A vida das rainhas parece, à distância, feita de palácios, cerimónias, vestidos sumptuosos e protocolos rigorosos. Mas por detrás das coroas existiam pessoas com medos, afetos, amizades, perdas e relações que nem sempre chegaram até nós de forma clara.
É precisamente nesse território entre a história documentada, a memória da época e os rumores que surge uma das histórias mais intrigantes associadas a D. Amélia de Orleães, última rainha de Portugal.
A sua ligação a D. Josefa de Sandoval y Pacheco, Condessa de Figueiró, conhecida por Pepita ou Pepa Sandoval, é frequentemente apresentada em publicações contemporâneas como uma relação amorosa entre duas mulheres. No entanto, existe uma distinção essencial que não deve ser apagada: a documentação histórica disponível confirma a proximidade de Josefa à Casa da Rainha, mas não permite afirmar como facto comprovado que D. Amélia e Josefa mantiveram uma relação amorosa ou sexual.
E é precisamente essa zona de incerteza que torna a história ainda mais fascinante.

Quem foi D. Amélia de Orleães?
D. Amélia de Orleães nasceu a 28 de setembro de 1865, em Twickenham, Inglaterra, no seio da família do Conde de Paris, Luís Filipe Alberto de Orleães.
Em 1886, casou-se com o então príncipe D. Carlos e entrou definitivamente na vida da monarquia portuguesa.
Quando D. Carlos subiu ao trono, D. Amélia tornou-se rainha consorte de Portugal.
Mas reduzir a sua figura a uma rainha envolta em luxo seria ignorar uma parte importante do seu percurso.
D. Amélia dedicou uma atenção significativa às causas sociais, à saúde e à cultura. Entre as instituições associadas à sua ação encontram-se a Assistência Nacional aos Tuberculosos e o Museu dos Coches Reais, antecessor do atual Museu Nacional dos Coches. Também esteve ligada a iniciativas de beneficência e proteção social.
A sua imagem pública ficou, assim, associada à caridade, à cultura e a uma forte presença na vida social portuguesa. Mas a história reservava-lhe algumas das maiores tragédias da monarquia portuguesa.

A tragédia que mudou para sempre a vida da rainha
No dia 1 de fevereiro de 1908, D. Amélia viveu uma das páginas mais dramáticas da história contemporânea portuguesa.
Durante o atentado no Terreiro do Paço, D. Carlos I e o príncipe D. Luís Filipe foram assassinados.
A rainha sobreviveu ao atentado, enquanto o filho mais novo, D. Manuel, viria a suceder ao pai no trono.
A tragédia marcou profundamente D. Amélia e tornou-se uma das imagens mais fortes associadas à sua vida.
Pouco mais de dois anos depois, outro acontecimento destruiria definitivamente o mundo em que vivera durante décadas.
Em 5 de outubro de 1910, a implantação da República pôs fim à monarquia constitucional portuguesa e D. Amélia partiu para o exílio.
Viveria os últimos anos da sua vida longe de Portugal, morrendo em Versalhes em 1951. Os seus restos mortais foram posteriormente trasladados para Portugal e depositados no Panteão dos Braganças, junto da família real.
E quem era Pepa Sandoval?
É aqui que começa uma das partes menos conhecidas desta história.
D. Josefa Sandoval y Pacheco, também conhecida como Pepita, foi a 5.ª Condessa de Figueiró e integrou a Casa da Rainha D. Amélia como dama camarista.
Uma investigação académica sobre a Casa da Rainha identifica Josefa Sandoval y Pacheco como uma das damas que estiveram ao serviço de D. Amélia entre 1889 e 1908.
Ou seja, não estamos perante uma personagem inventada posteriormente para alimentar uma história romântica.
Josefa existiu, pertenceu à aristocracia e esteve efetivamente ligada à Casa Real.
Mais do que isso: fontes genealógicas e históricas indicam que permaneceu associada à rainha durante um período muito significativo da sua vida.
Uma presença que acompanhou D. Amélia durante anos
A relação de proximidade entre D. Amélia e Josefa é frequentemente destacada porque Pepa Sandoval ocupou uma posição muito próxima da rainha.
A documentação académica consultada confirma a sua presença como dama da Casa da Rainha e permite perceber que fazia parte do círculo feminino mais próximo de D. Amélia.
É este facto documentado que alimentou, posteriormente, interpretações sobre a natureza da relação entre ambas.
Mas aqui é importante travar antes de transformar uma hipótese em certeza.
A proximidade entre duas mulheres, mesmo numa época em que as relações de amizade e companhia entre mulheres podiam assumir enorme intensidade, não constitui por si só prova de uma relação amorosa.

A alegada relação amorosa que chegou até aos nossos dias
A ideia de que D. Amélia e Pepa Sandoval teriam mantido uma relação amorosa aparece em literatura e conteúdos contemporâneos sobre a história do lesbianismo em Portugal.
Contudo, essa interpretação não é consensual.
Uma obra dedicada à história do lesbianismo em Portugal coloca precisamente a questão de saber se existiria alguma verdade nessa alegada relação e apresenta uma interpretação segundo a qual as acusações poderiam fazer parte da propaganda e da chamada “lenda negra” construída em torno da família real.
Esta ressalva é fundamental.
Não existem, nas fontes consultadas, provas documentais suficientemente sólidas que permitam apresentar como facto histórico estabelecido que D. Amélia era lésbica ou que manteve uma relação amorosa com Pepa Sandoval.
Há uma proximidade documentada.
Há uma relação de confiança que alimentou interpretações posteriores.
Há uma alegação histórica.
Mas são coisas diferentes de uma prova conclusiva.

O contexto da época ajuda a compreender o silêncio
Para perceber esta história é necessário regressar ao final do século XIX e início do século XX.
A vida de uma rainha estava submetida a uma enorme exposição pública. Os casamentos reais tinham uma dimensão política e dinástica, e a reputação da família reinante podia ser utilizada como arma por adversários.
D. Carlos e D. Amélia viveram num período de crescente contestação à monarquia.
Nesse contexto, rumores sobre a vida privada da família real podiam adquirir uma dimensão política.
A própria historiografia sobre a época alerta para a existência de histórias e acusações dirigidas contra a família real que devem ser analisadas tendo em conta o contexto político e propagandístico em que circularam.
Por isso, qualquer alegação sobre a intimidade da rainha exige uma leitura particularmente cuidadosa das fontes.
Uma fotografia ajuda a alimentar o mistério
Existe ainda um elemento visual particularmente interessante.
Uma fotografia de grupo realizada por ocasião da visita do imperador Guilherme II da Alemanha, em 1905, identifica entre as pessoas presentes Josefa de Sandoval y Pacheco, Condessa de Figueiró, juntamente com D. Amélia e outras figuras da família e da corte.
A fotografia não prova qualquer relação sentimental.
Mas ajuda a perceber que Josefa fazia efetivamente parte do círculo da corte e esteve presente em momentos importantes da vida pública da rainha.
É precisamente essa proximidade documentada que continua a despertar a curiosidade de quem estuda a vida privada de D. Amélia.
O exílio aproximou ainda mais as duas?
Alguns relatos contemporâneos afirmam que Josefa permaneceu ligada à rainha mesmo depois da queda da monarquia.
Fontes genealógicas referem que D. Josefa Sandoval y Pacheco foi dama camarista de D. Amélia durante muitos anos, incluindo no período do exílio.
Esse dado torna a história particularmente interessante.
D. Amélia perdeu o marido, perdeu o filho mais velho, perdeu o trono e deixou Portugal.
Ao longo de todas essas mudanças, as pessoas que permaneceram próximas adquiriram naturalmente uma importância especial.
Mas, mais uma vez, a permanência de uma pessoa ao lado da rainha não permite concluir, por si só, que existia uma relação amorosa.
A última rainha de Portugal e a mulher por detrás da coroa
Talvez seja precisamente aqui que a história de D. Amélia se torne mais humana.
Antes de ser rainha, D. Amélia era uma mulher.
Uma mulher que viveu num mundo de obrigações dinásticas, expectativas sociais e permanente escrutínio.
Foi esposa, mãe, rainha, mecenas e figura de intervenção social.
Também foi uma mulher atingida por perdas extraordinárias.
A história oficial tende a privilegiar os grandes acontecimentos: casamentos, reinados, atentados, revoluções e exílios.
Mas a vida privada é quase sempre muito mais difícil de reconstruir.
Há cartas que desaparecem, memórias contraditórias, rumores, relatos posteriores e interpretações feitas décadas depois.
É nesse espaço entre aquilo que sabemos e aquilo que apenas suspeitamos que nasce o fascínio por histórias como a de D. Amélia e Pepa Sandoval.
O que está comprovado e o que permanece por provar?
Para evitar que uma história intrigante se transforme numa certeza histórica sem fundamento, vale a pena separar os factos.
Está documentado:
- D. Amélia foi rainha consorte de Portugal.
- Casou com D. Carlos em 1886.
- Teve uma intervenção relevante em causas sociais e culturais.
- D. Josefa Sandoval y Pacheco foi dama da Casa da Rainha.
- Josefa Sandoval aparece identificada como Condessa de Figueiró.
- A sua presença junto de D. Amélia está documentada durante o período da monarquia.
- A relação de proximidade entre ambas é referida em fontes posteriores.
- D. Amélia partiu para o exílio após a implantação da República.
- A rainha morreu em 1951 e foi sepultada no Panteão dos Braganças.
Permanece controverso:
- que D. Amélia e Josefa tenham mantido uma relação amorosa;
- que D. Amélia possa ser historicamente classificada como lésbica;
- que a proximidade entre ambas tivesse natureza sexual ou romântica.
Esta distinção é essencial para contar a história com rigor sem retirar o mistério que a tornou tão conhecida.
Uma história que continua a despertar curiosidade
Mais de um século depois, D. Amélia continua a ser uma das figuras mais fascinantes da monarquia portuguesa.
A sua vida reuniu praticamente todos os ingredientes de uma grande narrativa histórica: uma princesa estrangeira chegada a Portugal, uma rainha envolvida em causas sociais, uma família marcada pela tragédia, um regicídio, uma revolução, o exílio e uma vida privada sobre a qual continuam a existir perguntas.
A ligação a Pepa Sandoval acrescenta uma dimensão ainda mais intrigante.
Mas talvez a maior lição esteja precisamente naquilo que a História ainda não consegue responder.
Nem tudo o que desperta curiosidade pode ser transformado em certeza.
Entre D. Amélia e Pepa Sandoval existiu uma proximidade real e documentada. A interpretação dessa proximidade como uma relação amorosa permanece, contudo, uma alegação sem prova conclusiva nas fontes consultadas.
E talvez seja essa fronteira entre o documento e o mistério que mantém viva, tantos anos depois, a história da última rainha de Portugal.
Perguntas frequentes
D. Amélia era lésbica?
Não é possível afirmar isso como um facto histórico comprovado. Existem alegações sobre uma relação entre D. Amélia e Josefa Sandoval y Pacheco, mas as fontes consultadas não apresentam provas conclusivas que permitam estabelecer a orientação sexual da rainha.
Quem foi Josefa Sandoval y Pacheco?
Foi a 5.ª Condessa de Figueiró e uma das damas da Casa da Rainha D. Amélia. Documentação académica identifica a sua presença ao serviço da rainha entre 1889 e 1908.
D. Amélia e Pepa Sandoval eram amantes?
Essa interpretação existe em algumas obras e publicações, mas não está comprovada documentalmente. A proximidade entre ambas é histórica e documentada; a natureza amorosa ou sexual dessa relação permanece uma questão controversa.
Quando morreu D. Amélia?
D. Amélia morreu em 1951, em Versalhes. Os seus restos mortais foram posteriormente trasladados para Portugal e colocados no Panteão dos Braganças.
Que instituições estão ligadas à ação de D. Amélia?
Entre as iniciativas associadas à rainha encontram-se a Assistência Nacional aos Tuberculosos e o Museu dos Coches Reais, atualmente Museu Nacional dos Coches.
D. Amélia testemunhou o regicídio?
Sim. D. Amélia estava presente quando D. Carlos I e o príncipe D. Luís Filipe foram assassinados no Terreiro do Paço, em Lisboa, em 1 de fevereiro de 1908.
Resumo
A história de D. Amélia de Orleães e Josefa Sandoval y Pacheco continua a despertar enorme curiosidade devido à proximidade entre as duas mulheres e às interpretações que surgiram posteriormente.
Josefa foi efetivamente uma dama da Casa da Rainha e acompanhou D. Amélia durante uma parte importante da sua vida.
Contudo, afirmar que existiu uma relação amorosa ou sexual entre ambas ultrapassa aquilo que as fontes consultadas permitem provar.
A última rainha de Portugal permanece, assim, uma figura onde história, tragédia, intimidade e mistério se cruzam. E talvez seja precisamente essa dimensão humana que faz com que, mais de um século depois, a sua vida continue a despertar tanta curiosidade.




