A História está repleta de episódios capazes de desafiar tudo aquilo que julgamos saber sobre o passado. Entre reis, rainhas, conspirações, guerras e disputas pelo poder, existem acontecimentos que permanecem envoltos em mistério durante séculos. Um desses casos envolve uma princesa portuguesa, uma das figuras femininas mais controversas da Península Ibérica do século XV.
Segundo uma investigação histórica recente, D. Joana de Portugal, rainha de Castela e esposa de Enrique IV, poderá ter sido protagonista de um dos episódios mais extraordinários da história europeia: uma alegada inseminação artificial realizada há mais de cinco séculos para garantir a sucessão ao trono castelhano.
Se esta teoria estiver correta, estaríamos perante um dos mais antigos casos documentados de conceção assistida conhecidos na Europa.
Quem foi D. Joana de Portugal?
Nascida em 1439, D. Joana de Avis era filha do rei português D. Duarte e irmã de D. Afonso V.
A sua importância política levou-a a casar com Enrique IV de Castela, numa união destinada a fortalecer relações entre Portugal e Castela numa época marcada por constantes disputas territoriais e sucessórias.
Ao tornar-se rainha de Castela, D. Joana passou a ocupar uma posição central nos equilíbrios políticos da Península Ibérica.
Contudo, o casamento rapidamente se viu envolvido em rumores, polémicas e conflitos que marcariam para sempre a imagem da monarca.
O problema que ameaçava a sucessão ao trono
Um dos maiores desafios enfrentados pela corte castelhana era a ausência de herdeiros.
Enrique IV ficou conhecido na História pelo cognome de “o Impotente”, devido às dificuldades que alegadamente enfrentava na consumação do ato conjugal.
Diversos relatos históricos e estudos posteriores referem a existência de uma condição física que dificultaria ou impediria o monarca de manter relações sexuais completas. Numa época em que a continuidade da linhagem real era considerada uma questão de sobrevivência política, a ausência de descendência representava um problema de enorme gravidade. Sem um herdeiro legítimo, o reino poderia mergulhar numa crise sucessória capaz de desencadear guerras e disputas internas.

A teoria que está a revolucionar a interpretação histórica
O historiador argentino Marsilio Cassotti apresenta uma hipótese que tem despertado grande interesse entre investigadores.
Na obra A Rainha Adúltera, o autor defende que a gravidez de D. Joana poderá não ter resultado de uma relação extraconjugal, como durante séculos se acreditou.
Segundo a investigação, Enrique IV terá recorrido a um procedimento conhecido na época como “conceção sem cópula” ou sine concubitu.
O objetivo seria simples: permitir a fecundação da rainha sem necessidade de consumação sexual tradicional.
Embora o conceito pareça surpreendente à luz do conhecimento popular sobre a Idade Média, existem referências históricas que sugerem que determinadas técnicas de fertilização assistida eram conhecidas em alguns meios médicos e religiosos da época.
O papel do médico judeu Yusef ben Yahia
De acordo com os documentos analisados por Cassotti, Enrique IV terá recorrido aos serviços de um físico judeu — designação utilizada na época para médico — chamado Yusef ben Yahia.
Os médicos judeus eram frequentemente reconhecidos pelo elevado nível de conhecimento científico e médico, sobretudo em áreas onde o saber árabe, judaico e clássico se cruzava.
Segundo esta interpretação histórica, terá sido este especialista a conduzir a chamada “mestria” destinada a permitir a conceção da futura herdeira castelhana.
Embora não existam descrições técnicas detalhadas do procedimento, as referências documentais sugerem a utilização de métodos destinados a introduzir o sémen do rei sem recurso à cópula convencional.
O nascimento de D. Juana de Castela
A 28 de fevereiro de 1462 nasceu D. Juana de Castela.
O acontecimento deveria ter garantido estabilidade ao reino, mas acabou por desencadear uma das maiores controvérsias sucessórias da história castelhana.
Rapidamente começaram a circular rumores de que a criança não seria filha biológica de Enrique IV.
Os adversários políticos do monarca alegavam que a verdadeira paternidade pertenceria a Beltrán de la Cueva, nobre próximo da corte.
Essas acusações dariam origem ao famoso apelido de “La Beltraneja”, nome pelo qual D. Juana ficou conhecida na História.
Uma campanha de difamação política?
Um dos aspetos mais relevantes da investigação de Cassotti prende-se precisamente com a possibilidade de essas acusações terem resultado de uma campanha de desinformação política.
Num período em que o controlo do trono dependia da legitimidade da sucessão, desacreditar a herdeira podia significar abrir caminho para outros pretendentes.
Segundo o historiador, diversos documentos contemporâneos sugerem que a imagem de D. Joana terá sido profundamente condicionada pelos interesses políticos da época.
Ao longo dos séculos, a narrativa da alegada infidelidade foi sendo repetida até se tornar quase uma verdade histórica aceite.
Contudo, novas leituras das fontes levantam dúvidas significativas sobre essa interpretação.
A referência surpreendente do Papa Pio II
Entre os elementos mais curiosos apresentados na investigação encontra-se uma referência atribuída ao Papa Pio II.
Segundo alguns relatos históricos analisados pelo autor, existiam descrições que sugeriam uma conceção sem perda da virgindade da rainha.
Embora estas afirmações devam ser interpretadas dentro do contexto religioso e cultural do século XV, constituem um elemento particularmente intrigante para os estudiosos do tema.
Existia inseminação artificial na Idade Média?
A ideia pode parecer improvável à primeira vista, mas existem referências históricas que demonstram que certas formas rudimentares de inseminação eram conhecidas há muitos séculos.
Textos judaicos antigos, documentos árabes medievais e relatos ligados à criação animal mencionam práticas destinadas a facilitar a reprodução sem contacto sexual direto.
Embora estas técnicas estivessem muito longe da medicina reprodutiva moderna, demonstram que alguns conhecimentos sobre fertilização já circulavam em determinados meios científicos da época.
Por isso, vários investigadores consideram plausível que experiências semelhantes tenham sido tentadas em contextos excecionais, sobretudo quando estavam em causa questões dinásticas de enorme importância.
Um mistério que talvez nunca seja totalmente resolvido
A confirmação definitiva desta teoria dependeria da análise genética dos restos mortais de Enrique IV e de D. Juana de Castela.
Infelizmente, segundo diversos estudos históricos, os restos mortais associados a estas figuras desapareceram devido a destruições e alterações ocorridas nos locais onde estavam sepultados.
Essa circunstância impede que a arqueogenética moderna possa esclarecer definitivamente a questão.
Ainda assim, a investigação documental continua a alimentar um dos debates mais fascinantes da história medieval europeia.
Uma mulher que pode ter sido injustamente julgada pela História
De acordo com António Piedade, independentemente da interpretação que venha a prevalecer, uma conclusão parece ganhar força entre vários investigadores: a figura de D. Joana de Portugal merece ser reavaliada.
Durante séculos, foi frequentemente retratada através de acusações de adultério e de narrativas construídas pelos vencedores das disputas sucessórias.
Hoje, novas investigações sugerem que a realidade poderá ter sido muito mais complexa.
Entre intrigas palacianas, rivalidades políticas e estratégias de poder, emerge a imagem de uma rainha inteligente, determinada e profundamente influente numa das épocas mais decisivas da história ibérica.
Se a teoria defendida por Marsilio Cassotti estiver correta, D. Joana de Portugal poderá não ter sido apenas uma rainha polémica. Poderá ter sido protagonista de um dos episódios médicos mais extraordinários e inesperados da Europa medieval.




