Há histórias que desafiam a lógica, atravessam gerações e resistem ao tempo como parte da identidade de um povo. Em Portugal, poucas lendas despertam tanta curiosidade como a do Padre Costa de Trancoso, um sacerdote do século XV que, segundo a tradição popular, terá sido pai de 299 filhos.
A narrativa é tão extraordinária que parece saída de um romance medieval. No entanto, em Trancoso, muitos continuam a contá-la com orgulho, humor e um certo sentido de pertença. Afinal, há quem diga, entre sorrisos, que poderá ser descendente daquele que ficou conhecido como “o povoador das Beiras”.
Mas será que esta história aconteceu realmente? Ou estaremos perante uma das mais fascinantes lendas do património oral português?
Entre documentos desaparecidos, relatos antigos e muita tradição popular, a verdade permanece envolta em mistério.

Uma lenda que faz parte da identidade de Trancoso
Situada no distrito da Guarda, Trancoso é uma das vilas históricas mais importantes de Portugal.
As suas muralhas, o castelo medieval e as ruas de pedra testemunharam episódios decisivos da história nacional. Foi palco de batalhas, encontros de reis e acontecimentos que ajudaram a moldar o país.
Mas entre todas as histórias ligadas à vila, existe uma que continua a despertar gargalhadas, espanto e curiosidade: a do padre que alegadamente teve quase trezentos filhos.
Mais do que uma simples curiosidade, tornou-se um símbolo da cultura popular local.
Quem foi o Padre Costa?
Segundo a tradição, chamava-se Francisco da Costa e exerceu funções religiosas em Trancoso durante o século XV.
Embora existam dúvidas entre historiadores sobre a sua verdadeira identidade e sobre muitos dos acontecimentos que lhe são atribuídos, a lenda manteve-se viva ao longo dos séculos. O sacerdote teria levado uma vida bastante diferente daquela que seria esperada de um homem da Igreja. Segundo os relatos populares, foi pai de 299 filhos, fruto de relações com 53 mulheres diferentes. É precisamente este número impressionante que transformou o Padre Costa numa das figuras mais curiosas do imaginário português.

O homem que “repovoou” a Beira Alta
Conta a tradição que, na segunda metade do século XV, a região da Beira Alta enfrentava problemas de despovoamento.
Perante essa realidade, a extraordinária fertilidade atribuída ao Padre Costa acabou por dar origem à alcunha que ainda hoje o acompanha:
“O Povoador das Beiras.”
A história tornou-se tão popular que o próprio turismo local aproveita a figura do sacerdote como elemento de promoção cultural.
Quem visita Trancoso encontra facilmente referências ao Padre Costa.
Entre os produtos mais conhecidos estão:
- chá Padre Costa;
- canecas ilustradas;
- recordações humorísticas;
- ilustrações inspiradas na lenda.
Na conhecida Casa da Prisca, por exemplo, não faltam referências divertidas ao alegado sacerdote, cuja fama continua a atrair visitantes.
O julgamento que terá mudado tudo
Segundo a narrativa tradicional, Francisco da Costa foi julgado em 1487, quando teria cerca de 62 anos.
As acusações eram gravíssimas para a época.
O sacerdote terá sido condenado a uma pena extremamente severa, que previa:
- expulsão das ordens religiosas;
- arrastamento público;
- esquartejamento;
- exposição do corpo em diferentes locais.
Contudo, a execução nunca terá acontecido.
Segundo a lenda, D. João II decidiu intervir.

O perdão atribuído por D. João II
É precisamente aqui que a história entra no domínio da lenda.
Conta-se que o rei português decidiu poupar a vida ao sacerdote devido ao alegado contributo que este teria dado para aumentar a população da região.
Segundo vários autores que ao longo dos séculos reproduziram esta narrativa, D. João II terá emitido uma Carta Régia onde justificava o perdão precisamente por esse motivo.
O problema é que…
Até hoje, esse documento nunca foi encontrado.
Diversos investigadores referem a sua existência.
Mas nenhum conseguiu localizar o original nos arquivos conhecidos.
É precisamente esta ausência de prova documental que leva muitos historiadores a classificarem esta história como uma tradição popular e não como um facto historicamente comprovado.
Os impressionantes números da lenda
Segundo a versão mais divulgada da história, Francisco da Costa teria sido pai de:
- 299 filhos;
- 214 raparigas;
- 85 rapazes.
Para alcançar este número extraordinário, teria mantido relações com 53 mulheres.
Mas a lenda vai ainda mais longe.
Segundo os relatos populares, entre essas mulheres encontravam-se:
- sete amas;
- duas escravas do presbitério;
- 29 afilhadas;
- nove comadres;
- uma tia chamada Ana da Cunha.
E existe um detalhe ainda mais polémico.
As partes mais controversas da narrativa
Algumas versões da lenda afirmam que Francisco da Costa teria tido filhos com familiares próximas.
Entre elas estariam:
- uma tia;
- várias afilhadas;
- e até a própria mãe.
Segundo essas versões populares, teria tido dois filhos com a mãe.
Naturalmente, não existe qualquer prova histórica que confirme estes episódios.
Pelo contrário, muitos investigadores consideram que estas partes terão sido acrescentadas ao longo do tempo para tornar a narrativa ainda mais extraordinária.
Como acontece frequentemente nas lendas populares, cada geração foi acrescentando novos elementos à história.
Uma história sem provas documentais
Apesar da enorme popularidade da narrativa, importa distinguir tradição oral de realidade histórica.
Até ao momento:
- não foi encontrada qualquer lista oficial dos alegados filhos;
- não existe a Carta Régia atribuída a D. João II;
- não foram descobertos registos paroquiais capazes de confirmar os números apresentados.
Isto não significa que Francisco da Costa nunca tenha existido.
Significa apenas que a dimensão extraordinária da história permanece sem confirmação documental.
A maioria dos historiadores considera que a lenda poderá ter partido de uma figura real, cuja fama foi sendo ampliada pela imaginação popular ao longo dos séculos.
Porque continua esta história tão viva?
As grandes lendas sobrevivem porque ajudam a construir a identidade das comunidades.
No caso de Trancoso, o Padre Costa tornou-se uma personagem quase mítica.
A sua história mistura:
- humor;
- irreverência;
- crítica social;
- tradição oral;
- identidade local.
É uma narrativa contada entre gerações, muitas vezes com um sorriso, mas também como demonstração do rico património cultural da vila.
Independentemente da sua veracidade histórica, continua a ser um dos episódios mais curiosos do imaginário português.
Trancoso: muito mais do que uma lenda
Quem visita Trancoso rapidamente percebe que esta vila histórica oferece muito mais do que a famosa história do Padre Costa.
Entre os locais de visita obrigatória destacam-se:
- o Castelo de Trancoso;
- as muralhas medievais;
- a Porta d’El Rei;
- a Igreja de São Pedro;
- o centro histórico;
- a Casa do Gato Preto;
- o bairro judaico.
A cidade foi também palco do casamento de D. Dinis com Santa Isabel, um dos acontecimentos mais marcantes da história medieval portuguesa.
Passear pelas suas ruas é viajar vários séculos no tempo.
Uma lenda que continua a fascinar Portugal
Se Francisco da Costa teve realmente 299 filhos, talvez nunca se saiba.
O mais provável é que a história tenha crescido ao ritmo da imaginação popular, acumulando episódios cada vez mais extraordinários ao longo dos séculos.
Mas isso não lhe retira valor.
Pelo contrário.
As lendas fazem parte da memória coletiva dos povos e ajudam a preservar tradições, curiosidades e formas únicas de olhar para o passado.
Em Trancoso, o Padre Costa continua a ser muito mais do que uma personagem.
É um símbolo de uma terra onde a História e a imaginação caminham lado a lado, recordando que, por vezes, as melhores histórias são precisamente aquelas que permanecem envoltas em mistério.




