O peixe é presença habitual nas mesas portuguesas e continua a ser uma das escolhas mais valorizadas numa alimentação equilibrada. É fonte de proteína de elevado valor biológico, ómega-3, vitaminas e minerais, e o seu consumo está associado a benefícios importantes para a saúde. Mas existe um pormenor que não deve ser ignorado: algumas espécies podem acumular níveis mais elevados de mercúrio e, por isso, devem ser consumidas com maior cautela.
Não significa que seja necessário retirar o peixe da alimentação. Muito pelo contrário. As recomendações oficiais portuguesas procuram precisamente encontrar um equilíbrio entre os benefícios nutricionais do pescado e os riscos associados à exposição ao metilmercúrio. A chave está na escolha das espécies, na variedade e na frequência de consumo.
O problema invisível que pode estar no peixe
O mercúrio é um contaminante presente no ambiente que pode chegar aos ecossistemas aquáticos e entrar na cadeia alimentar. No peixe, uma das formas mais relevantes para a saúde humana é o metilmercúrio, que tende a acumular-se nos organismos ao longo da cadeia alimentar.
É aqui que surge uma regra importante: os peixes predadores, de maior dimensão e com maior longevidade tendem a apresentar concentrações mais elevadas de mercúrio. Ao alimentarem-se de outros organismos, vão acumulando o contaminante ao longo do tempo.
Por isso, olhar apenas para o facto de determinado peixe ser considerado saudável não chega. Também importa saber qual é a espécie e com que frequência é consumida.
Quais são os peixes que exigem maior cautela?
As recomendações elaboradas em Portugal identificam várias espécies com teor elevado de mercúrio. Entre elas encontram-se atum fresco, cação, espadarte, maruca, pata-roxa, peixe-espada e tintureira. Para os grupos vulneráveis, estas espécies devem ser evitadas.
Esta informação é particularmente importante porque alguns destes peixes são apreciados e fazem parte da alimentação habitual de muitas famílias. O problema não está num consumo ocasional por parte da população em geral, mas sobretudo numa exposição frequente e, em determinadas fases da vida, numa maior vulnerabilidade aos efeitos do metilmercúrio.
Porque é que o tamanho do peixe importa?
A explicação é relativamente simples. Um peixe predador grande pode viver durante vários anos e alimentar-se de numerosos outros animais. Ao longo desse percurso, os contaminantes presentes no ecossistema podem acumular-se no seu organismo.
É por isso que o tamanho, a longevidade e a posição do peixe na cadeia alimentar ajudam a explicar por que razão algumas espécies apresentam maiores concentrações de mercúrio. Não se trata, portanto, de uma questão de peixe “bom” ou “mau”. Trata-se de compreender que diferentes espécies apresentam diferentes perfis de risco e benefício.
Quem deve ter mais cuidado?
As recomendações portuguesas dão especial atenção às mulheres grávidas, mulheres a amamentar e crianças até aos 10 anos, grupos considerados vulneráveis aos potenciais efeitos do mercúrio, nomeadamente no desenvolvimento cognitivo. Para estes grupos, a recomendação é particularmente clara: devem ser privilegiadas espécies com teores baixos ou médios de mercúrio e evitadas as espécies identificadas como tendo elevado teor.
A gravidez merece uma atenção especial porque o consumo de pescado continua a ser importante para a alimentação materna e para o desenvolvimento fetal. Assim, a estratégia não passa por eliminar o peixe, mas por fazer escolhas mais seguras.
E para os restantes adultos?
Para a população em geral, o cenário é bastante diferente. O pescado continua a ser recomendado e pode fazer parte da alimentação com regularidade.
As recomendações portuguesas apontam para um consumo de pescado entre 4 e 7 vezes por semana na população em geral, privilegiando a diversidade de espécies.
Esta ideia é fundamental: variar é melhor do que repetir sempre o mesmo peixe.
Uma semana em que se alternam sardinha, cavala, carapau, pescada, bacalhau, dourada ou outras espécies com menor teor de mercúrio oferece uma abordagem mais equilibrada do que consumir repetidamente uma espécie predadora com maior capacidade de acumular contaminantes.
Sardinha e cavala estão entre as escolhas a privilegiar
Há boas notícias para quem gosta dos sabores tradicionais portugueses.
Sardinha e cavala estão entre as espécies destacadas pelas recomendações por apresentarem menos mercúrio e serem fontes de ácidos gordos ómega-3.
Também são consideradas espécies com teores geralmente baixos de mercúrio opções como abrótea, bacalhau, carapau, choco, corvina, dourada, faneca, lula, pescada, polvo, raia, robalo e redfish, entre outras.
Ou seja, não é preciso abdicar dos pratos de peixe tão enraizados na gastronomia portuguesa. Muitas das escolhas mais tradicionais podem perfeitamente integrar uma alimentação variada.
O atum merece uma explicação à parte
O atum é um dos casos que mais facilmente pode gerar confusão.
As recomendações portuguesas distinguem atum fresco de atum em conserva. O atum fresco encontra-se entre as espécies identificadas com elevado teor de mercúrio, enquanto o atum em conserva integra a lista de espécies com teor médio ou baixo de mercúrio.
Por isso, não é correto colocar todo o atum no mesmo saco. A espécie, a dimensão do animal e a forma como é comercializado são fatores que podem fazer diferença.
O que escolher quando vai comprar peixe?
Na próxima ida ao mercado ou supermercado, não precisa de complicar. Algumas regras simples podem ajudar:
- Varie as espécies ao longo da semana.
- Privilegie peixes com baixo ou médio teor de mercúrio.
- Evite consumir repetidamente espécies predadoras de maior dimensão.
- Tenha atenção redobrada durante a gravidez, amamentação e na alimentação das crianças.
- Não confunda “peixe saudável” com “qualquer espécie de peixe, em qualquer quantidade”.
- Quando existir dúvida, consulte as recomendações oficiais das autoridades de saúde e segurança alimentar.
A diversidade é, provavelmente, uma das formas mais simples de tornar o consumo de pescado mais equilibrado.
O peixe continua a ser um alimento importante
O alerta sobre o mercúrio não deve criar medo à mesa. O pescado continua a fornecer proteína de elevada qualidade, ómega-3, iodo, selénio, fósforo e vitaminas, entre outros nutrientes importantes. As próprias recomendações oficiais sublinham que os benefícios do consumo de pescado são relevantes.
O verdadeiro problema seria interpretar esta informação como uma razão para deixar de comer peixe.
A mensagem é outra: comer peixe, sim — mas variar e escolher com conhecimento.
É precisamente essa avaliação entre benefícios e riscos que esteve na base das recomendações elaboradas pela DGAV, em conjunto com entidades como a ASAE, FCNAUP, INSA, IPMA e ISPUP.
O alerta que vale a pena guardar
O mercúrio não muda o sabor do peixe. Não apresenta necessariamente um sinal visível no prato. É justamente essa característica silenciosa que torna importante conhecer as recomendações.
Mas também não há motivo para transformar uma refeição de peixe num motivo de preocupação.
Uma sardinha grelhada, uma cavala assada, uma posta de bacalhau ou uma pescada continuam a ser escolhas perfeitamente compatíveis com uma alimentação equilibrada. O segredo está em não transformar uma única espécie na escolha de todas as semanas.
No fundo, a regra é simples: mais variedade, mais informação e menos repetição das espécies com maior teor de mercúrio.




