Há uma característica da fala nortenha que dificilmente passa despercebida: em muitas zonas do Norte de Portugal, o “v” e o “b” são pronunciados da mesma forma.
É assim que “vinho” pode soar como “binho” e “vida” como “bida”. Para quem cresceu noutras regiões do país, esta particularidade é imediatamente reconhecível. Para quem nasceu no Norte, faz simplesmente parte da maneira natural de falar.
Mas esta pronúncia tem uma história muito mais antiga do que possa parecer.
Não se trata de uma “mania”, de um erro de português ou de falta de cultura. É um fenómeno linguístico conhecido como betacismo, documentado nos dialetos setentrionais portugueses e também nos dialetos galegos.
E a explicação leva-nos muito para trás na história da língua portuguesa.
O que é, afinal, o betacismo?
O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa define betacismo como o fenómeno linguístico que consiste na substituição do som [v] pelo som [b] ou vice-versa.
É precisamente o que acontece quando um falante pronuncia “vinho” aproximadamente como “binho” ou “bom” com um som próximo de “vom”.
No Norte de Portugal, porém, a questão é mais interessante do que uma simples “troca de letras”.
Na realidade, não são as letras que estão a ser trocadas na escrita. O fenómeno acontece na pronúncia. A grafia continua a distinguir corretamente “b” e “v”; é na fala que essa oposição pode deixar de existir. Por isso, uma pessoa pode escrever perfeitamente “vinho” e, ao pronunciá-lo, produzir um som inicial próximo de [b].
É uma característica típica do Norte de Portugal
O betacismo é uma das características fonéticas associadas aos dialetos setentrionais portugueses. O Centro Virtual Camões identifica, entre as características dos dialetos do Norte, precisamente a neutralização da oposição entre /b/ e /v/, que não ocorre da mesma forma nos dialetos meridionais.
Estudos e materiais de divulgação linguística também identificam este fenómeno no Norte de Portugal e nos dialetos galegos.
Por isso, a pronúncia de “v” como “b” não pertence exclusivamente à cidade do Porto.
É uma característica que pode ser encontrada em diferentes áreas do Norte, embora a sua presença e intensidade possam variar de local para local.
Então, porque é que os nortenhos dizem “binho”?
A explicação encontra-se na própria história da língua.
O português nasceu linguisticamente no espaço galego-português, no Noroeste da Península Ibérica, e a evolução histórica da língua não foi igual em todas as regiões.
O Centro Virtual Camões explica que o português nasceu no Norte e que, ao longo da Idade Média, se expandiu progressivamente para sul. Mais tarde, a variedade linguística associada ao centro e ao sul ganhou importância na formação da norma-padrão.
Isso significa que determinadas características que hoje associamos à fala nortenha não são necessariamente “desvios” relativamente à história da língua. Algumas são, pelo contrário, testemunhos de uma evolução linguística regional muito antiga.
A história começa antes do português moderno
Para compreender o fenómeno é necessário recuar ao latim vulgar e às transformações fonéticas que ocorreram ao longo dos séculos.
A explicação não é totalmente consensual em todos os pormenores, mas uma das análises linguísticas mais discutidas relaciona o fenómeno com a evolução de diferentes sons do latim e com a forma como estes convergiram no espaço galego-português.
Um dos aspetos fundamentais é que os sons que deram origem ao atual “b” e ao atual “v” passaram por várias transformações.
Segundo a análise apresentada pelo Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, determinados sons latinos convergiram no sistema galego-português, podendo resultar numa articulação bilabial que posteriormente evoluiu de formas diferentes nas várias áreas do domínio linguístico.
É precisamente essa história fonética que ajuda a explicar por que razão o Norte conservou uma pronúncia diferente daquela que acabou por prevalecer na norma-padrão.
O Norte e a Galiza partilham esta característica
Existe ainda uma ligação histórica particularmente interessante.
O Norte de Portugal e a Galiza fazem parte de uma área linguística com profundas afinidades históricas. Antes de a fronteira política separar os territórios como hoje os conhecemos, existia o galego-português, língua medieval da qual evoluíram o português e o galego.
O Centro Virtual Camões descreve o português como uma língua que nasceu nas terras galegas e nortenhas e que, posteriormente, se expandiu para sul.
Não surpreende, portanto, que algumas características fonéticas tenham permanecido de ambos os lados da fronteira.
O betacismo é precisamente um desses traços. A documentação linguística identifica a neutralização entre /b/ e /v/ tanto nos dialetos setentrionais portugueses como nos dialetos galegos.
Não é “falar mal português”
Este ponto merece ser sublinhado.
Durante muito tempo, determinadas pronúncias regionais foram vistas como formas “erradas” de falar. A linguística moderna não sustenta essa ideia.
O Centro Virtual Camões explica que a existência de uma norma-padrão não significa que outras variedades linguísticas sejam linguisticamente melhores ou piores. Os dialetos possuem características próprias e fazem parte da diversidade de uma língua.
Assim, quando alguém no Norte diz “binho”, isso não significa que desconheça a existência da palavra “vinho” ou que não saiba escrever corretamente.
É simplesmente uma característica da pronúncia regional.
Aliás, o próprio Ciberdúvidas identifica o betacismo como uma característica dos falares do Norte de Portugal e alerta para a tendência de interpretar determinadas variedades regionais como “esquisitas” ou afastadas da norma, quando se trata, na realidade, de variação linguística.
O fenómeno não acontece apenas no Porto
É comum associar imediatamente esta pronúncia ao Porto.
A cidade Invicta tornou esta característica particularmente conhecida e reconhecível, mas o fenómeno não é exclusivamente portuense.
O betacismo encontra-se em diferentes áreas dos dialetos portugueses setentrionais, e os materiais de dialectologia do Centro Virtual Camões distinguem várias áreas dentro do Norte, incluindo os dialetos transmontanos, alto-minhotos e baixo-minhotos-durienses-beirões.
Isto significa que falar de “sotaque do Porto” e falar de “dialetos setentrionais” não é exatamente a mesma coisa.
Há uma enorme diversidade dentro do próprio Norte.
E há outras características da fala nortenha
A troca de “v” por “b” é apenas uma das características que podem distinguir as variedades setentrionais.
Os estudos dialectológicos identificam outros traços, como a conservação de determinados ditongos e diferenças na realização de alguns sons.
O Centro Virtual Camões refere, por exemplo, que nos dialetos do Norte se mantêm os ditongos /ou/ e /ei/ em áreas onde outras variedades apresentam evoluções diferentes.
Há ainda diferenças na pronúncia de “ch”, “s” e outros sons, dependendo da região.
É precisamente esta combinação de características que torna o mapa linguístico português tão interessante.
“Vinho” e “binho”: um pequeno detalhe com uma história enorme
À primeira vista, a diferença entre “vinho” e “binho” parece apenas uma particularidade curiosa do sotaque.
Mas, por detrás de um simples som, existe uma história com séculos.
Há a evolução do latim, a formação do galego-português, a diferenciação entre as variedades regionais, a expansão do português para sul e a posterior consolidação de uma norma-padrão com características predominantemente centro-meridionais.
Ou seja, uma única consoante pode contar parte da história da língua portuguesa.
E é isso que torna a linguística tão fascinante: palavras que usamos todos os dias podem conservar vestígios de épocas que já desapareceram há centenas de anos.
Porque é que algumas pessoas dizem “b” e outras dizem “v”?
A resposta está, sobretudo, na variedade regional da língua.
No português padrão atual existe uma distinção fonológica entre /b/ e /v/. É essa distinção que permite diferenciar, por exemplo, “bela” e “vela” através da pronúncia.
Nos dialetos setentrionais onde ocorre o betacismo, essa oposição pode ser neutralizada. Ou seja, os dois sons deixam de funcionar como dois fonemas distintos da mesma maneira que funcionam na norma-padrão.
Daí surgirem pronúncias como “bale” em vez de “vale”, fenómeno que também é reconhecido em outras localidades do Norte.
Uma marca de identidade linguística
Para muitas pessoas, a pronúncia nortenha é mais do que uma característica fonética.
É uma parte da identidade regional.
O modo de falar transmite origem, pertença, memórias familiares e ligação a determinado território. E isso acontece não apenas no Norte de Portugal, mas em todas as regiões onde existem variedades linguísticas próprias.
No caso do Norte, palavras, expressões, entoações e pronúncias contribuem para uma forma de falar imediatamente reconhecível.
O sotaque pode denunciar uma origem antes mesmo de a pessoa dizer onde nasceu.
Uma língua, muitos sotaques
Portugal é um país pequeno em dimensão geográfica, mas extraordinariamente diverso do ponto de vista linguístico.
Do Minho a Trás-os-Montes, do litoral ao interior e depois pelas Beiras, pelo Alentejo e pelo Algarve, existem diferentes formas de pronunciar sons, construir frases e utilizar palavras.
A própria investigação dialectológica portuguesa identifica diferentes grandes áreas e subáreas linguísticas, mostrando que não existe apenas uma única forma regional de falar português.
É precisamente essa diversidade que impede que a língua seja vista como algo estático.
O português está vivo porque é falado de maneiras diferentes por pessoas diferentes.
E talvez seja essa a maior curiosidade
Quando alguém do Norte pronuncia “v” como “b”, não está simplesmente a trocar uma letra por outra.
Está a reproduzir uma característica fonética com raízes profundas na história linguística do Noroeste da Península Ibérica.
O betacismo é, assim, muito mais do que uma curiosidade engraçada do sotaque nortenho. É um pequeno vestígio vivo de uma história linguística com muitos séculos.
Da próxima vez que ouvir um “binho” onde esperava ouvir um “vinho”, talvez valha a pena escutar de outra maneira.
Porque naquela pequena diferença de pronúncia pode estar escondida uma parte da história do próprio português.




