Escrever corretamente é muito mais do que conhecer as regras da gramática. É saber transmitir ideias, evitar mal-entendidos e encontrar as palavras certas para cada situação. No entanto, há erros de português que continuam a escapar até a quem escreve diariamente e conhece bem a língua.
Algumas palavras parecem iguais, outras soam da mesma maneira e existem ainda regras de concordância que facilmente passam despercebidas. Basta uma pequena distração para transformar uma frase correta numa construção gramaticalmente errada.
A língua portuguesa é rica, expressiva e cheia de particularidades. É precisamente essa riqueza que, por vezes, torna a escrita mais desafiante. Mesmo quem domina o português pode ter dúvidas sobre a utilização de «há» e «a», a diferença entre «perca» e «perda» ou a conjugação de determinados verbos.
Reunimos 10 erros gramaticais frequentes na língua portuguesa, com explicações simples e exemplos práticos para ajudar a reconhecê-los e evitá-los. Alguns poderão surpreender, sobretudo porque certas formas que muitas pessoas consideram erradas estão, afinal, perfeitamente corretas.
Os 10 erros gramaticais mais comuns na língua portuguesa
1. Confundir «porque», «porquê» e «por que»
Esta é uma das dúvidas mais frequentes da língua portuguesa. As três formas têm utilizações diferentes e saber distingui-las é essencial para escrever corretamente.
Porque utiliza-se como conjunção causal, para apresentar uma explicação ou justificação. Também pode funcionar como advérbio interrogativo nas perguntas que procuram saber a razão de alguma coisa.
Exemplos:
- Não fui trabalhar porque estava doente.
- Porque chegaste tão tarde?
- Não percebo porque tomou aquela decisão.
Porquê é utilizado como substantivo ou como advérbio interrogativo em construções próprias do português europeu. Quando funciona como substantivo, pode ser acompanhado de um artigo ou de outro determinante.
Exemplos:
- Ninguém explicou o porquê da decisão.
- Gostava de perceber o porquê de tanta confusão.
- Porquê tanta pressa?
Por que escreve-se separado quando resulta da preposição «por» seguida do pronome ou determinante «que». É frequente aparecer antes de palavras como «razão» ou «motivo».
Exemplos:
- Por que razão não compareceu?
- Os motivos por que tomou aquela decisão são desconhecidos.
Uma nota importante: a forma «por quê», muito associada ao português do Brasil, não é a grafia habitual do advérbio interrogativo no português europeu. Em Portugal, escreve-se normalmente «porquê?». A sequência separada pode, contudo, surgir em construções específicas em que «por» e «quê» desempenham funções distintas.
2. Confundir «há» com «a»
A diferença entre estas duas palavras parece simples, mas continua a provocar muitos erros.
Há é uma forma do verbo haver e utiliza-se, entre outras situações, para indicar tempo decorrido ou existência.
A é uma preposição que pode indicar distância, localização ou um momento futuro.
Exemplos:
- Há duas semanas que não vejo a minha família.
- Vivo nesta cidade há dez anos.
- Daqui a duas semanas vou de férias.
- O restaurante fica a cinco quilómetros de casa.
- A reunião começa daqui a meia hora.
Um truque muito simples ajuda a evitar esta confusão: quando se refere a tempo já decorrido, experimente substituir «há» por «faz». Se a frase continuar a fazer sentido, provavelmente está perante a forma correta.
Por exemplo: «Há três dias que não chove» pode ser substituído por «Faz três dias que não chove».
3. Cometer erros de concordância verbal
A concordância verbal determina que o verbo deve ajustar-se ao sujeito da frase, respeitando a pessoa e o número.
É uma regra fundamental, mas nem sempre é respeitada, sobretudo em frases mais longas ou quando o sujeito está afastado do verbo.
Veja alguns exemplos:
Errado: As crianças brinca no parque.
Correto: As crianças brincam no parque.
Errado: Houveram muitos problemas durante a reunião.
Correto: Houve muitos problemas durante a reunião.
Neste último exemplo existe uma particularidade importante: o verbo «haver», quando significa «existir» ou «acontecer», é impessoal e utiliza-se sempre na terceira pessoa do singular.
Assim:
- Há muitas pessoas à espera.
- Houve vários problemas.
- Havia muitas dúvidas.
- Haverá novas oportunidades.
O mesmo cuidado deve ser aplicado ao verbo «fazer» quando indica tempo decorrido.
Errado: Fazem três anos que trabalho nesta empresa.
Correto: Faz três anos que trabalho nesta empresa.
Estes verbos merecem especial atenção porque o nome que aparece a seguir não é o sujeito e, por isso, não determina a concordância.
4. Confundir «onde» com «aonde»
«Onde» e «aonde» são frequentemente utilizados como se fossem exatamente a mesma coisa. Embora existam situações em que ambas as formas são aceites, há uma diferença importante.
Onde utiliza-se sobretudo para perguntar ou indicar o lugar em que algo se encontra ou acontece.
Exemplos:
- Onde fica esta rua?
- Onde está o livro?
- Não sei onde deixei as chaves.
Aonde resulta da combinação da preposição «a» com «onde» e exprime normalmente uma ideia de destino ou direção.
Exemplos:
- Aonde vais?
- Aonde se dirige o comboio?
- Aonde pretende chegar com esta decisão?
Também é possível utilizar «para onde» para indicar destino:
- Para onde vai viajar?
- Para onde se dirigem os convidados?
Um pormenor importante: não se deve considerar automaticamente incorreta a utilização de «onde» com verbos de movimento. Em determinadas construções, nomeadamente com o verbo «ir», também pode ser aceite. A escolha depende da construção gramatical e da preposição exigida pelo verbo.
5. Dizer «interviu» em vez de «interveio»
O verbo «intervir» significa interferir, participar ou tomar parte numa situação. A dificuldade está na sua conjugação, que segue o modelo do verbo «vir».
Por isso, no pretérito perfeito do indicativo, a forma correta na terceira pessoa do singular é interveio, e não «interviu».
Exemplos:
- O diretor interveio na negociação.
- A polícia interveio para resolver a situação.
- A médica interveio rapidamente.
- Os responsáveis intervieram para evitar o problema.
Uma boa maneira de memorizar esta regra é pensar na conjugação do verbo «vir»:
- Ele veio.
- Ele interveio.
O mesmo acontece com outras formas:
- Eu intervim.
- Tu intervieste.
- Ele interveio.
- Nós interviemos.
- Eles intervieram.
6. Confundir «fizeste» com «fizestes»
Aqui existe uma confusão muito comum: muitas pessoas consideram que «fizestes» está sempre errado. Não é verdade. As duas formas existem, mas correspondem a pessoas gramaticais diferentes.
Fizeste é a segunda pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo do verbo fazer.
Exemplos:
- Fizeste um excelente trabalho.
- Fizeste tudo o que era necessário?
Fizestes corresponde à segunda pessoa do plural, tradicionalmente associada ao pronome «vós».
Exemplos:
- Vós fizestes uma boa escolha.
- Fizestes tudo o que vos foi pedido?
Na utilização corrente em Portugal, é muito mais frequente encontrar «fizeste» quando se utiliza «tu» e «fizeram» quando se utiliza «vocês».
O erro acontece quando se utiliza «fizestes» numa frase cujo sujeito exige a forma «fizeste».
7. Confundir «perca» com «perda»
São palavras semelhantes na pronúncia e na escrita, mas têm funções gramaticais diferentes.
Perca é uma forma do verbo perder, utilizada no presente do conjuntivo ou no imperativo.
Perda é um substantivo feminino que designa o ato ou o resultado de perder alguma coisa.
Exemplos:
- Espero que não perca esta oportunidade.
- É importante que não perca a concentração.
- Perca peso de forma equilibrada e saudável.
- A perda de tempo pode comprometer os resultados.
- Foi uma grande perda para a família.
Um truque simples: quando a palavra pode ser substituída por «prejuízo», «desaparecimento» ou «privação», normalmente deve utilizar «perda».
8. Dizer «quinhentas gramas» em vez de «quinhentos gramas»
Esta dúvida aparece frequentemente nas conversas do dia a dia, sobretudo quando se fala de alimentos e quantidades.
Quando se refere à unidade de medida de massa, a palavra «grama» é masculina. Por isso, o numeral também deve concordar no masculino.
A forma correta é quinhentos gramas, e não «quinhentas gramas».
Exemplos:
- Comprei quinhentos gramas de queijo.
- A receita leva trezentos gramas de farinha.
- São necessários duzentos gramas de açúcar.
- O pacote contém cem gramas de café.
A confusão pode surgir porque «grama» também é uma palavra feminina quando designa uma planta ou erva rasteira. Nesse contexto, é correto dizer «a grama».
Mas quando se trata da unidade de medida, deve utilizar-se o masculino.
9. Escrever «hás de» com a grafia incorreta
A expressão «hás de» é utilizada para indicar intenção, expectativa, propósito ou uma ação futura.
Um erro frequente consiste em escrever «hásdes» ou manter o hífen de grafias antigas.
De acordo com o Acordo Ortográfico de 1990, as formas do verbo haver seguidas da preposição «de» passaram a escrever-se sem hífen.
Assim, as grafias atuais são:
- Hei de conseguir.
- Hás de encontrar uma solução.
- Há de chegar a tempo.
- Havemos de resolver o problema.
- Hão de compreender a decisão.
A forma «hás de» corresponde à segunda pessoa do singular. É importante não confundir esta expressão com «hás», forma verbal que pode surgir noutras construções.
10. Confundir «mal» com «mau»
Apesar de terem uma pronúncia semelhante, «mal» e «mau» têm significados e funções gramaticais diferentes.
Mal pode funcionar como advérbio, substantivo ou conjunção. Enquanto advérbio, é geralmente o contrário de «bem».
Exemplos:
- O trabalho ficou mal feito.
- Dormi mal durante a noite.
- O mal deve ser combatido.
- Mal chegou, começou a trabalhar.
Mau é um adjetivo e corresponde ao contrário de «bom». Utiliza-se para caracterizar uma pessoa, um objeto, uma situação ou uma qualidade.
Exemplos:
- Foi um mau resultado.
- O tempo está mau.
- Ele teve um mau comportamento.
- A comida tinha um mau aspeto.
O truque mais fácil é substituir as palavras pelos respetivos opostos: se a frase admitir «bem», utilize «mal»; se admitir «bom», utilize «mau».
Bónus: «ralar» ou «relar»? Nem sempre aquilo que parece errado está errado
Esta é uma dúvida interessante que merece um esclarecimento.
A forma «ralar» é a mais habitual em Portugal quando se pretende triturar ou reduzir um alimento a pedaços pequenos utilizando um ralador.
Exemplos:
- Vou ralar o queijo para a receita.
- Preciso de pão ralado para preparar os croquetes.
- Rale a cenoura antes de a juntar à massa.
No entanto, «relar» também existe na língua portuguesa. Está registado em dicionários com o significado de reduzir a pedaços pequenos por fricção contra um ralador, entre outros sentidos.
Por isso, não é correto afirmar que «relar» não existe. Simplesmente, «ralar» é a forma mais habitual e familiar no português corrente.
Como evitar erros gramaticais na escrita?
Conhecer estas diferenças é um bom começo, mas melhorar a escrita exige também atenção e prática.
Há alguns hábitos simples que ajudam a reduzir os erros:
- Leia regularmente: o contacto frequente com livros, jornais e textos bem escritos ajuda a interiorizar a estrutura das frases e a utilização correta das palavras.
- Releia antes de publicar: uma segunda leitura permite detetar erros de concordância, palavras trocadas e frases pouco claras.
- Consulte dicionários: quando surgir uma dúvida, confirme a grafia, o significado e a conjugação da palavra.
- Não confie exclusivamente no corretor automático: estas ferramentas identificam muitos erros ortográficos, mas nem sempre reconhecem problemas de concordância ou palavras utilizadas num contexto inadequado.
- Procure compreender as regras: memorizar exemplos é útil, mas perceber a razão de cada construção ajuda a evitar o mesmo erro noutras frases.
Escrever bem não significa nunca cometer erros. Significa ter vontade de aprender, esclarecer dúvidas e melhorar continuamente a forma como comunicamos.
Uma língua rica merece ser escrita com cuidado
A língua portuguesa é uma das maiores riquezas culturais que partilhamos. É através dela que contamos histórias, expressamos sentimentos, transmitimos conhecimento e preservamos a nossa identidade.
Pequenos erros podem parecer insignificantes, mas uma escrita cuidada transmite confiança, credibilidade e atenção aos pormenores. Seja num simples comentário, numa mensagem profissional ou num artigo, escolher as palavras certas faz toda a diferença.
Agora que conhece estes 10 erros gramaticais comuns, será mais fácil reconhecê-los e evitá-los. E lembre-se: ninguém precisa de dominar todas as regras de memória. O mais importante é nunca deixar de aprender.





