De tempos a tempos, a mesma história volta a ganhar força nas redes sociais, aplicações de mensagens e grupos de família: alguém afirma ter sido vítima de um roubo através do cartão bancário, alegando que um desconhecido passou junto de si com um terminal de pagamento escondido e retirou dinheiro da sua conta sem que se apercebesse.
A narrativa é alarmante, gera medo e espalha-se rapidamente. Mas será que corresponde à realidade?
A resposta é mais complexa do que um simples “sim” ou “não”. Embora a tecnologia utilizada nos pagamentos por aproximação permita, em teoria, determinadas interações sem contacto físico direto, a realidade demonstra que este tipo de fraude é extremamente improvável e enfrenta inúmeros obstáculos técnicos, legais e bancários.
Na prática, o maior perigo para os consumidores encontra-se noutro tipo de burlas muito mais sofisticadas.
Como funciona a tecnologia Contactless?
Os cartões bancários com pagamento por aproximação utilizam a tecnologia NFC (Near Field Communication), exatamente a mesma presente em muitos smartphones, smartwatches e outros dispositivos eletrónicos.
O seu funcionamento depende de um fator essencial: a distância.
Ao contrário do Bluetooth ou do Wi-Fi, o NFC funciona apenas a muito curta distância, normalmente entre um e quatro centímetros.
Isto significa que, para um terminal conseguir comunicar com um cartão bancário, ambos têm praticamente de estar encostados.
Esta limitação física representa uma das maiores barreiras para qualquer tentativa de fraude.
Afinal, alguém pode roubar dinheiro apenas por passar ao lado?
Em teoria, sim. Na prática, trata-se de um cenário extremamente difícil de concretizar. O que teria de ocorrer para que um criminoso conseguisse efetuar uma transação fraudulenta?
Teria de:
- saber exatamente onde se encontra o cartão na carteira ou no bolso;
- aproximar discretamente um terminal de pagamento praticamente até tocar no cartão;
- manter essa proximidade durante tempo suficiente para concluir a operação;
- evitar que a vítima se aperceba da situação.
Mesmo em locais muito movimentados, como transportes públicos, centros comerciais ou grandes eventos, executar todas estas etapas sem levantar suspeitas é bastante complicado.
É precisamente esta realidade que muitos vídeos virais publicados nas redes sociais ignoram.
Os obstáculos que dificultam este tipo de fraude
Mesmo que alguém conseguisse aproximar um terminal do cartão, ainda teria de ultrapassar vários mecanismos de segurança.
Os terminais deixam sempre um rasto
Ao contrário do que muitos imaginam, um terminal de pagamento não pode ser adquirido de forma anónima para cobrar dinheiro livremente.
Todos os equipamentos estão associados a:
- uma empresa ou comerciante;
- uma conta bancária identificada;
- um número de identificação fiscal;
- contratos com bancos ou entidades processadoras de pagamentos.
Qualquer valor recebido ficaria automaticamente registado e facilmente associado ao seu titular.
Na prática, seria como deixar uma assinatura no próprio crime.
É precisamente por isso que este tipo de fraude é extremamente raro.
Existem limites para pagamentos sem PIN
Outro fator de proteção prende-se com os limites impostos pelos bancos.
Em Portugal, os pagamentos por aproximação sem necessidade de introduzir o código PIN apenas podem ser efetuados até determinados montantes.
Além disso, após várias compras consecutivas ou quando é atingido um determinado valor acumulado, o sistema exige obrigatoriamente a introdução do PIN.
Ou seja, ninguém consegue esvaziar uma conta bancária apenas através de sucessivos pagamentos contactless sem que o sistema intervenha.
Os bancos possuem mecanismos de proteção
Caso surja uma operação que o titular não reconheça, é possível apresentar uma reclamação junto da instituição bancária.
As operações fraudulentas são analisadas pelos bancos e pelas redes internacionais de pagamento, como Visa ou Mastercard.
Sempre que fique demonstrado que o cliente não autorizou a transação, existem mecanismos legais destinados à recuperação do dinheiro.
Quanto mais rapidamente o cartão for bloqueado e a situação comunicada ao banco, maiores são as probabilidades de resolução favorável.
O verdadeiro risco não é o desconhecido no metro
Embora o mito do terminal escondido continue a circular todos os anos, a realidade demonstra que o maior perigo está noutro lado.
O cenário mais comum ocorre quando o cartão é perdido ou roubado.
Enquanto o cartão não for bloqueado, poderá ser utilizado para pequenos pagamentos contactless, dentro dos limites permitidos.
É precisamente nestas situações que ocorrem a maioria das perdas financeiras relacionadas com pagamentos por aproximação.
Como aumentar a segurança do cartão
Existem algumas medidas simples que reduzem significativamente qualquer risco.
Entre as mais importantes destacam-se:
- ativar as notificações instantâneas da aplicação do banco;
- bloquear imediatamente o cartão caso seja perdido;
- consultar regularmente os movimentos da conta;
- nunca guardar o código PIN junto do cartão.
As notificações em tempo real permitem identificar qualquer pagamento poucos segundos depois de acontecer, possibilitando o bloqueio imediato através da aplicação bancária.
Vale a pena comprar uma carteira com proteção RFID?
As carteiras com bloqueio RFID existem e funcionam.
O seu revestimento impede que sinais de radiofrequência consigam comunicar com os cartões existentes no interior.
Apesar disso, muitos especialistas consideram que representam sobretudo uma medida adicional de tranquilidade, uma vez que o risco real de leitura não autorizada continua a ser muito reduzido.
Existe até um pequeno truque conhecido: quando dois cartões contactless ficam muito próximos um do outro na carteira, os respetivos sinais podem interferir entre si, dificultando qualquer tentativa de leitura.
As burlas que realmente fazem vítimas em Portugal
Enquanto milhares de pessoas continuam preocupadas com o mito do terminal escondido, os criminosos concentram-se em métodos muito mais eficazes.
As burlas mais frequentes atualmente incluem:
- mensagens falsas (SMS fraudulentos);
- emails de phishing;
- falsas páginas de bancos;
- chamadas telefónicas de falsos funcionários bancários;
- esquemas relacionados com MB WAY;
- falsas vendas e compras online.
Nestes casos, não é necessário qualquer contacto físico com o cartão.
Basta convencer a vítima a fornecer códigos, credenciais ou autorizar operações para que os criminosos consigam aceder às contas bancárias.
A melhor proteção continua a ser a informação
Os cartões contactless utilizados atualmente possuem elevados níveis de segurança e incorporam diversos mecanismos destinados a reduzir o risco de utilização fraudulenta, sublinha a Leak.
Embora nenhum sistema seja absolutamente infalível, os receios de que alguém possa simplesmente passar ao lado de outra pessoa e retirar grandes quantias da sua conta pertencem mais ao universo das redes sociais do que à realidade.
O verdadeiro desafio passa por manter uma atitude vigilante perante mensagens suspeitas, chamadas inesperadas e pedidos de dados bancários.
A informação continua a ser a melhor defesa contra as burlas digitais.




