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Início Histórias Curiosidades

4 palavras à moda do Porto e as histórias surpreendentes por trás delas

Conheça 4 palavras típicas do Porto, como gabiru, guna e requitó, e descubra as histórias, origens e curiosidades da linguagem portuense.

José Ferreira Por José Ferreira
02/10/2026
em Curiosidades, Língua Portuguesa, Notícias, Português
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4 palavras à moda do Porto e as histórias surpreendentes por trás delas

4 palavras à moda do Porto e as histórias surpreendentes por trás delas

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Há palavras que dizem muito mais do que aquilo que significam. No Porto, algumas expressões atravessaram gerações, sobreviveram às mudanças da linguagem e continuam a revelar uma forma muito própria de falar e de estar.

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Basta ouvir uma conversa entre portuenses para perceber que a Invicta tem uma maneira muito particular de comunicar.

Há palavras que parecem estranhas para quem chega de fora, expressões que provocam um sorriso e outras que só ganham verdadeiro significado quando são ditas com o inevitável sotaque do Norte.

Este vocabulário não nasceu por acaso. É resultado de séculos de evolução linguística, de influências externas, da cultura popular, da televisão, da oralidade e, sobretudo, da capacidade que os falantes têm de transformar palavras comuns em marcas de identidade.

O livro Falar à Moda do Porto, de João Carlos Brito, publicado em 2023, reúne centenas de termos e expressões associados ao falar portuense e procura explicar os seus significados e origens.

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A obra apresenta o vocabulário da cidade como uma verdadeira viagem pela forma como os portuenses falam, brincam, insultam, elogiam e descrevem o mundo à sua volta.

Entre tantas palavras curiosas, há quatro que despertam particularmente a atenção: gabiru, guna, zobaida e requitó.

1. gabiru: quando alguém é esperto, maroto ou velhaco

“Está armado em gabiru!”

Para quem não está familiarizado com o vocabulário popular do Norte, a expressão pode parecer enigmática.

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Mas gabiru é uma palavra antiga e com uma história bem mais ampla do que a sua utilização no Porto. Os dicionários registam o termo com vários sentidos populares, entre eles velhaco, patife, travesso e maroto. A Infopédia indica ainda que a palavra tem origem no tupi gabiru, com o significado de “rato”. A associação é curiosa: um animal pequeno, ágil e difícil de apanhar acabou por dar origem a uma palavra utilizada para caracterizar alguém considerado astuto, manhoso ou pouco confiável.

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No Porto, a palavra ganhou uma utilização muito própria e pode aparecer em frases como:

“Anda feito gabiru.”

Ou:

“Não seja gabiru!”

Dependendo do contexto e da relação entre as pessoas, pode ter uma carga verdadeiramente negativa ou assumir um tom mais brincalhão.

É precisamente esta elasticidade que torna muitas palavras populares tão interessantes. O significado não está apenas no dicionário: está também na maneira como a palavra é dita, na situação em que aparece e na relação entre quem fala e quem ouve.

De onde vem afinal a palavra gabiru?

A origem tupi é uma das informações mais bem documentadas sobre o termo. A ideia de que terá chegado ou ganho determinada utilização no Porto através dos portugueses regressados do Brasil pertence a uma explicação histórica associada ao vocabulário popular, mas deve ser apresentada com alguma cautela.

O que os dicionários permitem confirmar é a relação etimológica com o tupi e a evolução do significado para designar uma pessoa velhaca, travessa ou marota.

É uma pequena palavra com uma história que atravessa o Atlântico.

2. guna: uma palavra que ficou profundamente ligada ao Porto

Poucas palavras estarão tão associadas ao vocabulário informal portuense como guna.

No uso popular, o termo é utilizado para descrever um jovem urbano associado a um comportamento considerado ruidoso, desrespeitoso, ameaçador ou violento. É uma palavra de caráter depreciativo e, por isso, o contexto em que é utilizada é importante.

A Infopédia classifica guna como um termo coloquial e depreciativo, associado ao Douro, e regista a expressão “andar à guna”.

O significado de “andar à guna” é particularmente curioso: refere-se a viajar pendurado no exterior de um transporte público, sem pagar bilhete.

A palavra veio do inglês

A etimologia também é conhecida.

Guna deriva do inglês goon, palavra que pode significar rufião, valentão ou capanga. A adaptação portuguesa acabou por adquirir uma utilização regional muito característica, sobretudo no Norte.

O Priberam identifica explicitamente o uso de guna como termo informal e depreciativo associado ao Porto.

É um excelente exemplo de como uma palavra estrangeira pode entrar numa língua, sofrer alterações e acabar por ganhar uma identidade completamente própria.

E há uma curiosidade adicional: embora hoje a palavra seja conhecida muito para além da cidade, a associação ao Porto continua particularmente forte.

3. zobaida: uma palavra que ficou na memória de outra geração

Esta é talvez uma das palavras menos conhecidas da lista.

Zobaida é apresentada no vocabulário popular portuense como uma palavra usada para designar uma mulher de formas muito volumosas ou com excesso de peso.

A explicação tradicional relaciona o termo com a personagem Zobaida Saad, da história de Gabriela, Cravo e Canela, de Jorge Amado, e da adaptação televisiva brasileira. A personagem integrou o elenco da novela Gabriela, transmitida originalmente pela Globo em 1975.

É importante, contudo, perceber que estamos perante uma palavra de uso popular e de carácter depreciativo, hoje muito menos frequente do que noutras décadas.

A própria história desta expressão revela uma característica fascinante da linguagem: as palavras não nascem apenas nos livros ou nos dicionários. Podem surgir da televisão, de personagens populares, de acontecimentos, de alcunhas ou de referências culturais que ficam profundamente marcadas na memória coletiva.

Durante décadas, as telenovelas brasileiras tiveram uma enorme influência em Portugal. Gabriela foi um fenómeno televisivo particularmente marcante e ajudou a popularizar palavras, expressões e referências culturais brasileiras entre os portugueses.

Assim, uma personagem de ficção pode acabar, através da oralidade, a deixar uma marca inesperada no vocabulário de uma cidade.

4. requitó: “vai já de requitó!”

Há expressões que parecem ter sido feitas para serem ditas por pais e avós.

“Vais já de requitó para o quarto!”

A frase transmite imediatamente a ideia de que alguém deve sair dali sem demora.

E é precisamente esse o significado que os dicionários atribuem à expressão “de requitó”: sem demora, com urgência. A Infopédia classifica requitó como um regionalismo.

A origem, contudo, merece uma ressalva.

É frequentemente associada ao riquexó, um veículo de duas rodas tradicionalmente puxado por uma pessoa, mas os dicionários atuais não apresentam essa explicação como uma etimologia definitivamente estabelecida. A origem da palavra é, portanto, menos segura do que por vezes se afirma.

O mais interessante está no significado que permaneceu na linguagem popular.

“Ir de requitó” significa ir rapidamente, sem demora.

É uma expressão que hoje pode soar antiga, mas que ainda sobrevive na memória de muitos portuenses, sobretudo entre as gerações que a ouviram em casa durante a infância.

E talvez seja precisamente aí que reside o seu encanto: algumas palavras desaparecem dos jornais e dos livros, mas continuam escondidas na memória das famílias.

O Porto tem uma língua dentro da língua

Estas quatro palavras são apenas uma pequena amostra.

O falar portuense é muito mais vasto e inclui dezenas de expressões que podem surpreender quem não nasceu ou cresceu na região.

Algumas são imediatamente reconhecíveis. Outras estão a desaparecer lentamente, substituídas por palavras mais comuns ou por expressões importadas de outras regiões e dos meios digitais.

Ainda assim, continuam a fazer parte da memória linguística da cidade.

“andar à nora”

Significa estar confuso, desorientado ou sem saber muito bem o que fazer.

É uma expressão conhecida em várias regiões portuguesas e não exclusivamente portuense, mostrando que o vocabulário regional não respeita necessariamente fronteiras administrativas.

“fazer das tripas coração”

Significa fazer um enorme esforço para conseguir alguma coisa, mesmo perante dificuldades.

É uma daquelas expressões profundamente enraizadas no português popular e utilizada muito para lá do Porto.

“estar com os azeites”

Significa estar irritado, zangado ou maldisposto.

É outra expressão popular que não pertence exclusivamente ao Porto, mas que faz parte do repertório quotidiano de muitos falantes do Norte.

“ter cá uma lata”

Usa-se para caracterizar alguém descarado, atrevido ou sem vergonha.

Dependendo do contexto, pode ser uma crítica séria ou uma forma divertida de comentar o comportamento de alguém.

“bater a bota”

Uma forma popular e informal de dizer morrer ou falecer.

É uma expressão forte, irreverente e tipicamente associada ao humor negro presente em muitas construções do português popular.

“dar de frosques”

Significa ir embora, fugir ou desaparecer rapidamente.

É uma expressão antiga e expressiva, daquelas que conseguem transmitir uma ideia inteira em apenas três palavras.

“ir a eito”

Significa fazer algo de forma contínua, seguida ou sem interrupções.

É outro exemplo de como a linguagem popular consegue condensar uma ideia complexa numa expressão curta.

Nem todas as palavras do Porto nasceram no Porto

Esta é uma das maiores curiosidades da linguagem regional.

Uma palavra pode ter origem noutra língua, noutra região ou até noutro continente e, depois de ser adotada pelos falantes, ganhar um significado novo.

Guna veio do inglês goon.
Gabiru tem origem no tupi.
Zobaida está associada a uma personagem que entrou no imaginário popular através da literatura e da televisão.
Requitó permanece como um regionalismo cuja origem não é totalmente consensual.

Ou seja, falar à moda do Porto não significa utilizar apenas palavras que nasceram na cidade.

Significa também dar uma nova vida às palavras.

É assim que uma língua cresce.

O sotaque é apenas uma parte da identidade

Quando se fala do Porto, é comum pensar imediatamente no sotaque.

Mas a identidade linguística de uma região vai muito além da pronúncia.

Está nas palavras escolhidas, nas expressões utilizadas, na forma de construir uma frase, no ritmo da conversa e até na maneira como uma determinada palavra pode ser usada para provocar, brincar ou demonstrar proximidade.

Uma palavra que parece agressiva fora de contexto pode ser usada entre amigos como sinal de cumplicidade.

Uma expressão aparentemente absurda pode fazer todo o sentido para quem a ouviu desde criança.

É por isso que os falares regionais são tão importantes.

Eles guardam memórias que não estão escritas nos monumentos, mas permanecem na voz das pessoas.

Palavras que contam a história do Porto

A língua de uma cidade também é uma espécie de arquivo.

Nela ficam registadas influências culturais, contactos com outras regiões, migrações, hábitos, profissões, televisão, música, humor e acontecimentos históricos.

Algumas palavras sobrevivem durante séculos.

Outras desaparecem em apenas uma geração.

E há ainda aquelas que parecem condenadas ao esquecimento, mas reaparecem quando alguém as recupera numa conversa, num livro ou numa publicação nas redes sociais.

É por isso que recolher e explicar este vocabulário tem valor muito para além da curiosidade.

Livros como Falar à Moda do Porto, de João Carlos Brito, ajudam precisamente a preservar esse património oral e a mostrar que a linguagem popular também faz parte da cultura de uma cidade.

E há uma pergunta que fica

Quantas destas palavras ainda são utilizadas diariamente?

Talvez algumas já tenham desaparecido da linguagem dos mais jovens. Talvez outras estejam a ganhar novos significados. E é possível que algumas sobrevivam precisamente porque continuam a ser repetidas dentro das famílias.

É assim que funciona a linguagem.

Uma palavra passa de avô para filho. Depois de filho para neto. Às vezes muda de significado. Às vezes transforma-se. Às vezes desaparece.

Mas, enquanto alguém a disser, ela continua viva.

E talvez seja essa a verdadeira riqueza do falar portuense: não se trata apenas de falar de uma maneira diferente.

É carregar na voz um pedaço da história da cidade.

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Etiquetas: cultura portuenseexpressões do Portofalar à moda do Portofalar portuenselíngua portuguesapalavras do Portoportosotaque do Porto
José Ferreira

José Ferreira

Professor de Português, sempre gostou de desafiar os seus alunos com jogos de gramática e de ortografia. Para ele, a oportunidade de divulgar esses desafios em artigos que chegam a um público mais vasto é verdadeiramente estimulante e animador.

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