Há frases que incomodam precisamente porque nos obrigam a olhar de frente para aquilo que preferíamos manter distante. “Vamos ter um grande sismo na Grande Lisboa e no Algarve, só não sabemos quando” foi uma das afirmações que marcaram a intervenção de Adalberto Campos Fernandes durante a CNN Portugal Summit dedicada à resiliência perante emergências complexas.
De acordo com o Observador, o alerta não significa que seja possível prever a data de um futuro terramoto. Pelo contrário: não existe atualmente uma forma de saber quando ocorrerá um grande sismo. A questão levantada pelo antigo ministro da Saúde é outra, e talvez ainda mais importante: perante um risco conhecido, estará Portugal suficientemente preparado?
A resposta exige mais do que preocupação momentânea. Exige planeamento, conhecimento, coordenação e, sobretudo, uma população capaz de saber como agir quando uma emergência acontecer.
Portugal vive com um risco sísmico que não pode ser ignorado
Portugal não é um país imune aos terramotos. A memória coletiva guarda ainda o devastador sismo de 1755, que atingiu violentamente Lisboa e provocou consequências que ultrapassaram largamente as fronteiras da capital.
Séculos depois, o risco continua a existir.
A Grande Lisboa e o Algarve são frequentemente apontados entre as regiões portuguesas particularmente relevantes quando se fala de risco sísmico. Um grande evento poderia afetar não apenas edifícios, mas também estradas, redes de abastecimento, comunicações, hospitais, empresas e outros serviços essenciais.
É precisamente por isso que a discussão não deve centrar-se exclusivamente na magnitude de um eventual terramoto. O verdadeiro desafio está na capacidade de uma sociedade resistir, responder e recuperar.
“Só não sabemos quando”
Durante a sua intervenção sobre saúde e resiliência, Adalberto Campos Fernandes deixou um aviso particularmente contundente ao defender que Portugal precisa de olhar para a preparação perante catástrofes como uma prioridade nacional.
O coordenador do Pacto Estratégico para a Saúde considerou que o país vive numa zona de elevada vulnerabilidade sísmica e afirmou que haverá um grande sismo na Grande Lisboa e no Algarve, embora sem ser possível determinar quando.
A declaração deve ser entendida no contexto do risco sísmico conhecido e não como uma previsão científica de uma data ou de um evento específico. Essa distinção é essencial. Não é possível saber se um grande terramoto acontecerá amanhã, daqui a dez anos ou muito mais tarde. Mas a impossibilidade de prever o momento exato não elimina a necessidade de preparação. Pelo contrário: é precisamente porque não sabemos quando acontecerá que a preparação deve começar antes.
O problema não é apenas o terramoto
Quando se imagina um grande sismo, é natural pensar imediatamente no momento em que a terra começa a tremer.
Mas os maiores desafios podem surgir depois.
Hospitais podem ficar sob enorme pressão. Estradas podem tornar-se intransitáveis. Comunicações podem ser interrompidas. Edifícios podem ficar danificados. Famílias podem ficar separadas. Empresas podem deixar de funcionar. Serviços essenciais podem enfrentar dificuldades.
Uma emergência desta dimensão exige, por isso, muito mais do que uma resposta médica.
Exige um Estado resiliente, capaz de coordenar diferentes setores e tomar decisões rapidamente.
“Mais do que falar de saúde e resiliência na saúde, nós precisamos (…) de um Estado resiliente”, defendeu Adalberto Campos Fernandes durante a conferência.
A mensagem é clara: uma catástrofe de grandes dimensões não respeita ministérios, departamentos ou fronteiras administrativas. Afeta a sociedade como um todo.
Portugal precisa de aprender antes da emergência
Um dos exemplos apresentados durante a intervenção foi o Japão, país que convive há décadas com uma forte cultura de preparação para fenómenos sísmicos.
A referência não surge por acaso.
O Japão desenvolveu sistemas de prevenção, construção adaptada, treino, informação pública e mecanismos de resposta que procuram transformar o conhecimento sobre o risco numa capacidade concreta de reação.
A ideia que Portugal pode retirar desta experiência é simples: uma população informada não é um detalhe numa emergência; é parte fundamental da resposta.
Saber o que fazer durante um sismo pode reduzir o pânico, evitar comportamentos perigosos e ajudar a proteger não apenas cada indivíduo, mas também as pessoas que estão à sua volta.
“O improviso mata”
Uma das críticas mais fortes deixadas durante a intervenção esteve relacionada com a falta de planeamento.
Adalberto Campos Fernandes defendeu que é necessário antecipar cenários e construir capacidades com tempo, sublinhando que uma resposta eficaz não pode depender exclusivamente da improvisação.
A lógica é particularmente importante quando se fala de catástrofes.
Não se prepara um país no momento em que o chão começa a tremer.
A preparação tem de acontecer muito antes. É necessário definir responsabilidades, testar procedimentos, identificar vulnerabilidades e realizar exercícios que permitam perceber o que funciona e o que precisa de ser corrigido.
Em situações de emergência, cada minuto pode ser determinante. Quanto mais claras forem as funções de cada entidade e mais treinadas estiverem as equipas, menor será a dependência de decisões improvisadas.
A população também precisa de ser preparada
Outro dos pontos centrais da intervenção foi a importância de envolver diretamente os cidadãos.
Não basta existir um plano nacional de emergência se a população não souber como reagir.
Uma mensagem no telemóvel pode alertar para uma emergência, mas não substitui conhecimento, treino e preparação.
Cada pessoa deve conhecer comportamentos básicos de autoproteção e perceber o que fazer durante e depois de um sismo. As famílias podem ainda definir previamente formas de contacto, pontos de encontro e procedimentos para situações em que as comunicações estejam condicionadas.
A preparação deve começar dentro de casa, mas não pode terminar aí.
Escolas, empresas, hospitais, instituições públicas e comunidades locais também devem participar numa cultura de prevenção permanente.
Menos alarmismo, mais preparação
Falar sobre o risco de um grande sismo não deve servir para espalhar medo.
Deve servir para reduzir a vulnerabilidade.
Existe uma diferença profunda entre alarmar uma população e preparar uma população.
O alarmismo cria ansiedade e sensação de impotência. A preparação cria conhecimento e capacidade de resposta.
É precisamente essa segunda abordagem que deve prevalecer.
Não é necessário viver à espera de um terramoto. É necessário viver num país que sabe que o risco existe e que tomou medidas para limitar as suas consequências.
O que pode mudar antes de acontecer um grande sismo?
Há várias frentes onde a prevenção pode fazer a diferença.
A segurança e resistência dos edifícios é uma delas. A capacidade dos hospitais e dos serviços de emergência é outra. As redes de comunicação, energia, água e transportes também precisam de ser consideradas.
Mas existe ainda uma dimensão frequentemente esquecida: a preparação individual.
Ter conhecimento sobre os procedimentos de segurança, identificar zonas de maior risco dentro de casa, evitar colocar objetos pesados em locais que possam cair e manter um kit básico de emergência são medidas simples que podem aumentar a capacidade de resposta de uma família.
A informação correta também é uma forma de proteção.
Um desafio que ultrapassa governos e partidos
Adalberto Campos Fernandes defendeu ainda uma resposta que ultrapasse fronteiras partidárias e ideológicas, considerando necessária uma governação clara e uma cadeia de comando eficaz.
É uma questão particularmente relevante porque a preparação para uma catástrofe não pode depender apenas de ciclos políticos.
A prevenção sísmica é um investimento de longo prazo.
Os edifícios que hoje são reforçados, os exercícios que hoje são realizados e os planos que hoje são testados podem salvar vidas muitos anos depois.
É precisamente por isso que a prevenção raramente produz manchetes tão dramáticas como uma catástrofe. Mas o seu valor mede-se no momento em que uma emergência acontece e os danos são menores porque alguém decidiu preparar-se antecipadamente.
A grande pergunta é: estamos preparados?
O alerta sobre um eventual grande sismo na Grande Lisboa ou no Algarve deve ser encarado com seriedade, mas também com racionalidade.
Não há uma data para o próximo grande terramoto. Não existe uma previsão que permita saber exatamente quando a terra vai voltar a tremer com violência.
Existe, contudo, um risco que é conhecido.
E perante um risco conhecido, a pior estratégia seria esperar para ver.
Portugal tem conhecimento científico, profissionais especializados, estruturas de proteção civil e capacidade para aprender com experiências internacionais. Tem também uma memória histórica que deveria tornar a prevenção uma prioridade permanente.
O que está em causa não é apenas a capacidade de sobreviver ao momento do sismo. É a capacidade de proteger vidas, manter serviços essenciais a funcionar e reconstruir rapidamente depois da emergência.
A natureza pode não avisar.
Portugal, porém, pode preparar-se.
E talvez essa seja a mensagem mais importante deixada por este alerta: não é possível escolher quando um grande sismo acontecerá, mas ainda é possível escolher como estaremos preparados quando acontecer.





