O céu adquire uma tonalidade amarelada, o horizonte perde nitidez e, por vezes, até os automóveis amanhecem cobertos por uma fina camada de pó. É uma imagem cada vez mais familiar em Portugal — mas aquilo que parece apenas um fenómeno meteorológico passageiro pode ter consequências muito mais profundas.
Portugal encontra-se entre os países europeus mais expostos ao transporte de poeiras minerais provenientes do deserto do Saara, e uma investigação internacional conclui que a concentração destas partículas na atmosfera europeia aumentou durante o período analisado.
O fenómeno merece atenção não apenas pela alteração da qualidade do ar. As partículas transportadas durante milhares de quilómetros podem ter repercussões na saúde respiratória, mortalidade e produção de energia solar.
Há, contudo, uma distinção essencial: não é o deserto do Saara que está fisicamente a avançar sobre Portugal ou sobre a Europa.
São as suas poeiras que chegam em concentrações relevantes.
O Saara não está a aproximar-se de Portugal
A expressão “avanço do Saara” pode criar uma imagem impressionante, mas cientificamente enganadora.
Não existe uma deslocação física do deserto em direção à Península Ibérica.
O que acontece é um extraordinário processo de transporte atmosférico.
Fortes ventos levantam enormes quantidades de partículas minerais das regiões áridas do Norte de África. Uma vez suspensas na atmosfera, estas partículas podem ser transportadas pelas massas de ar ao longo de centenas ou milhares de quilómetros.
Dependendo da circulação atmosférica, essa poeira atravessa o Mediterrâneo ou percorre parte do Atlântico antes de alcançar o continente europeu. Portugal e Espanha encontram-se numa posição particularmente exposta a determinadas trajetórias.
Quase 20 mil medições ajudam a perceber a dimensão do fenómeno
A investigação analisou aproximadamente 18.500 medições diárias, recolhidas entre 2012 e 2021 em 103 locais europeus.
A investigadora portuguesa Célia Alves, do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM), da Universidade de Aveiro, participou no trabalho.
Combinando as observações disponíveis com técnicas de aprendizagem automática, os investigadores procuraram estimar a presença diária de poeira desértica na fração de partículas PM10.
As diferenças geográficas encontradas são expressivas.
No sul europeu, a concentração média de poeira desértica foi estimada em aproximadamente 5,28 microgramas por metro cúbico de ar.
No centro e norte da Europa, o valor médio ficou próximo de 2,09 microgramas por metro cúbico.
Ou seja, a exposição média estimada no sul europeu foi mais de duas vezes superior.
Portugal está entre os territórios particularmente expostos
A geografia ajuda a explicar porquê.
Portugal, Espanha, Itália e Grécia encontram-se entre os países europeus particularmente sujeitos às intrusões de poeira saariana.
No caso português, determinadas configurações atmosféricas permitem que massas de ar provenientes do Norte de África atravessem o Atlântico e sejam posteriormente transportadas em direção à Península Ibérica.
O resultado pode ser observado a olho nu nos episódios mais intensos.
O céu fica turvo ou alaranjado, a visibilidade diminui e superfícies exteriores podem ficar cobertas por depósitos de poeira.
Mas aquilo que os olhos conseguem ver representa apenas a dimensão mais evidente do fenómeno.
A concentração aumentou durante a década analisada
Um dos resultados mais relevantes da investigação está na evolução temporal.
Durante o período estudado, os investigadores identificaram uma tendência média de crescimento de aproximadamente 0,055 microgramas por metro cúbico por ano, correspondendo a aumentos acumulados relevantes em diferentes zonas.
Existe ainda um detalhe particularmente interessante.
Não terá sido necessariamente o número de episódios de intrusão que aumentou significativamente.
O que se tornou mais elevado foi o nível médio de poeira desértica presente na atmosfera.
Isto significa que a discussão não se resume à frequência com que Portugal observa céus carregados de partículas provenientes de África.
Importa igualmente perceber quanta poeira chega durante esses períodos e qual a exposição efetiva das populações.
O que são as partículas PM10?
PM10 é a designação utilizada para partículas inaláveis com diâmetro aerodinâmico igual ou inferior a aproximadamente 10 micrómetros.
São suficientemente pequenas para entrarem no sistema respiratório.
As partículas atmosféricas não têm todas a mesma origem. Podem resultar do tráfego rodoviário, indústria, combustão, incêndios florestais ou processos naturais, incluindo precisamente o transporte de poeiras minerais provenientes de regiões desérticas.
Durante uma forte intrusão saariana, a concentração de partículas no ar pode aumentar consideravelmente.
É por essa razão que estes episódios são acompanhados pelas autoridades responsáveis pela qualidade do ar e pela saúde pública.
Poeira do Saara pode representar um problema de saúde
O impacto sanitário é uma das dimensões mais relevantes da investigação.
As estimativas apresentadas para episódios de poeira no sul europeu apontam para uma associação com um aumento de aproximadamente 0,67% na mortalidade diária e de cerca de 0,73% nos internamentos por doenças respiratórias entre pessoas com mais de 15 anos.
Nas crianças até aos 14 anos, a estimativa apresentada para internamentos relacionados com problemas respiratórios chega aos 2,55%.
Estes números precisam, contudo, de ser interpretados corretamente.
Não são estimativas específicas para Portugal nem significam que todas as pessoas expostas enfrentem individualmente esse aumento de risco. Representam associações epidemiológicas calculadas para populações e regiões estudadas.
Ainda assim, ajudam a demonstrar que a poeira saariana não deve ser encarada apenas como uma curiosidade meteorológica.
Crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias merecem atenção especial
Nem todas as pessoas apresentam a mesma vulnerabilidade à degradação temporária da qualidade do ar.
Durante episódios intensos de partículas, indivíduos com asma, doença pulmonar obstrutiva crónica ou outras patologias respiratórias e cardiovasculares podem ser particularmente sensíveis.
Crianças e pessoas idosas também justificam maior atenção.
Quando existe um aviso oficial de deterioração da qualidade do ar, seguir as recomendações das autoridades de saúde torna-se especialmente importante.
Dependendo da intensidade do episódio, poderá ser aconselhada a redução de esforços físicos prolongados no exterior por parte das pessoas mais vulneráveis.
Há outro impacto silencioso: os painéis solares
A poeira do Saara também pode produzir consequências num setor cada vez mais importante para Portugal: a energia fotovoltaica.
Existem dois mecanismos principais.
Primeiro, a presença de partículas na atmosfera pode reduzir parte da radiação solar que chega à superfície.
Depois existe um problema muito mais visível: a deposição de poeira diretamente sobre os módulos fotovoltaicos.
Uma camada de partículas sobre os painéis reduz a quantidade de radiação que atinge as células e, consequentemente, pode diminuir a produção elétrica.
Para grandes parques solares, prever corretamente uma intrusão de poeira pode tornar-se relevante para estimar antecipadamente alterações na produção.
Melhor previsão pode ajudar o sistema elétrico
A expansão das energias renováveis torna a previsão meteorológica e atmosférica cada vez mais importante para a gestão energética.
Se um operador souber antecipadamente que uma forte concentração de poeira poderá reduzir a produção fotovoltaica numa determinada região, poderá incorporar essa informação nas previsões de geração elétrica.
Não se trata apenas de saber se estará sol.
Para estimar corretamente a energia solar disponível, é necessário conhecer as condições da atmosfera entre o Sol e os painéis.
Aerossóis, nuvens e poeiras podem alterar significativamente essa equação.
As alterações climáticas estão por detrás do aumento?
Esta é uma das perguntas mais complexas — e exige cautela.
Entre as hipóteses consideradas encontram-se alterações da aridez e das condições dos solos nas regiões de origem, bem como mudanças nos padrões de circulação atmosférica responsáveis pelo levantamento e transporte das partículas.
As alterações climáticas provocadas pela atividade humana podem contribuir para modificar algumas dessas condições, mas estabelecer uma relação causal direta e quantificar exatamente a sua contribuição exige evidência científica específica.
Por outras palavras, seria precipitado afirmar que cada episódio de poeira saariana observado em Portugal é “provocado pelas alterações climáticas”.
A realidade atmosférica é bastante mais complexa.
Porque chegam estas poeiras tão longe?
A escala do fenómeno impressiona.
As partículas minerais podem atingir altitudes suficientes para serem incorporadas em massas de ar capazes de percorrer enormes distâncias.
O transporte de poeira do Saara não é sequer exclusivamente europeu.
Poeiras africanas atravessam regularmente o Atlântico, podendo chegar às Caraíbas e ao continente americano.
Este transporte mineral faz parte do funcionamento natural do sistema terrestre e pode desempenhar inclusivamente funções ecológicas importantes, transportando nutrientes entre continentes.
O problema surge quando concentrações elevadas coincidem com zonas densamente povoadas, deteriorando temporariamente a qualidade do ar.
O que fazer quando Portugal está sob poeira do Saara?
Não existe motivo para alarmismo sempre que o céu fica amarelado. Mas também não deverá ignorar-se um episódio intenso, sobretudo quando existem avisos oficiais de qualidade do ar.
Durante períodos de maior concentração, pessoas particularmente vulneráveis deverão acompanhar as recomendações das autoridades e evitar exposição exterior desnecessária caso essa seja a indicação emitida.
Também é importante distinguir poeira visível de risco individual.
A intensidade, duração, composição das partículas, condições meteorológicas e estado de saúde de cada pessoa influenciam a exposição e os seus potenciais efeitos.
Um fenómeno distante que chega diretamente ao quotidiano português
O Saara encontra-se do outro lado do mar, mas a atmosfera não conhece fronteiras.
Uma tempestade de poeira formada no Norte de África pode atravessar enormes distâncias e, algum tempo depois, alterar o céu observado a partir de Lisboa, Porto, Coimbra, Faro ou qualquer outra região portuguesa.
Aquilo que durante anos foi encarado sobretudo como um fenómeno meteorológico curioso ganha agora uma dimensão adicional.
Qualidade do ar, saúde pública, alterações ambientais e produção energética encontram-se ligadas por partículas tão pequenas que muitas delas são invisíveis a olho nu.
Portugal está geograficamente numa das portas de entrada europeias dessas massas de ar.
E se a tendência identificada pelos investigadores persistir, compreender, prever e acompanhar estes episódios poderá tornar-se cada vez mais importante.
O deserto não está a avançar sobre Portugal.
Mas uma pequena parte dele consegue atravessar o céu — e chegar até nós.




