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Início Histórias Curiosidades

Durante séculos os portugueses conduziram pela esquerda. Quando mudou para a direita?

Até 1928 Portugal conduzia pela esquerda. Descubra porque mudou para a direita e como nasceu o primeiro Código da Estrada.

Sara Costa Por Sara Costa
12/06/2026
em Curiosidades, Notícias
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Durante séculos os portugueses conduziram pela esquerda. Quando mudou para a direita?

Durante séculos os portugueses conduziram pela esquerda. Quando mudou para a direita? - Arquivo DN © Global Notícias

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Hoje parece impossível imaginar Portugal a conduzir pelo lado esquerdo da estrada. No entanto, durante séculos, essa foi a realidade em todo o território nacional. Tal como acontece atualmente no Reino Unido, na Irlanda ou na Austrália, os portugueses circulavam pela esquerda e os veículos ultrapassavam-se pelo lado oposto ao que hoje conhecemos.

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Tudo mudou numa madrugada histórica de 1928.

A partir de 1 de junho desse ano, Portugal abandonou uma tradição secular e passou a conduzir pela direita. A mudança foi tão profunda que obrigou milhares de condutores a alterar hábitos enraizados de um dia para o outro. Ao mesmo tempo, entrou em vigor o primeiro verdadeiro Código da Estrada português, um documento que revolucionou a mobilidade nacional.

Foi uma transformação que marcou uma geração e alterou para sempre a forma como os portugueses utilizam as estradas.

Porque conduzia Portugal pela esquerda?

A origem desta prática remonta a vários séculos e está intimamente ligada à história europeia e à relação privilegiada entre Portugal e Inglaterra.

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Durante muito tempo, circular pela esquerda era comum em diversos países europeus. A tradição terá surgido ainda na Idade Média, quando cavaleiros e viajantes preferiam manter-se do lado esquerdo dos caminhos para poderem utilizar a mão direita em caso de necessidade de defesa.

Contudo, a grande mudança começou com a Revolução Francesa.

Em 1794, a França oficializou a circulação pela direita, uma medida que viria a espalhar-se pela Europa à medida que os exércitos de Napoleão Bonaparte conquistavam novos territórios.

Os países que resistiram mais fortemente à influência francesa mantiveram a circulação pela esquerda.

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Entre eles estavam:

  • Portugal;
  • Reino Unido;
  • Império Austro-Húngaro.
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No caso português, a influência britânica foi decisiva.

A histórica aliança luso-britânica, considerada a mais antiga aliança diplomática ainda em vigor no mundo, contribuiu para reforçar este modelo de circulação durante o século XIX.

O país que seguia as regras inglesas

Ao longo de décadas, circular pela esquerda tornou-se uma realidade perfeitamente normal para os portugueses.

As carroças, os cavaleiros, os primeiros automóveis e até os peões organizavam-se segundo esta lógica.

Quando os automóveis começaram a popularizar-se no início do século XX, Portugal continuava alinhado com o modelo britânico.

Mas a Europa estava a mudar rapidamente.

A maioria dos países continentais já tinha adotado a circulação pela direita e a indústria automóvel começava a produzir veículos pensados para essa realidade.

Portugal começava a ficar isolado.

O decreto que mudou a história das estradas portuguesas

A transformação chegou oficialmente através do Decreto n.º 18.406, publicado em 31 de maio de 1928.

Este diploma trouxe duas mudanças históricas.

O primeiro Código da Estrada português

Pela primeira vez, Portugal passou a dispor de um verdadeiro Código da Estrada aplicável a todos os utilizadores da via pública.

Até então existia apenas o Regulamento para a Circulação de Automóveis, aprovado em 1911 e focado quase exclusivamente nos veículos motorizados.

O novo código era muito mais abrangente.

Passava a regular:

  • Automóveis;
  • Motociclos;
  • Carroças;
  • Cavaleiros;
  • Peões;
  • Animais de tração.

O objetivo era modernizar a circulação rodoviária e aproximar Portugal dos padrões internacionais definidos pela Convenção de Paris de 1926.

A obrigatoriedade de conduzir pela direita

A segunda novidade foi ainda mais impactante.

Todos os condutores portugueses passaram a ser obrigados a circular pela direita.

Na época, existiam cerca de:

  • 31 mil condutores;
  • 28 mil automóveis.

Todos tiveram de adaptar os seus hábitos praticamente de um dia para o outro.

A noite em que Portugal mudou de lado

A mudança ocorreu durante a madrugada de 31 de maio para 1 de junho de 1928.

Foi uma operação logística sem precedentes na história do país.

No território continental e nas ilhas, a alteração aconteceu exatamente à meia-noite.

Quando os relógios marcaram as doze badaladas, os condutores que ainda circulavam tiveram de mudar imediatamente para o lado direito da estrada.

Em Lisboa, contudo, foi adotada uma solução diferente.

A capital efetuou a transição às cinco horas da manhã, aproveitando um período de menor circulação para reduzir riscos e confusões.

O ACP ajudou a preparar os portugueses

O Automóvel Club de Portugal (ACP) desempenhou um papel essencial nesta mudança.

Nos dias que antecederam a entrada em vigor das novas regras, foram publicados anúncios nos principais jornais nacionais.

Os avisos explicavam detalhadamente:

  • Como circular pela direita;
  • Como realizar ultrapassagens;
  • Como abordar cruzamentos;
  • Quais seriam as novas regras de trânsito.

Além disso, milhares de cartazes foram espalhados pelo país com uma mensagem simples e direta:

“Pela Direita”

O objetivo era evitar acidentes e ajudar a população a interiorizar rapidamente a mudança.

Os primeiros acidentes foram inevitáveis

Apesar de toda a preparação, a adaptação não foi imediata, sublinha o Ekonomista.

Muitos condutores estavam habituados a décadas de circulação pela esquerda.

Nas primeiras horas registaram-se situações de confusão e pequenos acidentes.

Para quem tinha conduzido toda a vida segundo uma determinada lógica, mudar repentinamente de lado exigia uma enorme capacidade de adaptação.

Ainda assim, a transição decorreu com relativo sucesso quando comparada com outras operações semelhantes realizadas noutros países.

Uma mudança com significado político

A curiosidade histórica não passou despercebida aos jornais da época.

Portugal tinha acabado de abandonar a Primeira República e encontrava-se sob a Ditadura Militar.

A coincidência gerou inúmeros comentários.

Alguns cronistas observaram que, enquanto o país mudava de rumo político, também nas estradas a esquerda passava a pertencer ao passado.

A ordem oficial era agora:

“Pela Direita.”

A ironia não escapou aos observadores mais atentos.

A influência da indústria automóvel

Além das razões políticas e da harmonização europeia, existia uma motivação prática.

Durante os anos 20, os fabricantes automóveis começaram a produzir veículos com volante à esquerda.

Esta configuração tornava-se mais eficiente e segura quando os veículos circulavam pelo lado direito da estrada.

Portugal estava a tornar-se uma exceção na Europa continental.

A mudança facilitava:

  • A importação de automóveis;
  • A circulação internacional;
  • A adaptação tecnológica;
  • A segurança rodoviária.

Portugal juntou-se à maioria da Europa

Com esta decisão, Portugal alinhou-se com a maioria dos países europeus continentais.

Apenas alguns territórios mantiveram a circulação pela esquerda.

Entre eles:

  • Reino Unido;
  • Irlanda;
  • Malta;
  • Chipre.

A Suécia, por exemplo, só faria a sua famosa mudança em 1967, através da operação conhecida como “Dagen H” (Dia H), considerada uma das maiores transformações rodoviárias da história moderna.

O primeiro Código da Estrada trouxe regras inovadoras

O Código da Estrada de 1928 introduziu medidas extremamente avançadas para a época.

Entre elas destacavam-se:

Penalizações para infrações graves

Conduzir sem licença podia resultar em multas elevadas e até penas de prisão.

Obrigação de prestar auxílio

Quem provocasse um acidente era obrigado a parar e prestar assistência.

A fuga ao local poderia levar à perda da licença de condução.

Regras para todos

Pela primeira vez, a legislação aplicava-se de forma universal a todos os utilizadores da estrada.

Era uma verdadeira revolução na mobilidade portuguesa.

Quase um século depois, o legado mantém-se

Passaram 98 anos desde aquela madrugada histórica.

Hoje, milhões de portugueses conduzem naturalmente pela direita sem imaginar que os seus bisavós faziam exatamente o contrário.

A mudança de 1928 não foi apenas uma alteração de trânsito. Representou um passo decisivo na modernização do país e na integração de Portugal nas normas internacionais.

Foi também o início de uma nova era para a segurança rodoviária nacional.

Uma das maiores mudanças silenciosas da história portuguesa

Poucos acontecimentos alteraram de forma tão profunda o quotidiano dos portugueses sem provocar grandes confrontos ou resistência social.

Numa única noite, um país inteiro mudou hábitos, adaptou comportamentos e aprendeu novas regras.

Hoje, quase um século depois, essa transformação continua a ser uma das mais curiosas e surpreendentes páginas da história de Portugal.

Sabia desta curiosidade histórica?

Partilhe este artigo com familiares e amigos. Muitos portugueses desconhecem que o país conduziu pela esquerda durante séculos e que uma única madrugada mudou para sempre a forma como circulamos nas estradas.

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Etiquetas: circulação pela esquerda PortugalCódigo da Estrada 1928condução em Portugalhistória das estradas portuguesasmudança para condução pela direitaPortugal conduzia pela esquerda
Sara Costa

Sara Costa

Sempre adorou comunicar. Por isso, tornou-se uma profissional bem-sucedida no marketing digital e na produção de conteúdos. Paralelamente, formou-se em Turismo e dedica-se à organização de viagens e tours pelo mundo, escrevendo sobre os lugares mais fascinantes que há para conhecer.

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