Levantar dinheiro no Multibanco é uma das tarefas mais automáticas do dia a dia — e é precisamente essa automatismo que os burlões exploram. Os esquemas evoluem de ano para ano, tornando-se cada vez mais difíceis de detetar a olho nu. Conhecer a forma como funcionam é, muitas vezes, o suficiente para os travar.
Skimming: quando a máquina “lê” o seu cartão antes de si
O skimming é um dos métodos com maior expressão em Portugal. Consiste na instalação de um leitor falso sobre a ranhura original do Multibanco, capaz de copiar os dados gravados na banda magnética do cartão. O dispositivo é fabricado para imitar a aparência do terminal original, tornando a deteção visual difícil sem atenção redobrada.
Para além do leitor, os criminosos instalam frequentemente uma câmara miniaturizada — dissimulada no topo da máquina ou numa peça adicionada junto ao teclado — com o objetivo de capturar o PIN no momento em que é digitado. Toda a operação é controlada remotamente, por norma via Bluetooth ou Wi-Fi, sem que o burlão precise de estar fisicamente presente.
Antes de introduzir o cartão, vale a pena inspecionar a ranhura: se estiver saliente, mal encaixada ou com uma textura ou cor ligeiramente diferente do resto do equipamento, é sinal de alerta. Um teste simples é tentar movê-la com alguma firmeza — o componente original é fixo e não apresenta folgas.
Qualquer movimento ou instabilidade justifica abandonar o terminal e alertar o banco. Cobrir o teclado com a mão ao digitar o PIN continua a ser um hábito eficaz contra câmaras ocultas.
Bloqueio das notas: o dinheiro que não aparece
Noutro esquema conhecido como cash trapping, é colocada uma peça na saída de notas do Multibanco com o objetivo de reter o dinheiro após o levantamento. O ecrã confirma que a operação foi concluída, os débitos ocorrem na conta, mas as notas ficam retidas — prontas a ser recolhidas pelo criminoso assim que a vítima abandonar o local.
Quem se deparar com esta situação não deve sair imediatamente. O mais indicado é permanecer junto à máquina, não abandonar o local, e contactar de imediato a linha de apoio indicada no próprio terminal ou o banco diretamente. A presença no local preserva a possibilidade de recuperar o dinheiro e facilita a identificação dos responsáveis.
Distração e conluio: quando atuam em grupo
Alguns esquemas dispensam qualquer dispositivo técnico. Um grupo de criminosos atua de forma coordenada: enquanto um se aproxima com um pretexto — pedir ajuda, deixar cair algo, iniciar uma conversa — outro aproveita a distração para observar o PIN introduzido ou, em casos mais ousados, trocar o cartão da vítima. Tudo acontece em poucos segundos, muitas vezes sem que a pessoa se aperceba.
A mesma lógica aplica-se a quem se faz passar por um simples utilizador a pedir ajuda numa operação. No final, a vítima acaba por carregar em “Confirmar” sem perceber que está a autorizar uma transferência para uma conta desconhecida.
A regra mais eficaz é simples: nunca seguir instruções de desconhecidos junto a um Multibanco. Perante qualquer abordagem que cause desconforto, o mais prudente é cancelar a operação e procurar outro terminal. Sempre que possível, optar por Multibancos no interior de agências bancárias ou centros comerciais, onde existe mais movimento e vigilância.
Vishing: a chamada que parece ser do banco
O vishing é uma forma de burla por telefone que tem crescido nos últimos anos. O esquema começa com uma chamada aparentemente proveniente do banco — o número apresentado no visor pode estar falsificado para parecer legítimo.
O interlocutor identifica-se como técnico de segurança e informa a vítima de uma situação urgente: uma tentativa de clonagem, um levantamento suspeito ou o bloqueio iminente da conta. Para “resolver” o problema, pede que se desloque a um Multibanco e siga instruções específicas — que na prática resultam na associação do MB WAY ao telemóvel do burlão ou na divulgação de dados de acesso.
Existe um princípio que os bancos nunca contrariam: nenhuma instituição financeira legítima solicitará a introdução do PIN ou de códigos de segurança por telefone ou em resposta a uma chamada. Perante qualquer contacto deste tipo, o mais seguro é encerrar a chamada e ligar diretamente para o número oficial do banco — nunca devolver a chamada para o número de origem.
A burla do talão esquecido
Um talão deixado sobre o terminal ou na ranhura parece um esquecimento banal. Esse gesto de pegar no papel ou de o ler é, no entanto, o sinal que o burlão aguarda para agir. O talão foi impresso propositadamente, com saldo ou movimentos visíveis, para criar aparência de credibilidade.
Assim que a vítima interage com ele, surge um cúmplice que se apresenta como dono do documento. A conversa que se segue — com histórias de urgência ou pedidos de ajuda — tem como objetivo manipular a vítima a realizar transferências ou a revelar informação sensível. Noutras versões, o talão serve apenas para distrair enquanto outro elemento do grupo observa o PIN ou tenta furtar objetos.
A melhor resposta é ignorar completamente qualquer papel abandonado e não estabelecer contacto com desconhecidos nas imediações do terminal.
O truque da nota presa
Semelhante ao anterior, este esquema explora o impulso de recolher uma nota que aparece parcialmente visível na ranhura de saída do Multibanco. O burlão coloca-a propositadamente para criar um momento de distração.
Quando a vítima tenta retirá-la, o criminoso pode estar a observar à distância, com recurso a câmaras ocultas, ou a aproximar-se com o pretexto de ajudar — tentando perceber o PIN ou influenciar a operação em curso.
O objetivo não é a nota em si, mas o momento de desatenção que ela provoca. Perante uma situação destas, o mais seguro é cancelar a operação, retirar o cartão e abandonar o local.
Burlas com MB WAY: cuidado ao vender online
As plataformas de venda entre particulares — como OLX ou Vinted — tornaram-se terreno fértil para burlas associadas ao MB WAY. O esquema mais comum começa com um comprador que demonstra interesse imediato, não negoceia o preço (ou negocia muito pouco) e propõe pagar por MB WAY.
Para quem ainda não tem a aplicação configurada, o burlão oferece orientações detalhadas — que resultam, na prática, em associar o número de telemóvel do criminoso à conta do vendedor. Quem já utiliza o serviço pode receber um pedido de código de confirmação, sob o pretexto de “autorizar o pagamento”.
É fundamental ter presente que receber dinheiro por MB WAY não exige qualquer operação no Multibanco, nem a partilha de códigos ou PINs com terceiros. Qualquer pedido nesse sentido é, invariavelmente, uma tentativa de burla.
Hábitos que fazem diferença
Independentemente do esquema, existem medidas transversais que reduzem significativamente o risco. Utilizar Multibancos em locais movimentados e bem iluminados — de preferência no interior de agências bancárias ou centros comerciais — é uma das mais eficazes, já que a maioria das ocorrências se regista em terminais isolados, com pouca afluência ou fracas condições de visibilidade.
Ativar alertas de movimentos por SMS ou pela aplicação do banco permite detetar qualquer transação suspeita em tempo real, antes que o prejuízo se agrave. A configuração demora apenas alguns minutos e está disponível na generalidade dos bancos. Por fim, guardar o PIN escrito num papel junto ao cartão continua a ser um dos erros mais frequentes — e dos mais perigosos. Em caso de furto da carteira, o acesso à conta torna-se imediato.
Se algo parecer fora do lugar — uma peça estranha, uma pessoa que se aproxima sem razão aparente, uma nota presa ou um talão esquecido — confiar no instinto e procurar outro terminal é sempre a decisão mais segura.




