Uma chamada telefónica desesperada, feita a partir de uma maca hospitalar, tornou-se um dos momentos mais marcantes de um caso que está a gerar forte indignação. Um homem de 49 anos, vítima de um despiste de motorizada, morreu nas urgências do Hospital de Faro após várias horas sem vigilância médica adequada. Agora, uma investigação da Entidade Reguladora da Saúde (ERS) concluiu que existiram falhas graves no acompanhamento clínico do doente.
O caso ocorreu a 28 de fevereiro de 2023, mas voltou à atualidade após a divulgação da deliberação do regulador, citada pelo Correio da Manhã. As conclusões levantam novamente questões sobre os tempos de espera nas urgências hospitalares, a escassez de profissionais de saúde e a capacidade de resposta dos serviços perante situações potencialmente fatais.
Entrou nas urgências após despiste de motorizada
Tudo começou quando o homem sofreu um acidente de motorizada e foi transportado pelo INEM para o Hospital de Faro. Segundo as informações divulgadas, o utente deu entrada na urgência pelas 18h20.
Após a avaliação inicial, realizada cerca de meia hora depois, foi-lhe atribuída pulseira amarela, uma classificação que indica uma situação urgente e que prevê observação médica num prazo máximo de 60 minutos.
No entanto, esse prazo acabaria por ser largamente ultrapassado. O doente apenas foi observado pelas 21h22, mais de duas horas após a triagem, altura em que foram prescritos exames complementares, incluindo uma TAC e vários raios-X.
A chamada que antecedeu a tragédia
Horas depois, aconteceu um episódio que viria a marcar profundamente este caso.
Por volta das 22h30, o homem telefonou à mulher, que se encontrava no exterior do hospital.
Segundo o relato citado pelo Correio da Manhã, as palavras foram tão simples quanto perturbadoras:
“Ajuda-me, estou a morrer, não consigo respirar.”
A frase, carregada de angústia e desespero, tornou-se um dos elementos mais impactantes da investigação. De acordo com o testemunho da mulher, foi nesse momento que percebeu que o marido continuava sem acompanhamento adequado, apesar de existir suspeita de hemorragia interna e de o seu estado clínico poder representar risco de vida.
Regulador conclui que houve falhas graves
A situação foi posteriormente analisada pela Entidade Reguladora da Saúde, após a apresentação de uma queixa formal.
As conclusões da investigação são particularmente duras.
Segundo a deliberação citada pelo Correio da Manhã, a ERS concluiu que existiram falhas relevantes no atendimento prestado ao utente, com impacto direto na qualidade e segurança dos cuidados de saúde.
O regulador considerou que o hospital não assegurou uma vigilância clínica adequada durante o período em que o homem permaneceu na urgência.
Para a entidade reguladora, essa omissão representou uma quebra dos deveres assistenciais exigidos num serviço de urgência hospitalar.
Sem monitorização e sem reavaliação clínica
Um dos aspetos mais críticos identificados pela investigação prende-se com a ausência de monitorização.
Segundo a ERS, o doente não se encontrava sob vigilância permanente de qualquer profissional de saúde durante grande parte do tempo que permaneceu na urgência.
Além disso, não foi realizada uma retriagem clínica, procedimento considerado essencial quando os tempos máximos de observação são ultrapassados.
A retriagem permite reavaliar o estado do doente e identificar eventuais agravamentos clínicos enquanto aguarda observação médica.
No caso em análise, o regulador concluiu que essa avaliação adicional não aconteceu.
Para a ERS, não subsistem dúvidas quanto à existência de falhas que afetaram a segurança e a qualidade dos cuidados prestados.
Hospital apontou falta de profissionais
Perante a investigação, o Hospital de Faro justificou os constrangimentos registados naquele dia com dificuldades relacionadas com recursos humanos.
Segundo a informação divulgada, a unidade hospitalar referiu escassez de médicos e enfermeiros durante o período em causa.
O hospital argumentou ainda que a paragem cardiorrespiratória sofrida pelo utente poderá ter resultado diretamente da evolução do seu estado clínico e das patologias de base existentes.
Contudo, a Entidade Reguladora da Saúde considerou que essas circunstâncias não afastam a responsabilidade da unidade relativamente ao acompanhamento assistencial que deveria ter sido assegurado.
Caso foi remetido ao Ministério Público
Face à gravidade das conclusões, a ERS determinou a adoção de medidas destinadas a reforçar a celeridade e a qualidade da resposta assistencial.
O regulador decidiu igualmente remeter a deliberação ao Ministério Público para eventual apreciação judicial dos factos.
Este passo poderá abrir caminho a novas investigações e a uma análise mais aprofundada das responsabilidades associadas ao caso.
Um debate que volta a ganhar força
A morte deste homem reacendeu uma discussão que há anos preocupa profissionais de saúde, doentes e especialistas, refere o Postal.
Os tempos de espera nas urgências continuam a ser um dos maiores desafios do Serviço Nacional de Saúde, sobretudo em períodos de maior pressão assistencial.
Embora muitos profissionais trabalhem diariamente sob enorme pressão e com recursos limitados, casos como este levantam questões inevitáveis sobre a capacidade do sistema para garantir acompanhamento adequado aos utentes mais vulneráveis.
Quando um doente entra numa urgência hospitalar, espera encontrar resposta, vigilância e segurança. Quando essas garantias falham, as consequências podem tornar-se irreversíveis.
O caso do Hospital de Faro surge agora como mais um alerta sobre a importância da monitorização contínua, da reavaliação clínica atempada e da necessidade de reforçar os recursos humanos nos serviços de urgência, para que situações semelhantes não se repitam no futuro.




