Se o telefone tocar e surgir um número nacional no ecrã, tenha atenção: pode estar perante uma chamada fraudulenta em nome da Polícia Judiciária. A PJ alerta para um esquema em que burlões se fazem passar por inspetores e recorrem a números falsificados para ganhar a confiança das vítimas.
A chamada pode começar de forma aparentemente normal. Do outro lado, alguém apresenta-se como representante de uma autoridade policial e comunica uma situação supostamente muito grave.
Pode falar de uma investigação criminal, de dados pessoais associados a crimes, de contas bancárias alegadamente comprometidas ou até de um mandado de detenção.
O objetivo é simples e perigoso: assustar para conseguir controlar.
A vítima é colocada perante uma situação de aparente emergência e, enquanto tenta perceber o que está a acontecer, é conduzida para a etapa seguinte da fraude: obedecer a instruções, carregar numa tecla, fornecer informações pessoais ou, em determinados esquemas, movimentar dinheiro.
Mas há um detalhe que torna esta burla especialmente perigosa.
O número que aparece no telemóvel pode parecer perfeitamente português e, ainda assim, não ser o verdadeiro número de origem da chamada.
O número português pode ser uma máscara
À primeira vista, tudo parece credível.
Surge um número nacional.
A pessoa que fala apresenta-se como inspetor. A linguagem parece formal. O assunto é sério. A conversa transmite urgência. É precisamente esta combinação que pode levar alguém a acreditar que está perante uma comunicação oficial. Os burlões recorrem a uma técnica conhecida como spoofing, que permite falsificar a identificação da chamada apresentada no telefone. Na prática, o número que aparece no visor pode não corresponder ao verdadeiro ponto de origem da comunicação.
Isto significa que receber uma chamada com um indicativo português não é, por si só, uma garantia de autenticidade.
É uma das razões pelas quais estas campanhas conseguem atingir pessoas que, em circunstâncias normais, seriam muito mais cautelosas perante um número desconhecido.
Como funciona esta burla que imita a Polícia Judiciária?
O esquema assenta sobretudo na manipulação psicológica.
O burlão precisa de fazer a vítima acreditar em três coisas:
que existe um problema, que o problema é extremamente grave e que é necessário resolvê-lo imediatamente.
A conversa pode começar com uma apresentação falsa em nome da Polícia Judiciária.
De seguida, é introduzido um cenário alarmante.
A vítima pode ser informada de que os seus dados pessoais foram utilizados numa investigação ou relacionados com atividades criminosas.
Em determinadas variantes, podem ser mencionados crimes como branqueamento de capitais.
Depois surge a ameaça.
Pode ser referido um alegado mandado de detenção ou outra consequência grave.
Nesta altura, a vítima já não está simplesmente a receber uma chamada.
Está a tentar defender-se de uma ameaça que acredita ser real.
É nesse momento que os burlões procuram obter uma reação.
Podem pedir que seja premida uma tecla, que sejam fornecidos dados ou que sejam seguidas determinadas instruções.
A urgência é fabricada. O medo é fabricado. A autoridade é falsificada.
Por que razão esta burla pode ser tão convincente?
Porque não depende apenas da tecnologia.
Depende sobretudo da forma como as pessoas reagem perante a autoridade e o medo.
Imagine ouvir, inesperadamente, que o seu nome está associado a uma investigação criminal.
É natural que surjam perguntas.
“Como é possível?”
“O que aconteceu?”
“Tenho de fazer alguma coisa?”
“Como posso resolver isto?”
Os burlões aproveitam precisamente esse estado emocional.
Quanto maior for o medo, maior pode ser a vontade de obedecer rapidamente.
E é aqui que está uma das principais regras de segurança:
não tome decisões importantes enquanto estiver sob pressão de uma chamada inesperada.
Desligar permite recuperar o controlo da situação.
Inteligência artificial torna as burlas ainda mais sofisticadas
As burlas telefónicas não nasceram com a inteligência artificial.
Há muito que os criminosos recorrem a técnicas de engenharia social para manipular vítimas.
Contudo, a evolução tecnológica pode tornar algumas campanhas mais convincentes.
A inteligência artificial pode ser utilizada para criar ou adaptar conteúdos, simular vozes e tornar determinadas interações mais sofisticadas.
Isso significa que já não é seguro pensar que uma fraude será necessariamente fácil de identificar porque o interlocutor fala de forma estranha ou porque a mensagem contém erros evidentes.
A aparência de profissionalismo pode ser fabricada.
A voz pode ser convincente.
A história pode parecer plausível.
O número pode parecer português.
E a instituição invocada pode ser uma entidade conhecida e respeitada.
Nada disso prova que a chamada seja legítima.
O que é o vishing?
Este tipo de fraude está relacionado com o chamado vishing, uma forma de engenharia social realizada através de chamadas de voz.
O objetivo é convencer a vítima a revelar informações, executar determinadas ações ou realizar operações que beneficiem os criminosos.
É, de certa forma, a versão telefónica de outras fraudes digitais já bastante conhecidas.
No phishing, a armadilha pode chegar através de uma mensagem ou de um email.
No vishing, a própria voz torna-se a ferramenta de manipulação.
E existe uma diferença importante.
Durante uma chamada, a vítima pode sentir uma pressão muito maior para responder imediatamente.
Não há tempo para analisar uma mensagem.
Não há necessariamente oportunidade para procurar informação.
Há alguém do outro lado a falar, a insistir e a exigir uma decisão.
É precisamente por isso que desligar é tão importante.
Os principais sinais de alerta
Embora os esquemas possam variar, existem alguns sinais que devem despertar imediatamente a desconfiança.
1. Uma chamada inesperada em nome da Polícia Judiciária
Se alguém liga sem que exista qualquer contacto previamente conhecido e afirma representar a PJ, é aconselhável manter uma postura especialmente cautelosa.
2. A conversa começa com uma acusação grave
Referências a crimes, contas bancárias comprometidas, utilização indevida de documentos ou investigações podem ser utilizadas para provocar medo.
3. É mencionado um mandado de detenção
Esta é uma das formas mais eficazes de aumentar a pressão psicológica.
O objetivo é fazer a vítima acreditar que está perante uma emergência que exige uma resposta imediata.
4. O interlocutor exige segredo
Frases como “não desligue”, “não fale com ninguém” ou “tem de resolver isto imediatamente” são sinais de alerta.
Uma situação verdadeiramente importante não deve impedir uma pessoa de confirmar a identidade de quem está a contactar.
5. É pedido que carregue numa tecla
Uma gravação ou um interlocutor que ordene que seja pressionada determinada tecla deve ser encarado com enorme desconfiança.
6. São solicitados dados pessoais ou bancários
Nunca devem ser fornecidos códigos, palavras-passe, credenciais ou informações bancárias a um interlocutor cuja identidade não tenha sido confirmada por meios independentes.
7. O número parece português
Este é talvez o sinal mais traiçoeiro.
O número nacional pode ser falsificado através de spoofing.
Por isso, olhar para o visor e reconhecer um indicativo português não é suficiente.
“Mas o número que me ligou é português…”
É precisamente essa aparência de normalidade que pode tornar a fraude mais eficaz.
Um número português transmite, à partida, maior familiaridade do que um número internacional desconhecido.
Os burlões sabem disso.
Ao apresentar um número nacional, podem aumentar a probabilidade de a chamada ser atendida e, posteriormente, de a história ser considerada credível.
Além disso, o verdadeiro titular do número apresentado pode não ter qualquer relação com a fraude.
O número pode estar a ser utilizado apenas como uma espécie de máscara digital.
Por isso, uma pessoa cujo número tenha sido falsificado pode até começar a receber chamadas de outras pessoas a perguntar por que motivo lhes ligou.
Na realidade, pode ser mais uma vítima.
Recebeu a chamada? Saiba exatamente o que fazer
A regra deve ser simples.
Desligue.
Não tente prolongar a conversa para descobrir se é realmente uma burla.
Não forneça dados.
Não carregue em teclas.
Não siga instruções.
Não instale aplicações.
Não transfira dinheiro.
Não permita que o interlocutor determine o ritmo da conversa.
Depois de desligar, se considerar necessário, procure a entidade através dos canais oficiais e confirme a situação por iniciativa própria.
É fundamental não utilizar apenas os contactos fornecidos pelo próprio interlocutor.
Se alguém disser:
“Não desligue, vou dar-lhe o número para confirmar.”
Desligue na mesma.
Procure o contacto oficial de forma independente.
Essa pequena diferença pode impedir que a armadilha continue.
E se já tiver fornecido dados?
Nesse caso, não deve existir vergonha nem hesitação.
As burlas são construídas precisamente para manipular pessoas.
Se foram fornecidos dados bancários, códigos, credenciais ou outras informações sensíveis, deve contactar imediatamente a instituição financeira através dos seus canais oficiais e explicar o sucedido.
Se tiver ocorrido uma transferência ou outra operação suspeita, é importante agir rapidamente.
Também deve ser apresentada denúncia às autoridades competentes.
Guarde todas as provas disponíveis.
O número que efetuou a chamada.
A hora.
Mensagens recebidas.
Capturas de ecrã.
Comprovativos.
Dados fornecidos pelo interlocutor.
Qualquer informação pode revelar-se útil.
Não apague as provas antes de as guardar.
E se estiver a receber chamadas de pessoas que dizem ter sido contactadas pelo seu número?
Também pode acontecer.
Se várias pessoas começarem a ligar de volta e afirmarem que receberam uma chamada de determinado número, apesar de o titular desse número não ter efetuado qualquer contacto, pode existir uma situação de spoofing.
Neste caso, o titular do número pode estar completamente alheio à fraude.
Os criminosos utilizam o número como identificação aparente da chamada e fazem com que outras pessoas pensem que o contacto partiu daquele telefone.
É uma consequência particularmente desagradável porque pode transformar uma pessoa inocente numa espécie de “rosto” involuntário da fraude.
A regra de ouro: uma autoridade não deve ser confirmada pelo próprio burlão
Existe uma regra simples que vale a pena memorizar.
Nunca confirme a identidade de quem telefona através do próprio contacto fornecido durante a chamada.
Se alguém disser:
“Sou da Polícia Judiciária.”
a resposta não deve ser:
“Como posso confirmar?”
seguindo depois as instruções dadas pelo próprio interlocutor.
A resposta mais segura é desligar.
Depois, através de uma fonte oficial e independente, poderá procurar os contactos da instituição e esclarecer a situação.
É a diferença entre acreditar numa identidade apresentada e verificar uma identidade por iniciativa própria.
O medo é a principal arma dos burlões
A tecnologia pode ajudar.
Os números falsificados podem ajudar.
As gravações podem ajudar.
A inteligência artificial pode ajudar.
Mas existe uma ferramenta ainda mais poderosa no arsenal dos burlões:
o medo.
É o medo que faz alguém agir sem pensar.
É o medo que faz alguém revelar informação que normalmente nunca revelaria.
É o medo que transforma uma chamada estranha numa suposta emergência.
Por isso, quando alguém tenta provocar uma reação imediata, a melhor defesa pode ser precisamente o contrário:
abrandar.
Respirar.
Desligar.
Pensar.
Confirmar.
Não deixe que o telefone dite as suas decisões
Uma chamada inesperada não deve obrigar ninguém a tomar uma decisão financeira ou de segurança imediatamente.
Mesmo que o interlocutor conheça o nome da pessoa.
Mesmo que saiba alguns dados pessoais.
Mesmo que tenha um discurso profissional.
Mesmo que o número apresentado seja português.
Mesmo que utilize uma voz convincente.
Nada disso substitui uma verificação independente.
Os burlões podem possuir informação sobre as vítimas obtida através de diferentes fontes. O facto de alguém conhecer alguns dados pessoais não significa que seja quem afirma ser.
Um alerta que merece ser partilhado
Há uma razão para este tipo de alerta merecer atenção especial.
As burlas telefónicas não afetam apenas pessoas pouco familiarizadas com a tecnologia.
Podem atingir qualquer pessoa.
Um momento de distração.
Um dia particularmente stressante.
Uma chamada recebida enquanto se está a trabalhar.
Uma pessoa mais velha preocupada com uma eventual conta bancária.
Um cidadão que nunca teve problemas com a justiça e entra imediatamente em pânico perante a menção de um mandado.
Basta um momento de pressão para que uma fraude cuidadosamente preparada consiga ultrapassar a desconfiança habitual.
É por isso que informar familiares, amigos e pessoas mais vulneráveis pode ser uma das melhores formas de prevenção.
Sobretudo quem vive sozinho ou quem não está habituado a lidar com fraudes digitais deve saber reconhecer estes sinais.
Cinco palavras para memorizar
Se uma chamada em nome da Polícia Judiciária provocar dúvidas, vale a pena recordar:
DESLIGAR. BLOQUEAR. CONFIRMAR. DENUNCIAR. PARTILHAR.
Desligar a chamada.
Bloquear o contacto, quando apropriado.
Confirmar a informação através de canais oficiais.
Denunciar a tentativa de fraude.
Partilhar o alerta com familiares e amigos para impedir que outros caiam na mesma armadilha.
Conclusão: recebeu esta chamada? Desligue já!
As burlas telefónicas estão cada vez mais sofisticadas.
Já não é suficiente desconfiar de números internacionais ou de mensagens cheias de erros.
Uma chamada fraudulenta pode apresentar um número nacional, utilizar uma linguagem convincente e invocar uma instituição de enorme credibilidade, como a Polícia Judiciária.
Pode falar em crimes.
Pode mencionar contas bancárias.
Pode ameaçar com um mandado de detenção.
Pode utilizar uma gravação.
Pode tentar criar pânico em poucos segundos.
Mas existe algo que os burlões não conseguem controlar: a decisão de desligar.
Se alguém contactar inesperadamente em nome da Polícia Judiciária e tentar provocar medo, pressionar ou obter informações, não permita que a urgência seja determinada pelo interlocutor.
Desligue.
Depois, confirme a informação através de meios oficiais.
Porque um número português pode ser falsificado.
Uma voz pode ser imitada.
Uma história pode ser inventada.
E uma ameaça pode ser apenas uma armadilha.
Quando a chamada tenta assustá-lo, desligar pode ser a decisão mais segura.




