Havia uma palavra que Fernando Pessoa não conseguia suportar ver escrita de outra forma. Era abysmo. Com y. Não por teimosia nem por ignorância — mas porque, para ele, a forma do y dava profundidade visual ao conceito. Retirar o y e colocar um i era, nas suas palavras, “fechar a boca do abismo, transformá-lo numa superfície banal.”
Pessoa escreveu isto em 1910, nas vésperas da maior reforma ortográfica que a língua portuguesa alguma vez conheceu. Um ano depois, em setembro de 1911, a República recém-proclamada mudou tudo.
A ortografia portuguesa foi simplificada, racionalizada, modernizada — e palavras que tinham existido durante séculos desapareceram de um dia para o outro.
Mas como se escrevia antes? O que é que mudou exatamente, e porquê?
A lógica da escrita antiga
Antes de 1911, a ortografia portuguesa não seguia o som das palavras — seguia a sua origem. Era uma ortografia etimológica: cada palavra era escrita de acordo com o étimo latino ou grego de onde provinha.
Se uma palavra vinha do grego e tinha ph, escrevia-se com ph, mesmo que o som fosse exatamente igual ao f. Se tinha th, escrevia-se com th, mesmo que soasse como um simples t.
O resultado era uma escrita visualmente muito diferente da atual — mais carregada, mais “clássica”, e com uma ligação explícita às raízes da língua. Quem sabia ler aquelas palavras sabia, automaticamente, de onde vinham.
A ortografia era, nesse sentido, uma forma de memória cultural inscrita em cada linha de texto.
PH em vez de F: as palavras de origem grega
A mudança mais visível foi a eliminação do dígrafo ph, que em grego tinha o som de f. Todas as palavras de origem grega que usavam ph passaram a ser escritas simplesmente com f.
- pharmacia → farmácia
- philosophia → filosofia
- phosphoro → fósforo
- phleugma → fleuma
- diphthongo → ditongo
- telephone → telefone
- phonographo → fonógrafo
- photo → foto
- orthographia → ortografia
- geographia → geografia
- typographia → tipografia
- phantasia → fantasia
- elephante → elefante
- triumpho → triunfo
- orphão → órfão
TH em vez de T: o toque grego que desapareceu
O dígrafo th, também de origem grega, soava exatamente como um t simples. Com a reforma, desapareceu por completo, substituído por t em todos os contextos.
- theatro → teatro
- thorax → tórax
- athmosphera → atmosfera
- bibliotheca → biblioteca
- mathematica → matemática
- arithmetica → aritmética
- cathecismo → catecismo
- methodo → método
- esthetica → estética
- sympathia → simpatia
- antipathia → antipatia
- hypothese → hipótese
- enthusiasmo → entusiasmo
- pathologia → patologia
- rhythmo → ritmo
Y em vez de I: a letra que dava profundidade
O y grego — o chamado ípsilon — era uma das letras mais defendidas pelos opositores da reforma. Onde hoje escrevemos i, escrevia-se y em todas as palavras de raiz grega. Fernando Pessoa foi o seu defensor mais eloquente.
- abysmo → abismo
- lyrio → lírio
- estylo → estilo
- systema → sistema
- mysterio → mistério
- psychologia → psicologia
- tyranno → tirano
- hymno → hino
- symbolo → símbolo
- rhythmo → ritmo
- martyrio → martírio
- dynastia → dinastia
- gymnasio → ginásio
- typo → tipo
- pharynge → faringe
- larynge → laringe
- myopico → míope
- paroxysmico → paroxístico
CH com som de K: outra herança grega
Em português, o ch tem hoje o som de x (como em chave). Mas antes de 1911, usava-se também ch para representar o som k em palavras de origem grega — esse ch foi substituído por c ou qu conforme o contexto.
- monarchia → monarquia
- architectura → arquitetura
- charactere → carácter
- chimica → química
- archivio → arquivo
- anarchia → anarquia
- hierarchia → hierarquia
- technica → técnica
- mechanica → mecânica
- psychico → psíquico
- epocha → época
- echo → eco
- archeologia → arqueologia
- monarcha → monarca
Consoantes duplas que desapareceram
Antes de 1911, as consoantes duplas eram muito mais frequentes, herdadas da ortografia latina. Na maior parte dos casos, o som era idêntico ao de uma consoante simples — e a reforma eliminou-as.
- commercio → comércio
- grammatica → gramática
- diccionario → dicionário
- immoral → imoral
- illustre → ilustre
- communidade → comunidade
- differença → diferença
- effectivo → efetivo
- affecto → afeto
- officina → oficina
- profissão (já simplificado) ← professão → (manteve-se)
- accção → ação
- communicar → comunicar
- sollicitar → solicitar
- collega → colega
- allegria → alegria
- annuncio → anúncio
Consoantes mudas: letras que não se pronunciavam
Havia um conjunto de consoantes que existiam na escrita mas não influenciavam de modo algum a pronúncia. A reforma eliminou-as por completo.
- alumno → aluno
- columna → coluna
- prompto → pronto
- exhausto → exausto
- psalmo → salmo
- escripta → escrita
- assumpto → assunto
- excepto → exceto (ou excecto, ainda em debate)
- corrupção ← corruptção (já havia simplificação anterior)
- adoptar → adotar
- adaptar (manteve-se)
- baptismo → batismo
- baptista → batista
- circumscripto → circunscrito
- descripção → descrição
- subscripção → subscrição
Outras palavras que mudaram de forma
Além das categorias acima, há um conjunto de palavras que sofreram alterações mais pontuais — simplificações de grafia, eliminação de acentos arcaicos ou substituição de letras com o mesmo som.
- portvgvesa → portuguesa (o V latino que soava U)
- caravella → caravela
- kilometre → quilómetro
- kilometro → quilómetro
- lyra → lira
- martyrio → martírio
- parochia → paróquia
- sanccionar → sancionar
- accção → ação
- rheumatismo → reumatismo
- rhabarbo → ruibarbo
- rhinoceronte → rinoceronte
- rhetorica → retórica
- rhododendro → rododendro
A reforma que dividiu um povo
Em 1910, a República foi proclamada em Portugal. O novo governo sabia que queria construir um país diferente — mais instruído, mais democrático, mais acessível. E um dos primeiros passos foi reformar a língua escrita.
Foi constituída uma comissão de linguistas e filólogos notáveis — Gonçalves Viana, Carolina Michaëlis, Cândido de Figueiredo, Leite de Vasconcelos, entre outros. As bases da reforma foram publicadas a 1 de setembro de 1911, com um período de transição de três anos.
A resistência foi intensa. Alexandre Fontes escreveu que ver phase escrita como fase era como ver “um esqueleto” — a palavra havia perdido o corpo. Fernando Pessoa foi ainda mais longe, declarando que a sua pátria era a língua portuguesa e que a ortografia sem ípsilon lhe causava um “ódio verdadeiro.” Não eram caprichos. Era a consciência de que simplificar a escrita era também, em certa medida, apagar uma memória.
Do lado oposto, a lógica era igualmente poderosa: uma língua escrita que reproduzia o étimo grego ou latino era uma língua acessível apenas a quem tivesse estudado essas raízes. Numa época em que o analfabetismo era galopante, exigir que uma criança soubesse que pharmacia vinha do grego para a conseguir escrever era uma barreira social. A simplificação era também uma democratização.
A reforma avançou. O Brasil não a acompanhou de imediato — ficou com a ortografia etimológica até 1943, criando décadas de divergência entre os dois países. O processo de convergência luso-brasileira, iniciado com o Acordo de 1931, prolonga-se, com todos os seus sobressaltos, até aos nossos dias.
O que ficou perdido e o que ficou ganho
Hoje, quando escrevemos farmácia, não pensamos em pharmacia. Não pensamos no grego. Não pensamos em Pessoa nem em Alexandre Fontes. Escrevemos e seguimos.
Mas há algo que se perdeu nessa travessia. Não apenas a forma das palavras — também a relação imediata entre a escrita e a história. A palavra fósforo, hoje, não diz nada sobre o phosphoros grego, o portador da luz. A palavra teatro não evoca o theatron, o lugar de onde se vê. A simplificação funcionou — mas funcionou, também, como um pequeno esquecimento.
O que se ganhou foi igualmente real: uma língua mais acessível, mais democrática, mais capaz de chegar a quem não tinha estudado latim nem grego. Uma língua que podia ser aprendida por uma criança sem que a sua origem social determinasse se conseguiria ou não escrever corretamente.
Nas páginas antigas — nas cartas, nos jornais, nos livros impressos antes de setembro de 1911 — as palavras ainda têm o y que dava profundidade ao abismo. A escripta ainda tem o p mudo. A pharmacia ainda carrega o seu ph grego.
São documentos de uma língua que sabia, em cada palavra, de onde vinha. E que ainda hoje, em certas noites, nos faz sentir a falta.





