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Porque é que as mulheres vivem mais do que os homens? A ciência revela novas pistas

Porque vivem as mulheres mais do que os homens? Um estudo de 1.176 espécies revela pistas sobre cromossomas, reprodução e longevidade, mas sem resposta única.

Sara Costa Por Sara Costa
21/10/2026
em Curiosidades, Notícias
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Porque é que as mulheres vivem mais do que os homens? A ciência revela novas pistas

Porque é que as mulheres vivem mais do que os homens? A ciência revela novas pistas

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Outubro 21, 2026

Um estudo publicado na revista Science Advances analisou 1.176 espécies de mamíferos e aves e encontrou diferenças surpreendentes na longevidade. Os resultados apontam para o papel dos cromossomas, da competição reprodutiva e da evolução, mas não existe uma única explicação para o facto de as mulheres viverem mais tempo do que os homens.

Há uma pergunta que intriga os investigadores há décadas: porque razão as mulheres tendem a viver mais tempo do que os homens? A diferença verifica-se em praticamente todos os países, atravessa gerações e mantém-se mesmo com os progressos da medicina e a melhoria das condições de vida.

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Durante muito tempo, a explicação foi procurada nos hábitos quotidianos, nas diferenças hormonais e na genética. Agora, uma investigação internacional veio acrescentar novas pistas a este mistério, recorrendo a um dos maiores conjuntos de dados alguma vez utilizados para comparar a longevidade dos dois sexos no reino animal.

O estudo, publicado a 1 de outubro de 2025 na prestigiada revista científica Science Advances, analisou 1.176 espécies de animais que vivem em jardins zoológicos: 528 espécies de mamíferos e 648 de aves.

Os resultados revelaram padrões distintos entre os dois grupos e sugerem que os cromossomas não explicam tudo. A competição para encontrar parceiros, os sistemas de acasalamento e as diferenças físicas entre machos e fêmeas também parecem influenciar a longevidade.

É uma descoberta importante para compreender a evolução do envelhecimento, embora seja necessário distinguir os resultados obtidos nos animais daquilo que ainda precisa de ser demonstrado nos seres humanos.

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O estudo que analisou 1.176 espécies de animais

A investigação, liderada por Johanna Stärk e Fernando Colchero, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, na Alemanha, reuniu dados de espécies distribuídas por diferentes grupos de mamíferos e aves.

A equipa recorreu a registos de animais mantidos em jardins zoológicos de todo o mundo, utilizando a base de dados internacional Species360 Zoological Information Management System (ZIMS).

A principal vantagem desta abordagem foi permitir comparar a longevidade de numerosas espécies em ambientes onde alguns perigos naturais, como a predação e a escassez de alimentos, são reduzidos.

Os investigadores procuraram perceber se as diferenças entre machos e fêmeas persistiam mesmo quando determinadas pressões ambientais eram menores. E a resposta foi afirmativa: as diferenças continuaram a existir, embora variassem significativamente de espécie para espécie.

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O que revelaram os números?

Os resultados principais foram surpreendentes:

  • Mamíferos: as fêmeas apresentaram, em média, uma esperança de vida adulta 12% superior à dos machos.
  • Aves: os machos apresentaram, em média, uma esperança de vida adulta 5% superior à das fêmeas.
  • Espécies de mamíferos: em 72% das espécies analisadas, as fêmeas apresentaram uma vantagem de longevidade.
  • Espécies de aves: em 68% das espécies analisadas, os machos viveram mais tempo.
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Estes números não significam que todas as fêmeas de mamíferos vivam mais do que os machos, nem que todos os machos de aves tenham uma vida mais longa. São tendências médias observadas no conjunto de espécies estudadas, com diferenças importantes entre grupos e espécies.

A investigação identificou ainda exceções que mostram como a longevidade resulta da interação entre vários fatores biológicos e evolutivos.

Pode consultar a publicação original, intitulada Sexual selection drives sex difference in adult life expectancy across mammals and birds, na revista científica Science Advances.

A explicação pode estar nos cromossomas sexuais?

Uma das hipóteses analisadas pelos investigadores é conhecida como hipótese do sexo heterogamético. De acordo com esta explicação, o sexo que possui dois cromossomas sexuais diferentes poderá apresentar uma desvantagem de longevidade em determinadas espécies.

Nos mamíferos, incluindo os seres humanos, as mulheres possuem habitualmente dois cromossomas X, enquanto os homens possuem um X e um Y.

Nas aves, o sistema é diferente: os machos possuem geralmente dois cromossomas Z, enquanto as fêmeas possuem um Z e um W.

Esta distinção é relevante porque o sexo com dois cromossomas diferentes pode não beneficiar da mesma forma da existência de uma segunda cópia de determinados genes.

Porque podem os dois cromossomas X representar uma vantagem?

O cromossoma X contém numerosos genes importantes para o funcionamento do organismo, incluindo genes relacionados com o sistema imunitário.

Nas mulheres, a presença de dois cromossomas X pode oferecer alguma proteção contra determinadas mutações prejudiciais, porque uma cópia funcional de um gene pode, em certas circunstâncias, compensar uma alteração na outra cópia.

Isso não significa que o segundo cromossoma X funcione como uma proteção absoluta contra doenças ou envelhecimento. Os mecanismos genéticos são complexos e variam consoante os genes, os tecidos e as características de cada indivíduo.

Além disso, a existência de dois cromossomas X não explica, por si só, todas as diferenças de longevidade observadas nos mamíferos.

A própria investigação encontrou espécies que não seguem o padrão previsto. Por isso, os cromossomas parecem constituir uma parte da explicação, e não a resposta definitiva ao mistério da longevidade.

Competição reprodutiva: outro fator que pode encurtar a vida

A investigação identificou também uma associação entre as estratégias reprodutivas e as diferenças de longevidade.

Em muitas espécies de mamíferos, os machos competem intensamente pelo acesso às fêmeas. Esta competição pode envolver lutas, ferimentos, maior exposição a perigos e um investimento significativo de energia.

Em espécies nas quais poucos machos conseguem reproduzir-se com várias fêmeas, a pressão competitiva pode ser particularmente intensa. Estas condições estão associadas a diferenças mais acentuadas na longevidade entre os sexos.

Porque vivem alguns machos menos tempo?

A competição reprodutiva pode favorecer características físicas vantajosas para o acasalamento, como maior tamanho corporal, força ou estruturas utilizadas em confrontos.

Embora estas características possam aumentar as hipóteses de reprodução, também podem estar associadas a custos biológicos. O maior gasto energético e a exposição a ferimentos são exemplos de fatores que podem influenciar a sobrevivência.

Os investigadores encontraram uma associação entre sistemas de acasalamento não monogâmicos, maiores diferenças de tamanho entre os sexos e uma vantagem de longevidade feminina mais pronunciada nos mamíferos.

Nas aves, onde a monogamia social é frequente em muitas espécies, as diferenças de longevidade tendem a apresentar padrões distintos. Ainda assim, não se deve concluir que todos os animais monogâmicos vivem mais tempo ou que a competição reprodutiva determina sozinha a esperança de vida.

O resultado mais importante é que a evolução das estratégias de reprodução parece desempenhar um papel relevante na forma como a longevidade difere entre machos e fêmeas.

O investimento parental também pode fazer a diferença

Outro fator considerado no estudo é o investimento parental, ou seja, a energia e os recursos que cada sexo dedica à reprodução e à criação das crias.

Em numerosos mamíferos, as fêmeas suportam grande parte dos custos biológicos associados à gestação, ao nascimento e, em muitas espécies, à amamentação.

A sobrevivência da fêmea pode ser importante para garantir que as crias cresçam e atinjam a maturidade. Esta relação pode ter contribuído para a seleção evolutiva de características que favorecem a sobrevivência feminina em determinadas espécies.

No entanto, os padrões variam muito entre animais. Há espécies em que os machos assumem uma parte substancial dos cuidados parentais e outras nas quais a responsabilidade é partilhada de formas distintas.

É por isso que os investigadores não atribuem a diferença de longevidade a uma única característica. Os cromossomas, a competição reprodutiva, o tamanho corporal e o investimento parental podem interagir de maneiras diferentes consoante a espécie.

Porque é que as águias e outros animais contrariam a regra?

A natureza raramente obedece a regras absolutas.

Embora as fêmeas vivam geralmente mais tempo nos mamíferos analisados e os machos apresentem uma vantagem nas aves, existem espécies que seguem o padrão inverso.

Em muitas aves de rapina, por exemplo, as fêmeas são maiores do que os machos e podem apresentar uma longevidade superior. Estes casos demonstram que as diferenças cromossómicas não permitem prever, isoladamente, quanto tempo viverá cada sexo.

O comportamento, a ecologia, a dimensão corporal e a forma como cada espécie se reproduz contribuem para esta diversidade de resultados.

As exceções são especialmente importantes para os cientistas porque ajudam a perceber quais os mecanismos que explicam as diferenças entre animais e quais os que não se aplicam de forma universal.

Se os animais vivem em jardins zoológicos, porque é que isso importa?

Outro resultado relevante foi a persistência das diferenças de longevidade nos animais mantidos em cativeiro.

Nos jardins zoológicos, muitos animais estão protegidos de perigos presentes na natureza, como determinados predadores, a falta de alimento e algumas condições ambientais extremas.

Apesar dessas diferenças, os padrões de longevidade entre machos e fêmeas não desapareceram.

A investigação também comparou os resultados disponíveis em populações selvagens e verificou que algumas tendências se mantinham, embora as diferenças pudessem ser maiores na natureza.

Isto sugere que os fatores ambientais não explicam tudo. Os mecanismos biológicos e evolutivos também podem ter um papel importante.

Ainda assim, os jardins zoológicos não eliminam todos os fatores ambientais, nem tornam as condições de vida idênticas entre espécies. A genética, a alimentação, as doenças, a organização social e as características próprias de cada animal continuam a influenciar a sobrevivência.

E nos seres humanos? Porque vivem as mulheres mais tempo?

A diferença de longevidade entre mulheres e homens também é observada nos seres humanos. Contudo, não pode ser explicada diretamente pelos resultados obtidos nos animais.

A esperança de vida humana depende de uma combinação de fatores biológicos, comportamentais, sociais e ambientais.

Entre as possíveis contribuições biológicas encontram-se as diferenças hormonais, a resposta imunitária e a constituição cromossómica. O estrogénio, por exemplo, tem efeitos sobre o sistema cardiovascular, embora o seu impacto varie ao longo da vida e não explique isoladamente a diferença de longevidade.

Também existem diferenças nos comportamentos de saúde. Em muitos países, os homens apresentam taxas mais elevadas de consumo de tabaco e álcool, maior exposição a determinadas atividades de risco e uma mortalidade superior em acidentes e algumas causas de morte evitáveis.

A Organização Mundial da Saúde tem salientado igualmente que, em muitas circunstâncias, os homens recorrem menos aos serviços de saúde, o que pode contribuir para diagnósticos tardios e diferenças na mortalidade. Leia a análise da Organização Mundial da Saúde sobre as diferenças de esperança de vida.

Qual é a diferença em Portugal?

Os dados portugueses mostram claramente esta tendência. Em 2024, a esperança de vida à nascença em Portugal foi estimada em 85,4 anos para as mulheres e 79,8 anos para os homens, uma diferença de 5,6 anos.

Estes valores constam do perfil de saúde de Portugal elaborado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). Consulte o perfil de saúde de Portugal de 2025.

Esta diferença não significa que todos os homens morram antes das mulheres. Trata-se de uma média estatística que reflete as condições de mortalidade de uma população. Muitos homens vivem mais tempo do que muitas mulheres, mas o padrão geral continua a favorecer a longevidade feminina.

A ciência descobriu finalmente a resposta?

A investigação publicada em Science Advances trouxe pistas importantes para compreender a longevidade nos animais, mas não resolveu definitivamente a questão humana.

Os resultados apoiam parcialmente a hipótese dos cromossomas sexuais e mostram associações relevantes entre longevidade, sistemas de acasalamento e diferenças físicas entre os sexos.

Contudo, o estudo não demonstra que os cromossomas sejam a única causa para as mulheres viverem mais tempo do que os homens. Também não permite concluir que as diferenças observadas em mamíferos e aves expliquem diretamente a esperança de vida humana.

A longevidade é o resultado de muitos fatores que interagem ao longo da vida, desde a herança genética e as hormonas até aos hábitos, às condições sociais, à prevenção de doenças e ao acesso aos cuidados de saúde.

O que a investigação revela é que a diferença entre os sexos não surgiu apenas nas sociedades humanas modernas. Padrões semelhantes existem em muitas espécies e parecem ter raízes evolutivas profundas.

É uma conclusão que abre novas perguntas e reforça a importância de continuar a investigar os mecanismos do envelhecimento.

Conclusão: a longevidade feminina tem várias explicações

As mulheres tendem a viver mais tempo do que os homens em Portugal e na maioria dos países do mundo. A investigação sobre 1.176 espécies de mamíferos e aves oferece novas pistas sobre a influência dos cromossomas, da competição reprodutiva e do investimento parental.

Mas a ciência ainda não encontrou uma explicação única. A diferença de esperança de vida humana resulta de uma interação complexa entre fatores biológicos, comportamentais, sociais e ambientais.

Compreender estes mecanismos é importante não apenas para explicar por que razão as mulheres vivem mais tempo, mas também para identificar oportunidades de melhorar a saúde e a longevidade de homens e mulheres.

A grande lição desta investigação é que a longevidade não depende de um único gene, de uma hormona ou de uma estratégia evolutiva. É uma história muito mais complexa, escrita pela interação entre o organismo, o ambiente e a forma como cada espécie evoluiu ao longo do tempo.

Links de leitura recomendada

  • Science Advances — estudo sobre longevidade em mamíferos e aves
  • Instituto Max Planck — explicação dos resultados da investigação
  • Our World in Data — porque vivem as mulheres mais tempo do que os homens
  • OCDE — perfil de saúde de Portugal e esperança de vida em 2024
  • Organização Mundial da Saúde — diferenças de esperança de vida e acesso aos cuidados de saúde
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Etiquetas: diferença de esperança de vida entre homens e mulheresestudo Science Advancesestudo sobre longevidademulheres vivem mais tempoporque as mulheres vivem mais do que os homens
Sara Costa

Sara Costa

Sempre adorou comunicar. Por isso, tornou-se uma profissional bem-sucedida no marketing digital e na produção de conteúdos. Paralelamente, formou-se em Turismo e dedica-se à organização de viagens e tours pelo mundo, escrevendo sobre os lugares mais fascinantes que há para conhecer.

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