A língua portuguesa está viva. Cresce, adapta-se, reinventa-se e acompanha as transformações da sociedade. Todos os anos entram no vocabulário novas palavras, impulsionadas pela tecnologia, pelas redes sociais, pela ciência e pelas mudanças culturais. Mas, enquanto umas nascem, outras caminham lentamente para o esquecimento.
Há palavras que fizeram parte do quotidiano de várias gerações e que hoje raramente são ouvidas. Muitas sobrevivem apenas na memória dos mais velhos, em livros antigos ou em conversas ocasionais entre avós e netos.
Mais do que simples vocábulos, estas palavras representam uma forma de viver, de comunicar e de compreender o mundo. São testemunhos de uma época em que a língua possuía ritmos diferentes, maior formalidade e uma riqueza lexical que merece ser preservada.
Porque desaparecem palavras da língua portuguesa?
Nenhuma língua permanece igual ao longo dos séculos.
O português evolui constantemente para responder às necessidades de cada época. O surgimento de novas tecnologias, alterações sociais, influências de outras línguas e mudanças culturais fazem com que determinadas palavras deixem de ser utilizadas.
Em muitos casos, desaparecem porque o objeto ou a realidade que designavam deixou de existir. Noutras situações, são simplesmente substituídas por termos mais modernos ou mais curtos.
Este fenómeno é perfeitamente natural e acontece em praticamente todas as línguas do mundo.
O papel das novas gerações
Quem conversa regularmente com os avós ou bisavós depressa percebe que existem palavras que quase desapareceram do vocabulário atual.
Algumas parecem estranhas. Outras despertam curiosidade.
E há ainda aquelas que provocam um sorriso por parecerem saídas de um romance antigo. Conhecer estas palavras é também uma forma de preservar a riqueza da língua portuguesa e de compreender melhor a evolução da nossa identidade cultural.
15 palavras portuguesas que estão quase esquecidas
1. Anóveas
Pouco conhecida atualmente, anóveas era utilizada para indicar algo que correspondia a nove vezes mais.
É uma palavra praticamente desaparecida do português contemporâneo.
2. Assunar
O verbo assunar significava provocar um motim, incitar à revolta ou amotinar pessoas.
Hoje, foi substituído por verbos mais comuns como “amotinar”, “incitar” ou “rebelar”.
3. Cassete
Durante décadas foi um objeto indispensável em milhares de casas.
A cassete revolucionou a forma como se ouviam músicas e gravavam programas de rádio.
Com o aparecimento dos CDs, dos ficheiros digitais e das plataformas de streaming, a palavra tornou-se cada vez menos frequente.
4. Cosmonauta
Enquanto “astronauta” continua amplamente utilizado, cosmonauta era o termo reservado aos exploradores espaciais da antiga União Soviética e, mais tarde, da Rússia.
Hoje surge sobretudo em livros de História ou em referências ao programa espacial soviético.
5. Depós
Poucas pessoas utilizam atualmente esta palavra.
Depós corresponde simplesmente ao atual após, sendo considerada uma forma antiga da língua portuguesa.
6. Deveras
Expressão elegante e muito frequente na literatura clássica.
Significa:
- verdadeiramente;
- realmente;
- muito;
- intensamente.
Ainda aparece em textos literários, mas quase desapareceu da linguagem quotidiana.
7. Garçom
Embora continue muito utilizada no português do Brasil, em Portugal garçom tinha originalmente o significado de jovem rapaz.
Com o tempo, caiu praticamente em desuso no português europeu.
8. Lambisgoia
Poucas palavras conseguem transmitir tanta expressividade.
Lambisgoia era utilizada para identificar uma pessoa intrometida, mexeriqueira ou excessivamente curiosa.
Ainda pode ser encontrada em romances antigos ou em expressões populares.
9. Lanfranhudo
Uma das palavras mais curiosas da língua portuguesa.
Lanfranhudo descrevia uma pessoa carrancuda, de aspeto pouco agradável ou constantemente mal-humorada.
Hoje praticamente desapareceu do vocabulário comum.
10. Obséquio
Durante muito tempo era habitual ouvir a expressão:
“Faça-me esse obséquio.”
O termo significava simplesmente por favor, por gentileza ou tenha a amabilidade.
Embora continue correto, tornou-se raro na comunicação diária.
11. Ósculo
Poucas pessoas reconhecem atualmente esta palavra.
Ósculo significa beijo, especialmente num contexto cerimonial, religioso ou de grande respeito.
É frequentemente encontrada em textos litúrgicos e obras clássicas.
12. Vosmecê
Antes de existir o atual “você”, muitos portugueses utilizavam vosmecê, uma contração de “Vossa Mercê”.
Curiosamente, foi precisamente desta expressão que nasceu a palavra “você”.
É um excelente exemplo da evolução natural da língua portuguesa.
13. Sirigaita
Durante boa parte do século XX, chamar sirigaita a uma mulher era considerado um insulto sério.
A palavra era usada para descrever alguém visto como mal-educado, atrevido ou com comportamentos considerados inadequados para a época.
Hoje, além de praticamente esquecida, reflete também a mudança dos valores sociais.
14. Sisa
A palavra sisa designava um antigo imposto ou tributo pago ao Estado.
Embora já não faça parte da linguagem corrente, permanece presente na história da fiscalidade portuguesa.
15. Soer
Ainda sobrevive em textos jurídicos e literários.
O verbo soer significa simplesmente costumar ou ter por hábito.
Exemplo:
“Como soe acontecer…”
Trata-se de uma forma elegante, mas hoje bastante pouco utilizada.
Porque vale a pena preservar estas palavras?
Cada palavra guarda um pedaço da história de um povo.
Quando um vocábulo desaparece, perde-se também parte da memória coletiva, das tradições e das formas de pensar de outras gerações.
Embora seja natural que a língua evolua, conhecer estas expressões ajuda a compreender melhor a literatura portuguesa, documentos históricos e até conversas com familiares mais idosos.
A língua portuguesa nunca para de evoluir
Enquanto algumas palavras desaparecem, outras entram diariamente no nosso vocabulário.
Expressões relacionadas com a tecnologia, a inteligência artificial, as redes sociais ou o mundo digital fazem hoje parte da linguagem comum, algo impensável há apenas duas décadas.
Esta capacidade de adaptação é precisamente uma das maiores riquezas da língua portuguesa.
Conhecer palavras antigas não significa rejeitar a modernidade. Pelo contrário: permite compreender como o português chegou até aos dias de hoje e reforça a ligação entre diferentes gerações.
Porque preservar uma palavra é, muitas vezes, preservar uma parte da nossa própria história.




