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Monarquia do Norte: quando o Porto foi “capital” do reino durante 25 dias

Em 1919, o Porto foi sede de um governo monárquico durante 25 dias. Conheça a Monarquia do Norte, Paiva Couceiro e a tentativa de restaurar a Monarquia.

Sara Costa Por Sara Costa
08/10/2026
em Curiosidades, História de Portugal, Notícias
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Monarquia do Norte: quando o Porto foi "capital" do reino durante 25 dias

Monarquia do Norte: quando o Porto foi "capital" do reino durante 25 dias

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Durante 25 dias, entre janeiro e fevereiro de 1919, o Porto tornou-se o centro de uma tentativa de restaurar a monarquia em Portugal.

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Nas ruas da cidade voltaram a surgir as cores azul e branca da antiga bandeira monárquica. Foi criada uma Junta Governativa do Reino, foram recuperados símbolos da Monarquia e a Carta Constitucional de 1826 foi declarada novamente em vigor.

O movimento chegou a controlar uma parte significativa do Norte do país.

Mas a experiência durou apenas algumas semanas.

A Monarquia do Norte, também conhecida como Reino da Traulitânia, terminou a 13 de fevereiro de 1919, quando as forças republicanas retomaram o Porto.

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O episódio é um dos capítulos mais curiosos da história contemporânea portuguesa: por breves semanas, uma parte do território português viveu sob uma estrutura política que pretendia restaurar a monarquia, enquanto a República continuava instalada no resto do país.

E tudo aconteceu apenas nove anos depois da implantação da República.

Portugal ainda estava profundamente dividido

Para compreender a Monarquia do Norte é necessário recuar até 5 de outubro de 1910.

Nesse dia, a Revolução Republicana derrubou a Monarquia Constitucional e implantou a República Portuguesa.

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A mudança de regime, porém, não apagou os defensores da monarquia. Ao longo dos anos seguintes, os monárquicos tentaram reorganizar-se e chegaram mesmo a protagonizar incursões armadas contra a República em 1911 e 1912, lideradas por Henrique Mitchell de Paiva Couceiro.

A tensão política permaneceu. A República enfrentava divisões internas, crises governativas e dificuldades económicas, enquanto os monárquicos continuavam a defender o regresso de D. Manuel II, que tinha sido deposto em 1910. Em 1919, esse conflito atingiria o ponto máximo.

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A Primeira Guerra Mundial agravou a crise

Portugal tinha participado na Primeira Guerra Mundial, ao lado dos Aliados.

O conflito trouxe enormes custos humanos e económicos.

A participação portuguesa agravou problemas financeiros e sociais que já afetavam o país, num contexto de inflação, instabilidade política e crescente descontentamento.

A República encontrava-se fragilizada.

E a sociedade portuguesa estava profundamente dividida.

Foi nesse ambiente que os movimentos políticos contrários ao regime republicano ganharam espaço.

Sidónio Pais mudou o equilíbrio político

Outro acontecimento fundamental ocorreu em dezembro de 1917, quando Sidónio Pais liderou um movimento militar que derrubou o governo republicano.

Seguiu-se o período conhecido como sidonismo, caracterizado por uma forte concentração do poder presidencial e por alterações profundas ao funcionamento da República.

Durante esse período, os monárquicos recuperaram espaço na vida política nacional.

Nas eleições de abril de 1918, chegaram a eleger dezenas de representantes para o Parlamento. O Parlamento português salienta precisamente a recuperação da influência monárquica durante o período sidonista.

Mas o projeto de Sidónio Pais não duraria.

O assassinato de Sidónio Pais abriu uma nova crise

A 14 de dezembro de 1918, Sidónio Pais foi assassinado na Estação do Rossio, em Lisboa.

A sua morte abriu uma nova crise política.

O país entrou novamente num período de grande instabilidade.

João do Canto e Castro foi eleito Presidente da República poucos dias depois, enquanto os republicanos procuravam reorganizar o regime.

No Parlamento, foi também reposto o vigor da Constituição de 1911 através da Lei n.º 833, de 16 de dezembro de 1918.

Para os setores monárquicos mais radicais, aquele momento representava uma oportunidade.

A República parecia vulnerável.

E o Norte preparava-se para avançar.

O dia em que a Monarquia voltou ao Porto

Na tarde de 19 de janeiro de 1919, no Monte Pedral, no Porto, foi proclamada a restauração da Monarquia.

O ato foi conduzido pelo major Eurico Satúrio Pires, perante militares e civis, contando com a presença de Paiva Couceiro.

A bandeira azul e branca voltou a ser hasteada.

A tentativa de derrubar a República estava em marcha.

Nos dias seguintes, o movimento espalhou-se por várias zonas do Norte, incluindo áreas do Douro, Minho, Trás-os-Montes e parte da Beira Alta.

A situação tornou-se suficientemente séria para que o governo republicano tivesse de mobilizar forças militares para recuperar o território.

O Porto tornou-se sede da Junta Governativa do Reino

É aqui que surge uma das imagens mais extraordinárias deste episódio.

No Porto foi criada a Junta Governativa do Reino, com Paiva Couceiro como presidente e regente em nome de D. Manuel II.

O Arquivo Histórico Parlamentar conserva os próprios Diários da Junta Governativa do Reino de Portugal, impressos no Porto entre 19 e 28 de janeiro de 1919. Esses documentos mostram a existência de uma estrutura governativa própria instalada na cidade.

Por isso, embora seja comum afirmar que “o Porto foi a capital de Portugal durante 25 dias”, historicamente é mais rigoroso dizer que o Porto foi a sede da Junta Governativa do Reino durante os 25 dias em que a Monarquia do Norte esteve em vigor.

Tratou-se de uma capital de facto para o movimento restauracionista, mas não de uma transferência formal e reconhecida da capital portuguesa.

Ainda assim, a imagem é extraordinária:

durante 25 dias, o Porto funcionou como centro de uma tentativa de reconstrução do Reino de Portugal.

Paiva Couceiro, o homem que tentou restaurar a Monarquia

A figura central da Monarquia do Norte foi Henrique Mitchell de Paiva Couceiro.

Militar de carreira e veterano das campanhas coloniais, Paiva Couceiro já tinha participado nas tentativas monárquicas de 1911 e 1912.

Em 1919 voltou a assumir o papel de principal rosto militar da restauração.

À frente da Junta Governativa do Reino, tornou-se o homem mais importante da experiência monárquica do Norte.

Mas havia um problema fundamental.

D. Manuel II não tinha autorizado o movimento.

D. Manuel II não apoiou a revolta

D. Manuel II encontrava-se exilado em Inglaterra desde a implantação da República.

Apesar de continuar a ser considerado rei pelos monárquicos, não deu o seu consentimento à insurreição de 1919.

Mesmo assim, Paiva Couceiro assumiu a regência em nome do antigo monarca.

Esta situação criou uma contradição difícil de resolver.

Os restauracionistas afirmavam agir em defesa da legitimidade monárquica.

Mas o próprio rei deposto não tinha autorizado a operação.

A Monarquia do Norte nasceu, assim, com uma fragilidade política desde o primeiro momento.

A bandeira azul e branca voltou às ruas

Um dos símbolos mais visíveis da revolta foi o regresso da bandeira azul e branca da Monarquia Constitucional.

A bandeira republicana, criada depois de 1910, foi substituída em vários locais controlados pelos monárquicos.

No Porto, a mudança tinha um enorme significado.

Não era apenas uma alteração de cores.

Era uma declaração política.

A mensagem era clara:

a República tinha sido abolida naquele território pelos restauracionistas.

O Parlamento regista que, durante aqueles 25 dias, a bandeira azul e branca voltou a ser hasteada e que a Carta Constitucional de 1826 foi declarada em vigor.

Uma Junta Governativa com poderes próprios

A Junta Governativa do Reino não se limitou a proclamar a restauração da Monarquia.

Começou a atuar como uma verdadeira estrutura de governo.

Foram publicados decretos e legislação através do Diário da Junta Governativa do Reino.

Entre as medidas adotadas estiveram a restauração de símbolos monárquicos, a substituição de autoridades republicanas e a tentativa de revogar legislação produzida pela República desde 1910.

O Arquivo Histórico Parlamentar conserva exemplares desses diários, demonstrando a atividade legislativa da Junta no Porto.

Durante algumas semanas, portanto, existiram em Portugal duas legitimidades políticas em confronto.

No Sul, a República.

No Norte, uma estrutura que afirmava ter restaurado o Reino.

O Norte aderiu, mas a revolta não conquistou Portugal

A Monarquia do Norte conseguiu conquistar apoio em vários municípios do Norte.

Braga, Viana do Castelo e outras localidades aderiram ao movimento.

Mas o projeto não conseguiu alcançar todo o território nacional.

A República manteve o controlo de Lisboa e de grande parte do Centro e Sul.

A tentativa de alastramento do movimento para a capital acabou por fracassar.

E esse fracasso seria decisivo.

Monsanto: a batalha monárquica em Lisboa

Enquanto os monárquicos controlavam o Porto e várias zonas do Norte, uma revolta paralela ocorreu em Lisboa.

Entre 22 e 24 de janeiro de 1919, forças monárquicas ocuparam posições na zona de Monsanto.

O objetivo era apoiar o movimento restauracionista e criar uma frente que obrigasse a República a dividir as suas forças.

Mas o levantamento acabou derrotado.

O Parlamento regista a revolta de Monsanto como um dos episódios militares associados à Monarquia do Norte.

Com a derrota em Lisboa, tornou-se muito mais difícil para os monárquicos transformar a revolta do Norte numa restauração nacional.

O chamado “Reino da Traulitânia”

A Monarquia do Norte ficou também associada a uma designação particularmente marcante:

Reino da Traulitânia.

O nome surgiu em referência à violência praticada por setores armados ligados ao movimento, conhecidos como “trauliteiros”.

A própria Assembleia da República, numa exposição histórica sobre o episódio, refere a violência, as perseguições e os maus-tratos infligidos a republicanos presos em zonas controladas pelos revoltosos.

A expressão acabou por ficar associada à memória negativa da experiência monárquica do Norte.

É, por isso, importante não transformar a Monarquia do Norte apenas numa aventura política curiosa.

Foi também um episódio de confronto armado e violência política.

A República prepara a resposta

Enquanto os monárquicos consolidavam posições no Norte, o governo republicano começou a organizar a resposta.

Forças militares e voluntários republicanos foram mobilizados.

O objetivo era recuperar o território ocupado.

A marcha para Norte começou.

O movimento monárquico encontrava-se perante um problema que se agravava a cada dia:

tinha território, mas não tinha força suficiente para enfrentar todo o aparelho militar republicano.

O Porto começa a ficar isolado

À medida que as forças republicanas avançavam, a situação dos monárquicos tornou-se cada vez mais difícil.

A revolta não tinha conseguido conquistar Lisboa.

D. Manuel II não apoiava oficialmente a ação.

O apoio internacional não surgiu.

E o Exército republicano começava a concentrar forças para recuperar o Norte.

A Monarquia do Norte entrava na sua fase final.

O fim chegou a 13 de fevereiro

Na manhã de 13 de fevereiro de 1919, a situação no Porto mudou radicalmente.

Elementos da Guarda Nacional Republicana, que durante a revolta tinha sido rebatizada pelos monárquicos como Guarda Real, revoltaram-se contra o poder restauracionista.

Com o apoio de forças de artilharia, a República foi restaurada na cidade.

Pouco depois, as forças governamentais entraram no Porto.

A experiência monárquica tinha terminado.

Tinham passado exatamente 25 dias desde a proclamação de 19 de janeiro.

Paiva Couceiro fugiu para Espanha

Com a derrota, Paiva Couceiro abandonou Portugal e refugiou-se em Espanha.

A Monarquia do Norte tinha chegado ao fim.

A bandeira azul e branca deixou novamente de representar o poder político no Porto.

A República recuperou o controlo do Norte.

E a última grande tentativa militar de restauração da Monarquia em Portugal tinha fracassado.

O que aconteceu à República depois da revolta?

A derrota da Monarquia do Norte contribuiu para reforçar temporariamente a posição do regime republicano.

Os republicanos apresentaram a vitória como a defesa da República perante uma tentativa de restauração monárquica.

O episódio também contribuiu para uma reorganização política do regime.

Em 1919, ocorreu uma revisão constitucional, que, entre outras alterações, reforçou os poderes presidenciais ao permitir a dissolução do Congresso em determinadas circunstâncias.

É importante corrigir, por isso, uma ideia frequentemente repetida: não foi promulgada em 1919 uma nova Constituição que simplesmente substituísse a de 1911. O que ocorreu foi uma revisão constitucional.

A Monarquia do Norte foi a última grande tentativa armada

A Monarquia do Norte foi a última grande tentativa militar de restaurar a Monarquia em Portugal.

Depois de 1919, o movimento monárquico continuou a existir.

Mas a possibilidade de uma restauração através de uma insurreição armada perdeu força.

A experiência tinha demonstrado as enormes dificuldades de derrubar a República pela força.

D. Manuel II continuaria no exílio.

E a República sobreviveria ainda até 1926.

O curioso destino do Porto em 1919

Hoje, quando se olha para o Porto, é difícil imaginar que a cidade tenha sido, durante algumas semanas, o centro de um projeto que pretendia restaurar o Reino de Portugal.

Mas os documentos permanecem.

Os Diários da Junta Governativa do Reino foram efetivamente impressos no Porto.

A bandeira monárquica foi hasteada.

A Carta Constitucional de 1826 foi declarada em vigor.

Foram nomeadas autoridades.

Foram publicados decretos.

E uma estrutura governativa funcionou na cidade.

Tudo isto aconteceu durante apenas 25 dias.

Uma cidade no centro de uma guerra política

A história da Monarquia do Norte é também uma história do Porto.

A cidade não foi apenas o cenário onde a revolta aconteceu.

Foi o centro político e administrativo do movimento restauracionista.

Foi daqui que a Junta Governativa tentou governar o território sob o seu controlo.

Foi daqui que foram publicados os seus decretos.

E foi aqui que a experiência terminou.

Poucas cidades portuguesas viveram uma transformação política tão radical em tão pouco tempo.

Por que razão a Monarquia do Norte é tão pouco conhecida?

Talvez porque durou pouco.

Foram apenas 25 dias.

Talvez porque aconteceu num período particularmente turbulento da Primeira República, entre o sidonismo, a Grande Guerra, crises económicas, revoltas e sucessivas mudanças de governo.

Ou talvez porque a Monarquia do Norte acabou derrotada e permaneceu durante décadas como um episódio incómodo e pouco conhecido da história política portuguesa.

Mas o episódio merece atenção.

Não apenas pela curiosidade de o Porto ter sido sede de uma Junta Governativa que se apresentava como governo do Reino.

Também porque revela a enorme fragilidade da República portuguesa nove anos depois da sua implantação.

O legado de uma revolta de 25 dias

A Monarquia do Norte deixou uma marca profunda na memória política portuguesa.

Foi a última grande tentativa armada de restaurar a Monarquia.

Revelou as divisões entre republicanos e monárquicos.

Mostrou também as fraturas existentes dentro da própria República.

E deixou no Porto uma das histórias políticas mais extraordinárias do século XX português.

Durante 25 dias, a cidade foi o centro de um projeto que pretendia devolver o trono aos Braganças.

Mas o projeto não tinha o apoio do rei deposto.

Não conseguiu conquistar Lisboa.

Não obteve apoio internacional decisivo.

E acabou derrotado pelas forças republicanas.

O Porto que quase voltou a ser monárquico

Imagine-se a cidade em janeiro de 1919.

Nas ruas, uma bandeira azul e branca.

Nos edifícios públicos, novos símbolos.

No Governo Civil, uma Junta Governativa.

Nos jornais, notícias de uma restauração.

No resto do país, a República a preparar a resposta.

E, ao longe, o Exército a aproximar-se.

Durante alguns dias, o futuro político de Portugal pareceu verdadeiramente incerto.

Mas a experiência terminou tão depressa como começou.

A 13 de fevereiro de 1919, a República regressou ao Porto.

A bandeira monárquica desceu.

A Junta Governativa desapareceu.

Paiva Couceiro partiu para o exílio.

E a cidade voltou a integrar a República.

25 dias que ficaram na História

A Monarquia do Norte pode ter durado apenas 25 dias, mas deixou uma história que continua a surpreender.

Foi uma tentativa de restaurar a Monarquia num país que tinha abolido o regime nove anos antes.

Foi uma guerra política e militar.

Foi uma experiência de governo improvisado.

E foi também o momento em que o Porto se tornou o centro de uma tentativa de reconstruir o Reino de Portugal.

Por isso, mais do que dizer simplesmente que o Porto foi “a capital de Portugal durante 25 dias”, talvez seja ainda mais interessante contar a história de forma rigorosa:

durante 25 dias, o Porto foi a sede de um governo monárquico que tentou restaurar o Reino de Portugal.

A experiência falhou.

Mas deixou para trás uma das páginas mais insólitas da história da cidade.

E ainda hoje permanece a pergunta que ajuda a perceber a dimensão daquele momento:

e se a Monarquia do Norte tivesse conseguido chegar a Lisboa?

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Etiquetas: Monarquia do NorteMonarquia do Norte 1919Paiva CouceiroPorto capital durante 25 diasPorto capital Portugal 25 diasPorto monarquia 1919Reino da TraulitâniaReino da Traulitânia 1919
Sara Costa

Sara Costa

Sempre adorou comunicar. Por isso, tornou-se uma profissional bem-sucedida no marketing digital e na produção de conteúdos. Paralelamente, formou-se em Turismo e dedica-se à organização de viagens e tours pelo mundo, escrevendo sobre os lugares mais fascinantes que há para conhecer.

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