Antes dos Lusitanos, antes dos Romanos e muito antes de existir Portugal, o território que hoje conhecemos como português já era habitado por diferentes comunidades. Entre os nomes que surgem em antigas fontes e tradições sobre a Península Ibérica encontram-se os Sefes, também chamados Ofis, um povo associado à misteriosa imagem das serpentes e à antiga designação grega de Ofiússa.
A história dos Sefes mistura referências de autores da Antiguidade, tradições sobre povos pré-romanos e interpretações que foram sendo desenvolvidas ao longo dos séculos. É precisamente por isso que este capítulo da história de Portugal continua a despertar tanta curiosidade: há elementos que pertencem ao domínio das fontes antigas, outros que resultam de interpretações históricas e outros que permanecem difíceis de confirmar arqueologicamente.
E há uma certeza que importa desde logo estabelecer: os Sefes não podem ser considerados, à luz do conhecimento atual, os primeiros habitantes do território português. A presença humana nesta região remonta a períodos pré-históricos muito anteriores à Idade do Ferro. Quando os povos conhecidos pelas fontes clássicas chegaram ou ganharam protagonismo, já existiam comunidades humanas estabelecidas há milhares de anos.
Quem eram os Sefes?
Os Sefes são tradicionalmente associados aos Ofis e à antiga Ofiússa, uma designação relacionada com serpentes.
A palavra grega ophis significa precisamente “serpente”, daí a associação entre Ofiússa e uma suposta “terra das serpentes”. Esta imagem contribuiu para alimentar, ao longo dos séculos, uma narrativa fascinante em torno de um povo que teria atribuído especial importância simbólica a estes animais.
Contudo, é necessário ter cautela.
As referências antigas a povos e territórios da Península Ibérica nem sempre permitem identificar com segurança as populações arqueológicas correspondentes.
Os autores clássicos utilizavam frequentemente nomes diferentes para regiões ou comunidades e, em muitos casos, as descrições geográficas são difíceis de conciliar com o mapa atual.
Por isso, falar dos Sefes é também falar dos mistérios ainda existentes sobre a Península Ibérica pré-romana.
A antiga Península Ibérica era um mosaico de povos
Muito antes de Roma conquistar a Península, o território estava longe de ser uma unidade política ou cultural. Existiam numerosas comunidades, com diferentes tradições, línguas, formas de organização social e relações comerciais. No atual território português e nas regiões vizinhas encontramos referências a povos como os Lusitanos, Galaicos, Cónios e outros grupos pré-romanos, num cenário marcado por contactos e influências provenientes do interior da Península e também do Mediterrâneo.
A própria presença celta não deve ser entendida como a chegada de um único povo que substituiu todos os habitantes anteriores. A realidade foi bastante mais complexa, envolvendo migrações, contactos, trocas culturais e processos de transformação ao longo de séculos. A divulgação histórica da RTP descreve precisamente a chegada e interação de diferentes povos, incluindo comunidades celtas e os grupos posteriormente identificados como Lusitanos.
Os Sefes e a misteriosa Ofiússa
É aqui que começa uma das partes mais fascinantes da narrativa.
A associação entre os Sefes e a Ofiússa criou uma imagem quase lendária de uma terra marcada pelo culto ou pelo simbolismo da serpente.
Serpentes, dragões e outros animais fantásticos aparecem frequentemente nas tradições religiosas e artísticas de sociedades antigas. Mas não existe base suficiente para afirmar que todos esses símbolos encontrados no território português tenham uma origem especificamente sefiana.
É precisamente esta distinção que torna a investigação histórica tão importante.
Uma coisa é aquilo que as fontes antigas dizem.
Outra é aquilo que a arqueologia consegue demonstrar.
E outra, ainda, são as interpretações que foram construídas posteriormente.
Uma paisagem povoada muito antes dos Romanos
Quando Roma chegou à Península Ibérica, não encontrou um território vazio.
Encontrou comunidades com formas próprias de organização, economia, religião e defesa.
Os vestígios arqueológicos mostram uma paisagem marcada por povoados fortificados, necrópoles, estruturas agrícolas, oficinas e locais de culto.
Os castros, sobretudo no Norte e Noroeste peninsular, são alguns dos exemplos mais impressionantes dessa ocupação pré-romana.
Esses povoados revelam comunidades capazes de organizar a construção de estruturas defensivas e de explorar de forma sistemática os recursos disponíveis.
A realidade do território era, portanto, muito mais antiga e complexa do que a simples sucessão “Sefes → Lusitanos → Romanos”.
Agricultura, pecuária e sobrevivência
As comunidades da Idade do Ferro dependiam fortemente dos recursos disponíveis no território.
A agricultura fornecia cereais e outros alimentos essenciais, enquanto a criação de animais, a caça e a pesca complementavam a subsistência.
O conhecimento do território era fundamental.
Rios, montanhas, florestas e zonas costeiras não eram apenas elementos da paisagem: representavam fontes de alimento, vias de circulação e espaços com significado económico e religioso.
O desenvolvimento da metalurgia também transformou profundamente estas sociedades.
O ferro permitiu fabricar ferramentas e armas mais resistentes, enquanto o bronze continuou a desempenhar um papel importante na produção de objetos e elementos ornamentais.
Comércio e contactos com o Mediterrâneo
Um dos maiores erros ao imaginar os povos pré-romanos é pensar que viviam completamente isolados.
A Península Ibérica encontrava-se integrada em redes de contacto muito anteriores à conquista romana.
Fenícios, gregos e cartagineses estabeleceram relações comerciais com diferentes comunidades peninsulares.
O litoral desempenhou, por isso, um papel extraordinariamente importante.
Produtos, técnicas, objetos, ideias e costumes circulavam entre comunidades distantes.
No sudoeste da Península, por exemplo, a chamada Escrita do Sudoeste constitui um dos testemunhos mais fascinantes da Idade do Ferro. Existem numerosas estelas com inscrições associadas a comunidades que viveram em áreas do atual Alentejo e Algarve.
Estes vestígios mostram como a história do território português é muito mais antiga e diversificada do que frequentemente imaginamos.
E onde entram os Lusitanos?
Os Lusitanos tornaram-se posteriormente uma das populações pré-romanas mais conhecidas da região centro-oeste da Península Ibérica.
A sua resistência à expansão romana transformou-os numa das figuras mais marcantes da história antiga de Portugal.
Mas também aqui é necessário evitar uma simplificação.
Não existe uma linha direta e comprovada que permita afirmar que os Sefes se transformaram nos Lusitanos.
Os povos da Antiguidade não funcionavam como Estados modernos, com fronteiras rígidas e identidades nacionais perfeitamente definidas.
Havia alianças, conflitos, migrações, casamentos, trocas comerciais e processos de assimilação cultural.
As identidades mudavam.
As comunidades também.
Os Lusitanos e a chegada de Roma
Quando os Romanos avançaram sobre a Península Ibérica, encontraram uma multiplicidade de povos.
A conquista não foi imediata.
Houve resistência prolongada, conflitos e revoltas, sobretudo nas regiões onde Roma encontrou comunidades capazes de organizar oposição militar.
Os Lusitanos tornaram-se célebres precisamente pela resistência ao domínio romano.
Mais tarde, Roma reorganizou administrativamente uma grande parte do território através da província da Lusitânia, criada no período de Augusto. A província abrangia grande parte do atual Portugal, além de extensas áreas da atual Espanha. A capital foi estabelecida em Augusta Emerita, a atual Mérida.
Começava uma transformação profunda da paisagem, da economia, das cidades e das formas de vida.
Ainda existem marcas dos povos pré-romanos?
Sim.
E algumas das mais fascinantes estão debaixo dos nossos pés.
Castros, muralhas, necrópoles, estelas, objetos metálicos, cerâmicas e inscrições permitem aos arqueólogos reconstruir fragmentos de uma realidade que desapareceu há mais de dois mil anos.
Em alguns casos, cidades atuais conservam vestígios de ocupações muito antigas.
Évora, por exemplo, é uma extraordinária demonstração de continuidade histórica. A cidade atravessou diferentes períodos e conserva marcas associadas a comunidades anteriores aos Romanos, à presença romana, à época medieval e a períodos posteriores.
Esta sobreposição de épocas é uma das grandes riquezas arqueológicas de Portugal.
O fascínio das serpentes
A imagem da serpente merece, ainda assim, um lugar especial nesta história.
Ao longo da História, a serpente assumiu significados muito diferentes.
Pode representar perigo, renovação, conhecimento, fertilidade, proteção ou ligação ao mundo subterrâneo.
Em diversas culturas antigas, o animal aparece associado a divindades, rituais e símbolos de poder.
Mas atribuir automaticamente todas as representações de serpentes encontradas na Península aos Sefes seria ir além daquilo que as evidências permitem.
É justamente esta fronteira entre história, arqueologia e tradição que torna o tema tão interessante.
O que sabemos realmente sobre os Sefes?
Esta é talvez a pergunta mais importante.
Sabemos que as fontes antigas mencionam povos e territórios associados a nomes como Ofiússa e que a tradição historiográfica estabeleceu uma ligação entre os Sefes e a simbologia da serpente.
Sabemos também que a Península Ibérica da Idade do Ferro era habitada por numerosas comunidades e que existiam intensas relações culturais e comerciais entre diferentes regiões.
O que não podemos afirmar com segurança é que os Sefes constituíam um povo perfeitamente identificável, homogéneo e diretamente responsável pela fundação de várias cidades portuguesas.
Também não é correto afirmar que foram os primeiros habitantes do atual território português.
A ocupação humana é muitíssimo anterior.
Uma história que continua a despertar fascínio
Talvez seja precisamente a falta de respostas definitivas que torna os Sefes tão fascinantes.
Entre textos antigos, vestígios arqueológicos e interpretações modernas, permanece a imagem de uma Península Ibérica profundamente diferente da atual.
Uma terra de comunidades fortificadas, comerciantes, guerreiros, agricultores e artesãos.
Uma terra onde diferentes culturas se encontravam.
Uma terra onde, muito antes de existir Portugal, já se construía uma história feita de encontros e transformações.
Os Sefes pertencem a esse universo misterioso.
Mas a sua história deve ser contada com uma diferença fundamental: não como uma certeza absoluta, mas como parte de uma tradição histórica cuja interpretação continua a ser debatida.
E essa cautela não retira encanto à narrativa.
Pelo contrário.
Recorda-nos que a História não é apenas aquilo que já sabemos. É também aquilo que continuamos a tentar descobrir.
O verdadeiro legado da Pré-História e da Proto-História portuguesa
Quando se olha para Portugal, é fácil esquecer a profundidade temporal escondida sob as cidades, estradas e campos.
Antes dos Romanos, antes dos Lusitanos tal como aparecem nas fontes clássicas e muito antes da formação do reino medieval, existiram gerações de comunidades que ocuparam, transformaram e conheceram estas paisagens.
Algumas deixaram monumentos.
Outras deixaram objetos.
Outras deixaram apenas vestígios quase invisíveis.
E algumas chegaram até nós através dos nomes registados por escritores antigos.
Os Sefes fazem parte desse universo.
Não foram os primeiros habitantes de Portugal — mas a tradição que os associa à antiga Ofiússa é uma das páginas mais misteriosas da história dos povos pré-romanos da Península Ibérica.
E talvez seja essa a melhor forma de olhar para este passado: não procurar uma única origem para Portugal, mas compreender a extraordinária sucessão de comunidades e culturas que, ao longo de milhares de anos, ajudaram a moldar o território que hoje chamamos nosso.





