Há palavras que podem ser traduzidas. E depois há aquelas que, quando passam para outra língua, parecem perder uma parte da sua alma.
Saudade é provavelmente o exemplo português mais conhecido. Mas não está sozinha. Um projeto desenvolvido pelo investigador Tim Lomas reuniu centenas de palavras de diferentes línguas que não possuem um equivalente exato em inglês e identificou também desbundar e desenrascanço entre os termos portugueses.
O mais interessante é que estas palavras não representam necessariamente sentimentos que só os portugueses conseguem experimentar. Uma pessoa de qualquer nacionalidade pode sentir saudade, divertir-se sem inibições ou encontrar uma solução improvisada para um problema. O que nem sempre existe é uma única palavra capaz de concentrar toda essa experiência.
É precisamente essa ideia que está na base do Positive Lexicography Project, criado por Tim Lomas. O projeto procura reunir palavras de diferentes culturas que ajudam a nomear experiências, sentimentos, relações e estados de espírito que podem não estar claramente identificados noutras línguas. O estudo inicial reuniu 216 termos e a investigação continuou posteriormente a expandir esse vocabulário.
E é aqui que começa uma viagem fascinante pela língua portuguesa.
O que significa uma palavra ser “intraduzível”?
Antes de conhecer as três palavras portuguesas, existe uma distinção importante.
Dizer que uma palavra é “intraduzível” não significa que seja impossível explicar o seu significado noutra língua. Significa, neste contexto, que não existe uma palavra única que corresponda exatamente ao conceito original.
É possível explicar saudade em inglês, francês ou alemão. Também é possível explicar desenrascanço. O que pode faltar é uma palavra que reúna precisamente todas as nuances contidas no termo português.
O próprio Lomas apresenta a sua lexicografia como um trabalho em evolução e considera estas definições provisórias, sujeitas a aperfeiçoamento. Esta diferença é importante porque transforma a questão numa reflexão muito mais interessante: será que as línguas influenciam aquilo que conseguimos reconhecer e nomear dentro de nós?
1. Saudade: a palavra portuguesa que conquistou o mundo
Se existe uma palavra portuguesa que dispensa apresentações, é saudade. Poucas palavras estão tão profundamente ligadas à identidade cultural portuguesa. Aparece na literatura, na música, no fado, na poesia e nas conversas quotidianas. Pode nascer da ausência de uma pessoa, da distância de um lugar, da lembrança de um tempo que já passou ou até da consciência de que determinada experiência nunca poderá regressar.
Na lexicografia de Lomas, saudade é descrita como uma nostalgia ou desejo melancólico por uma pessoa, lugar ou coisa distante no espaço ou no tempo, podendo assumir uma dimensão vaga e sonhadora.
É precisamente esta combinação de elementos que torna a palavra tão difícil de condensar numa tradução única.
“Saudade” não é simplesmente “nostalgia”.
Também não é apenas “sentir falta”.
Pode conter amor, ausência, memória, desejo e uma espécie de tristeza doce que permanece mesmo quando a vida continua.
A saudade não significa apenas tristeza
É tentador explicar a saudade como uma forma de tristeza provocada pela ausência. Mas a realidade é muito mais rica.
Pode existir saudade de alguém que está longe, de uma casa onde se viveu, de uma infância que terminou, de um verão que passou ou até de uma época que nunca poderá ser recuperada.
Pode haver sofrimento, mas também existe carinho pelaquilo que se perdeu ou está distante.
É por isso que a palavra ganhou uma dimensão tão poderosa na cultura portuguesa.
No fado, na poesia e na música, a saudade transforma-se frequentemente em matéria artística. Não é apenas uma emoção privada: é também uma forma de contar histórias.
A saudade existe noutras culturas?
Sim.
E este é um ponto essencial para compreender o trabalho de Lomas.
A existência da palavra portuguesa não significa que outros povos não conheçam esse sentimento. Existem conceitos semelhantes noutras línguas, como hiraeth, em galês, ou Sehnsucht, em alemão, embora não sejam equivalentes perfeitos.
A diferença está na forma como cada língua recorta, nomeia e organiza determinadas experiências humanas.
Talvez seja precisamente isso que torna a saudade tão fascinante.
2. Desbundar: quando a língua portuguesa dá nome à liberdade de se divertir
A segunda palavra é muito menos conhecida internacionalmente.
Desbundar.
E talvez seja precisamente por isso que surpreenda tanto.
Na lexicografia de Lomas, desbundar corresponde à ideia de libertar-se das inibições para se divertir, ultrapassando as limitações habituais e entregando-se plenamente ao momento.
É uma palavra que transmite movimento.
Imagine uma festa em que, pouco a pouco, desaparecem a vergonha, a preocupação com o olhar dos outros e a necessidade de manter determinadas convenções.
É esse momento em que alguém simplesmente se deixa levar.
Desbundar é mais do que divertir-se
“Divertir-se” aproxima-se do significado, mas não reproduz necessariamente toda a intensidade de desbundar.
Há uma ideia de libertação.
De abandonar momentaneamente as reservas.
De entrar num estado de entusiasmo em que a preocupação com as regras sociais diminui e a experiência de diversão ganha protagonismo.
É uma palavra especialmente interessante porque mostra que o vocabulário de uma língua não serve apenas para descrever tristeza ou nostalgia.
Também pode servir para dar nome à alegria sem travões.
3. Desenrascanço: a arte de encontrar uma saída quando tudo parece correr mal
E chegamos a uma palavra que muitos portugueses reconhecerão imediatamente.
Desenrascanço.
É talvez uma das palavras que melhor encaixa no imaginário quotidiano português.
Falta alguma coisa?
Arranja-se.
O plano correu mal?
Encontra-se outra solução.
Não existe a ferramenta certa?
Improvisa-se.
O problema parecia impossível?
Há sempre uma maneira de tentar resolver.
Na lexicografia de Lomas, desenrascanço é definido como uma espécie de capacidade de se desembaraçar habilmente de uma situação problemática, recorrendo à improvisação ou a uma solução engenhosa.
E talvez seja precisamente essa combinação de engenho, improvisação e capacidade de adaptação que dificulta encontrar uma palavra estrangeira que reproduza exatamente o conceito.
Quando falta a solução perfeita, aparece o desenrascanço
O desenrascanço não implica necessariamente que a solução encontrada seja a mais elegante.
Pode nem sequer ser a solução ideal.
Mas funciona.
E essa é a sua essência.
É a capacidade de olhar para uma situação complicada e pensar:
“Alguma maneira haverá de resolver isto.”
A expressão está profundamente associada ao verbo desenrascar, usado para transmitir a ideia de sair de uma dificuldade ou encontrar uma solução para um problema.
É também por isso que desenrascanço ultrapassa a simples ideia de improvisação.
Improvisar é criar algo no momento.
Desenrascar é encontrar uma saída quando existe um obstáculo.
Três palavras, três maneiras de olhar para a vida
As três palavras escolhidas na investigação de Lomas parecem muito diferentes.
Saudade olha para aquilo que está ausente.
Desbundar olha para a liberdade de viver intensamente um momento.
Desenrascanço olha para a capacidade de enfrentar uma dificuldade.
E, juntas, formam quase um pequeno retrato de experiências humanas muito diferentes.
Há a memória.
Há a celebração.
Há a adversidade.
Talvez seja essa diversidade que torna a língua portuguesa tão interessante.
Outras línguas também escondem palavras fascinantes
O português não é a única língua a possuir conceitos difíceis de traduzir.
Muito longe de Portugal, outras culturas desenvolveram palavras igualmente específicas para determinadas experiências.
No trabalho de Lomas aparecem centenas de exemplos provenientes de diferentes línguas e culturas. O objetivo não é afirmar que essas experiências só existem nos povos que lhes deram um nome, mas mostrar como uma palavra pode tornar uma experiência mais fácil de reconhecer e comunicar.
Entre os exemplos encontram-se palavras como kilig, do tagalo, uitwaaien, do neerlandês, shinrin-yoku, do japonês, yuan bei, do chinês, e Sehnsucht, do alemão.
Kilig: aquele nervosismo provocado por alguém especial
Kilig, em tagalo, descreve uma sensação de entusiasmo e nervosismo associada à presença ou interação com alguém por quem existe atração.
É aquela espécie de agitação interior difícil de explicar quando uma pessoa especial aparece.
Não é simplesmente felicidade.
Não é apenas paixão.
É uma mistura muito particular de emoções.
Uitwaaien: deixar o vento levar o cansaço
O neerlandês tem uitwaaien, uma palavra associada ao efeito revigorante de sair e caminhar ao vento.
É fácil perceber a experiência.
Uma pessoa sai de casa cansada ou saturada, caminha ao ar livre, sente o vento no rosto e regressa com a cabeça mais leve.
O português consegue explicar perfeitamente essa sensação.
Mas não dispõe necessariamente de uma única palavra quotidiana que reúna toda a experiência.
Shinrin-yoku: o banho de floresta
No japonês, shinrin-yoku significa literalmente algo próximo de “banho de floresta”.
Refere-se à imersão na natureza como experiência de contacto e relaxamento.
Não significa simplesmente “andar no bosque”.
Existe uma ideia de mergulhar na atmosfera da floresta, permitindo que o ambiente natural envolva os sentidos.
É mais uma demonstração de como uma língua pode transformar uma experiência complexa numa expressão curta.
Yuan bei: a sensação de realização completa
Yuan bei, associado ao chinês, é apresentado na lexicografia de Lomas como uma sensação de realização completa e perfeita.
É aquela sensação que surge quando algo chega exatamente ao ponto pretendido.
Um trabalho terminado.
Um objetivo alcançado.
Uma tarefa concluída com a sensação de que nada ficou por fazer.
Sehnsucht: desejar uma vida que talvez nunca exista
A palavra alemã Sehnsucht é particularmente interessante porque se aproxima, em alguns aspetos, da dimensão melancólica da saudade.
Na investigação de Lomas, é associada a desejos profundos por estados de vida ou realizações alternativas, mesmo quando podem ser inalcançáveis.
É uma espécie de desejo por algo que se imagina intensamente, mas que pode nunca chegar a concretizar-se.
E talvez seja por isso que tantos leitores encontrem alguma familiaridade entre Sehnsucht e saudade, apesar de os conceitos não serem exatamente iguais.
As palavras não criam os sentimentos
Esta é talvez a conclusão mais interessante de toda a investigação.
Uma pessoa não precisa de conhecer a palavra saudade para sentir falta de alguém.
Também não precisa de conhecer desenrascanço para improvisar uma solução.
E certamente não precisa da palavra kilig para sentir aquele nervosismo especial perante alguém por quem sente atração.
As experiências humanas existem antes das palavras.
Mas ter uma palavra para determinada experiência pode ajudar a reconhecê-la, comunicá-la e pensar sobre ela.
É precisamente essa uma das ideias centrais do trabalho de Lomas: ampliar o vocabulário emocional pode ajudar a tornar mais visíveis experiências que anteriormente eram difíceis de nomear. O investigador descreve o projeto como uma forma de enriquecer o nosso “mapa” das experiências humanas e do bem-estar.
A língua portuguesa também guarda outras palavras especiais
A investigação de Lomas não se limita às três palavras que ficaram mais conhecidas em artigos portugueses.
A sua lista de termos em português inclui também cafuné, colo, despejo, ficar, jeito, saudosismo, saudosista e tesão, entre outros. A lista de 2019 do projeto apresenta, por exemplo, cafuné como o gesto de passar carinhosamente os dedos pelo cabelo de alguém amado e jeito como uma solução ou forma de fazer algo, muitas vezes contornando obstáculos ou convenções.
Isto revela uma realidade ainda mais interessante.
A riqueza linguística portuguesa não termina na saudade.
Existe todo um conjunto de palavras que dá nome a gestos, comportamentos, relações, estados emocionais e formas de enfrentar a vida.
Afinal, existem mesmo palavras impossíveis de traduzir?
A resposta mais rigorosa é: não exatamente no sentido absoluto da expressão.
Praticamente qualquer conceito pode ser explicado noutra língua.
O que pode não existir é uma tradução direta, numa única palavra, que conserve todas as nuances do original.
É por isso que o termo “intraduzível” deve ser entendido com alguma cautela.
O próprio projeto de Lomas fala em palavras sem equivalente exato em inglês, e não em conceitos impossíveis de explicar noutras línguas. Além disso, o investigador apresenta a sua lexicografia como um trabalho em desenvolvimento.
E isso não diminui a magia destas palavras.
Pelo contrário.
Torna a descoberta ainda mais interessante.
Quando uma palavra guarda uma cultura inteira
Uma palavra é muito mais do que uma sequência de letras.
Pode carregar memórias, hábitos, relações, formas de pensar e experiências acumuladas ao longo de gerações.
Saudade carrega a ausência.
Desbundar carrega a liberdade.
Desenrascanço carrega o engenho.
Três palavras portuguesas. Três experiências diferentes. Três pequenas janelas para uma cultura.
Talvez seja por isso que aprender uma língua estrangeira seja muito mais do que aprender gramática e vocabulário.
É também descobrir que há experiências que outra cultura decidiu nomear de uma maneira que a nossa própria língua nunca tinha imaginado.
E, quando isso acontece, o mundo parece ficar ligeiramente maior.
As três palavras portuguesas em resumo
Saudade: desejo melancólico ou nostalgia por uma pessoa, lugar ou coisa distante no espaço ou no tempo.
Desbundar: libertar-se das inibições e entregar-se à diversão.
Desenrascanço: capacidade de encontrar uma solução engenhosa para uma situação complicada.
As três fazem parte da lexicografia de Tim Lomas sobre palavras consideradas “intraduzíveis” no sentido de não terem um equivalente exato em inglês.




