Hoje parece impossível imaginar Portugal a conduzir pelo lado esquerdo da estrada. No entanto, durante séculos, essa foi a realidade em todo o território nacional. Tal como acontece atualmente no Reino Unido, na Irlanda ou na Austrália, os portugueses circulavam pela esquerda e os veículos ultrapassavam-se pelo lado oposto ao que hoje conhecemos.
Tudo mudou numa madrugada histórica de 1928.
A partir de 1 de junho desse ano, Portugal abandonou uma tradição secular e passou a conduzir pela direita. A mudança foi tão profunda que obrigou milhares de condutores a alterar hábitos enraizados de um dia para o outro. Ao mesmo tempo, entrou em vigor o primeiro verdadeiro Código da Estrada português, um documento que revolucionou a mobilidade nacional.
Foi uma transformação que marcou uma geração e alterou para sempre a forma como os portugueses utilizam as estradas.
Porque conduzia Portugal pela esquerda?
A origem desta prática remonta a vários séculos e está intimamente ligada à história europeia e à relação privilegiada entre Portugal e Inglaterra.
Durante muito tempo, circular pela esquerda era comum em diversos países europeus. A tradição terá surgido ainda na Idade Média, quando cavaleiros e viajantes preferiam manter-se do lado esquerdo dos caminhos para poderem utilizar a mão direita em caso de necessidade de defesa.
Contudo, a grande mudança começou com a Revolução Francesa.
Em 1794, a França oficializou a circulação pela direita, uma medida que viria a espalhar-se pela Europa à medida que os exércitos de Napoleão Bonaparte conquistavam novos territórios.
Os países que resistiram mais fortemente à influência francesa mantiveram a circulação pela esquerda.
Entre eles estavam:
- Portugal;
- Reino Unido;
- Império Austro-Húngaro.
No caso português, a influência britânica foi decisiva.
A histórica aliança luso-britânica, considerada a mais antiga aliança diplomática ainda em vigor no mundo, contribuiu para reforçar este modelo de circulação durante o século XIX.
O país que seguia as regras inglesas
Ao longo de décadas, circular pela esquerda tornou-se uma realidade perfeitamente normal para os portugueses.
As carroças, os cavaleiros, os primeiros automóveis e até os peões organizavam-se segundo esta lógica.
Quando os automóveis começaram a popularizar-se no início do século XX, Portugal continuava alinhado com o modelo britânico.
Mas a Europa estava a mudar rapidamente.
A maioria dos países continentais já tinha adotado a circulação pela direita e a indústria automóvel começava a produzir veículos pensados para essa realidade.
Portugal começava a ficar isolado.
O decreto que mudou a história das estradas portuguesas
A transformação chegou oficialmente através do Decreto n.º 18.406, publicado em 31 de maio de 1928.
Este diploma trouxe duas mudanças históricas.
O primeiro Código da Estrada português
Pela primeira vez, Portugal passou a dispor de um verdadeiro Código da Estrada aplicável a todos os utilizadores da via pública.
Até então existia apenas o Regulamento para a Circulação de Automóveis, aprovado em 1911 e focado quase exclusivamente nos veículos motorizados.
O novo código era muito mais abrangente.
Passava a regular:
- Automóveis;
- Motociclos;
- Carroças;
- Cavaleiros;
- Peões;
- Animais de tração.
O objetivo era modernizar a circulação rodoviária e aproximar Portugal dos padrões internacionais definidos pela Convenção de Paris de 1926.
A obrigatoriedade de conduzir pela direita
A segunda novidade foi ainda mais impactante.
Todos os condutores portugueses passaram a ser obrigados a circular pela direita.
Na época, existiam cerca de:
- 31 mil condutores;
- 28 mil automóveis.
Todos tiveram de adaptar os seus hábitos praticamente de um dia para o outro.
A noite em que Portugal mudou de lado
A mudança ocorreu durante a madrugada de 31 de maio para 1 de junho de 1928.
Foi uma operação logística sem precedentes na história do país.
No território continental e nas ilhas, a alteração aconteceu exatamente à meia-noite.
Quando os relógios marcaram as doze badaladas, os condutores que ainda circulavam tiveram de mudar imediatamente para o lado direito da estrada.
Em Lisboa, contudo, foi adotada uma solução diferente.
A capital efetuou a transição às cinco horas da manhã, aproveitando um período de menor circulação para reduzir riscos e confusões.
O ACP ajudou a preparar os portugueses
O Automóvel Club de Portugal (ACP) desempenhou um papel essencial nesta mudança.
Nos dias que antecederam a entrada em vigor das novas regras, foram publicados anúncios nos principais jornais nacionais.
Os avisos explicavam detalhadamente:
- Como circular pela direita;
- Como realizar ultrapassagens;
- Como abordar cruzamentos;
- Quais seriam as novas regras de trânsito.
Além disso, milhares de cartazes foram espalhados pelo país com uma mensagem simples e direta:
“Pela Direita”
O objetivo era evitar acidentes e ajudar a população a interiorizar rapidamente a mudança.
Os primeiros acidentes foram inevitáveis
Apesar de toda a preparação, a adaptação não foi imediata, sublinha o Ekonomista.
Muitos condutores estavam habituados a décadas de circulação pela esquerda.
Nas primeiras horas registaram-se situações de confusão e pequenos acidentes.
Para quem tinha conduzido toda a vida segundo uma determinada lógica, mudar repentinamente de lado exigia uma enorme capacidade de adaptação.
Ainda assim, a transição decorreu com relativo sucesso quando comparada com outras operações semelhantes realizadas noutros países.
Uma mudança com significado político
A curiosidade histórica não passou despercebida aos jornais da época.
Portugal tinha acabado de abandonar a Primeira República e encontrava-se sob a Ditadura Militar.
A coincidência gerou inúmeros comentários.
Alguns cronistas observaram que, enquanto o país mudava de rumo político, também nas estradas a esquerda passava a pertencer ao passado.
A ordem oficial era agora:
“Pela Direita.”
A ironia não escapou aos observadores mais atentos.
A influência da indústria automóvel
Além das razões políticas e da harmonização europeia, existia uma motivação prática.
Durante os anos 20, os fabricantes automóveis começaram a produzir veículos com volante à esquerda.
Esta configuração tornava-se mais eficiente e segura quando os veículos circulavam pelo lado direito da estrada.
Portugal estava a tornar-se uma exceção na Europa continental.
A mudança facilitava:
- A importação de automóveis;
- A circulação internacional;
- A adaptação tecnológica;
- A segurança rodoviária.
Portugal juntou-se à maioria da Europa
Com esta decisão, Portugal alinhou-se com a maioria dos países europeus continentais.
Apenas alguns territórios mantiveram a circulação pela esquerda.
Entre eles:
- Reino Unido;
- Irlanda;
- Malta;
- Chipre.
A Suécia, por exemplo, só faria a sua famosa mudança em 1967, através da operação conhecida como “Dagen H” (Dia H), considerada uma das maiores transformações rodoviárias da história moderna.
O primeiro Código da Estrada trouxe regras inovadoras
O Código da Estrada de 1928 introduziu medidas extremamente avançadas para a época.
Entre elas destacavam-se:
Penalizações para infrações graves
Conduzir sem licença podia resultar em multas elevadas e até penas de prisão.
Obrigação de prestar auxílio
Quem provocasse um acidente era obrigado a parar e prestar assistência.
A fuga ao local poderia levar à perda da licença de condução.
Regras para todos
Pela primeira vez, a legislação aplicava-se de forma universal a todos os utilizadores da estrada.
Era uma verdadeira revolução na mobilidade portuguesa.
Quase um século depois, o legado mantém-se
Passaram 98 anos desde aquela madrugada histórica.
Hoje, milhões de portugueses conduzem naturalmente pela direita sem imaginar que os seus bisavós faziam exatamente o contrário.
A mudança de 1928 não foi apenas uma alteração de trânsito. Representou um passo decisivo na modernização do país e na integração de Portugal nas normas internacionais.
Foi também o início de uma nova era para a segurança rodoviária nacional.
Uma das maiores mudanças silenciosas da história portuguesa
Poucos acontecimentos alteraram de forma tão profunda o quotidiano dos portugueses sem provocar grandes confrontos ou resistência social.
Numa única noite, um país inteiro mudou hábitos, adaptou comportamentos e aprendeu novas regras.
Hoje, quase um século depois, essa transformação continua a ser uma das mais curiosas e surpreendentes páginas da história de Portugal.
Sabia desta curiosidade histórica?
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