspiraram gerações de atletas, particularmente mulheres que procuravam construir uma carreira num meio altamente competitivo.
A sua vitória em Seul permanece como um dos momentos mais marcantes do desporto português.

12. Sophia de Mello Breyner Andresen: a escritora que uniu literatura e liberdade
Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu no Porto, em 1919, e é considerada uma das grandes figuras da literatura portuguesa do século XX.
A sua obra percorreu a poesia, os contos, a literatura para crianças e a tradução. A natureza, o mar, a luz, a justiça e a procura de uma ordem moral mais justa são temas recorrentes nos seus textos, que combinam uma linguagem clara com uma profunda dimensão simbólica.
Sophia foi também uma cidadã politicamente interventiva. Opondo-se ao Estado Novo, participou em iniciativas cívicas e políticas de contestação ao regime. Depois do 25 de Abril de 1974, foi deputada à Assembleia Constituinte, contribuindo para o processo de construção democrática.
A sua escrita para crianças conquistou várias gerações de leitores, enquanto a poesia consolidou um lugar central na literatura portuguesa contemporânea.
Em 1999, recebeu o Prémio Camões, tornando-se a primeira mulher galardoada com a distinção. Em 2003, recebeu o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana.
Sophia morreu em 2004 e foi sepultada no Panteão Nacional em 2014, reconhecimento da sua importância cultural. O Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea da Biblioteca Nacional de Portugal conserva documentação sobre a sua obra e o seu percurso cívico.
O seu legado demonstra que a literatura pode ser simultaneamente uma forma de beleza, um exercício de pensamento e uma defesa da liberdade.

13. Maria de Lourdes Pintasilgo: a primeira mulher a chefiar o Governo português
Maria de Lourdes Pintasilgo nasceu em Abrantes, em 1930, e construiu um percurso que rompeu várias barreiras numa sociedade em que o acesso das mulheres aos lugares de decisão continuava a ser limitado.
Formou-se em Engenharia Químico-Industrial, numa época em que poucas mulheres frequentavam cursos técnicos superiores. A sua carreira cruzou a engenharia, a intervenção social, a política e a defesa de uma maior participação feminina na vida pública.
Depois da Revolução de 25 de Abril de 1974, desempenhou funções governativas e participou em diversas iniciativas relacionadas com a política social e a condição feminina.
Em 1979, foi nomeada primeira-ministra, cargo que exerceu até 1980, liderando o V Governo Constitucional. Foi a primeira mulher a ocupar o cargo em Portugal e, até hoje, continua a ser a única mulher que chefiou o Governo português.
O seu percurso ficou marcado pela preocupação com as desigualdades sociais, pela defesa da participação cívica e por uma visão da política que colocava as pessoas no centro das decisões.
Foi também a primeira mulher a candidatar-se às eleições presidenciais em Portugal, em 1986.
Maria de Lourdes Pintasilgo morreu em 2004. A sua história permanece como um marco na evolução da participação feminina na política portuguesa.

14. Amélia Rey Colaço: a mulher que marcou o teatro português
Amélia Rey Colaço nasceu em Lisboa, em 1898, e tornou-se uma das figuras mais influentes do teatro português do século XX.
Estreou-se profissionalmente em 1917 e rapidamente conquistou reconhecimento como atriz. Em 1921, criou, com o marido, o ator Robles Monteiro, a Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro, uma das mais duradouras companhias teatrais portuguesas.
O seu percurso ficou profundamente ligado ao Teatro Nacional D. Maria II, cuja concessão a companhia assumiu em 1929. Ao longo de décadas, Amélia Rey Colaço desenvolveu um trabalho de direção artística e gestão, apostando na valorização da dramaturgia portuguesa e na apresentação de obras de autores internacionais.
A sua atividade decorreu num contexto particularmente difícil para a liberdade artística. Durante o Estado Novo, a censura condicionava a programação teatral, obrigando as companhias a negociar constantemente os limites da expressão cultural.
Apesar desses obstáculos, Amélia promoveu autores portugueses, renovou repertórios e contribuiu para a formação de várias gerações de atores.
A história do seu trabalho ficou também marcada pelo incêndio que destruiu o Teatro Nacional D. Maria II em 1964, um dos momentos mais dramáticos da vida cultural lisboeta.
Amélia Rey Colaço morreu em 1990, deixando uma influência duradoura na interpretação, na direção teatral e na organização do teatro profissional em Portugal.

15. Maria João Pires: a pianista que conquistou os grandes palcos internacionais
Maria João Pires nasceu em Lisboa, em 1944, e começou a tocar em público ainda em criança. A sua carreira transformou-a numa das pianistas portuguesas com maior reconhecimento internacional.
Ao longo de décadas, apresentou-se em importantes salas de concerto e trabalhou com maestros, orquestras e músicos de renome. O seu repertório inclui compositores como Mozart, Beethoven e Bach, cuja interpretação ajudou a consolidar a sua reputação na música clássica.
Em 1970, venceu em Bruxelas um concurso internacional associado ao bicentenário do nascimento de Beethoven, um marco importante na sua afirmação internacional.
A sua carreira destacou-se pela qualidade interpretativa, pela sensibilidade musical e pela procura de uma relação profunda entre a arte e a experiência humana.
Para além dos concertos e das gravações, Maria João Pires desenvolveu projetos educativos e comunitários, procurando criar oportunidades para jovens músicos e aproximar a música das pessoas.
Entre essas iniciativas encontra-se o projeto Belgais, criado em 1999, que procurou promover o estudo das artes e novas formas de colaboração e aprendizagem musical.
A pianista tornou-se uma referência da interpretação clássica e um nome reconhecido muito para além de Portugal.
O seu legado recorda que a influência de uma artista não se mede apenas pelos prémios ou pelos palcos onde atua, mas também pela forma como transforma a experiência de quem a escuta.
Mulheres que fizeram História e continuam a inspirar Portugal
Estas 15 mulheres viveram em épocas muito diferentes e enfrentaram desafios que não podem ser comparados de forma simples. Algumas tiveram poder político, outras enfrentaram a pobreza, a censura, a desigualdade de género ou as limitações impostas pela sociedade. Houve quem transformasse a literatura e a música, quem conquistasse medalhas olímpicas e quem abrisse caminho à participação das mulheres na vida pública.
A sua importância reside precisamente nessa diversidade. Não existe uma única forma de mudar a História: há quem o faça através de uma decisão política, de uma obra artística, de uma descoberta, de uma luta coletiva ou de um gesto de coragem que se recusa a aceitar a injustiça.
D. Teresa esteve ligada aos primeiros passos da formação de Portugal. Carolina Beatriz Ângelo desafiou as barreiras eleitorais. Catarina Eufémia tornou-se símbolo da resistência social. Sophia de Mello Breyner uniu literatura e liberdade. Amália Rodrigues levou o fado ao mundo, e Rosa Mota mostrou que o talento português podia conquistar o ouro olímpico.
Estas histórias merecem ser recordadas não apenas como episódios de um passado distante, mas como parte de uma memória nacional que continua a influenciar o presente.
A História de Portugal não pode ser compreendida na sua plenitude sem reconhecer a ação das mulheres que nela participaram.
Qual destas mulheres mais o impressiona? É a coragem de Carolina Beatriz Ângelo, a força de Catarina Eufémia, a determinação empresarial da Ferreirinha ou o talento artístico de Amália Rodrigues e Sophia de Mello Breyner Andresen? Partilhe a sua escolha e sugira outras mulheres que também merecem um lugar nesta lista.
Links oficiais e leitura recomendada
- Assembleia da República — D. Afonso Henriques e a Batalha de São Mamede
- Universidade de Coimbra — túmulo da Rainha Santa Isabel
- Visit Portugal — Jardins da Quinta das Lágrimas e a lenda de Pedro e Inês
- Assembleia da República — Carolina Beatriz Ângelo, a primeira mulher a votar em Portugal
- RTP Arquivos — Antónia Adelaide Ferreira, a Ferreirinha
- RTP Ensina — Catarina Eufémia, símbolo da resistência
- Santuário de Fátima — cronologia dos videntes
- Município de Vila Viçosa — Florbela Espanca
- Museu do Fado — Amália Rodrigues
- Comité Olímpico de Portugal — Rosa Mota e a medalha de ouro em Seul
- Biblioteca Nacional de Portugal — Sophia de Mello Breyner Andresen
- Assembleia da República — as mulheres que mudaram Portugal
- Instituto Camões — Amélia Rey Colaço
- Fundação Calouste Gulbenkian — Maria João Pires





