Durante quase oito séculos, Portugal foi governado por reis que moldaram o destino da nação, expandiram fronteiras, enfrentaram guerras, promoveram descobertas e deixaram um legado que continua bem vivo na identidade do país.
Cada um deles protagonizou um capítulo único da História de Portugal, mas todos tiveram algo em comum: um fim inevitável.
Alguns morreram de velhice, outros sucumbiram a doenças que marcaram épocas inteiras, enquanto vários encontraram um destino trágico em batalhas, conspirações ou assassinatos.
Os seus túmulos, espalhados por mosteiros, igrejas, catedrais e panteões, continuam hoje a ser locais de enorme valor histórico, artístico e patrimonial.
Ao longo de quatro dinastias, Portugal conheceu 34 monarcas — ou 35, se for incluído D. António, Prior do Crato, cuja legitimidade continua a ser debatida pelos historiadores. Esta viagem percorre a vida, a morte e o local de descanso eterno de todos eles.
Quantos reis teve Portugal?
Entre 1143 e 1910, Portugal foi governado por quatro grandes dinastias:
- 1.ª Dinastia – Borgonha ou Afonsina (1143-1383)
- 2.ª Dinastia – Avis (1385-1580)
- 3.ª Dinastia – Filipina ou dos Habsburgos (1581-1640)
- 4.ª Dinastia – Bragança (1640-1910)
Durante este longo período, houve reis que permaneceram décadas no trono e outros cujo reinado durou apenas alguns meses.
Curiosamente, apenas D. Maria I, rainha reinante, ultrapassou os 80 anos de idade. Entre os reis, apenas D. Afonso Henriques, D. João I e Filipe I de Portugal (Filipe II de Espanha) ultrapassaram os 70 anos.
1.ª Dinastia – Borgonha ou Afonsina (1143-1383)
Média de vida dos monarcas: cerca de 56 anos
D. Afonso Henriques (1111–1185) — “O Conquistador”
Reinou: 1143–1185
Primeiro rei de Portugal e fundador da nacionalidade, viveu uma vida excecionalmente longa para a época.
Morreu: aos 76 anos, provavelmente devido à idade avançada e debilidade física.
Sepultura: Igreja de Santa Cruz, Coimbra.
D. Sancho I (1154–1211) — “O Povoador”
Reinou: 1185–1211
Prosseguiu a política de povoamento iniciada pelo pai.
Morreu: aos 57 anos. Algumas fontes históricas apontam para lepra, embora o diagnóstico permaneça discutido.
Sepultura: Igreja de Santa Cruz, Coimbra.
D. Afonso II (1185–1223) — “O Gordo”
Reinou: 1211–1223
Primeiro rei português a organizar verdadeiramente a administração do reino.
Morreu: aos 38 anos, provavelmente vítima de lepra ou doença dermatológica grave.
Sepultura: Mosteiro de Alcobaça.
D. Sancho II (1202–1248) — “O Capelo”
Reinou: 1223–1248
Foi afastado do trono após conflitos internos.
Morreu: aos 45 anos, no exílio em Toledo, possivelmente vítima de lepra ou doença prolongada.
Sepultura: Catedral de Toledo, Espanha.
D. Afonso III (1210–1279) — “O Bolonhês”
Reinou: 1248–1279
Conquistou definitivamente o Algarve aos mouros.
Morreu: aos 69 anos, com problemas associados ao reumatismo.
Sepultura: Mosteiro de Alcobaça.
D. Dinis (1261–1325) — “O Lavrador” ou “Rei Poeta”
Reinou: 1279–1325
Fundou a Universidade Portuguesa e oficializou o português como língua da administração.
Morreu: aos 63 anos.
Sepultura: Mosteiro de Odivelas.
D. Afonso IV (1291–1357) — “O Bravo”
Reinou: 1325–1357
Conhecido pela vitória na Batalha do Salado.
Morreu: aos 66 anos. A causa exata permanece desconhecida.
Sepultura: Sé de Lisboa.
D. Pedro I (1320–1367) — “O Justiceiro”
Reinou: 1357–1367
Imortalizado pela história de amor com Inês de Castro.
Morreu: aos 46 anos, provavelmente devido a doença neurológica, frequentemente identificada como epilepsia.
Sepultura: Mosteiro de Alcobaça.
D. Fernando I (1345–1383) — “O Formoso”
Reinou: 1367–1383
Último rei da Dinastia Afonsina.
Morreu: aos 38 anos, vítima de tuberculose.
Sepultura: Igreja de São Francisco de Santarém.
Interregno (1383–1385)
Após a morte de D. Fernando I, Portugal viveu uma grave crise sucessória que terminou com a aclamação de D. João I e a vitória portuguesa na Batalha de Aljubarrota.
2.ª Dinastia – Avis (1385–1580)
Média de vida: cerca de 51 anos
D. João I (1357–1433) — “O de Boa Memória”
Morreu: aos 76 anos, por causas naturais.
Sepultura: Mosteiro da Batalha.
D. Duarte (1391–1438) — “O Eloquente”
Morreu: aos 47 anos, durante uma epidemia de peste.
Sepultura: Mosteiro da Batalha.
D. Afonso V (1432–1481) — “O Africano”
Morreu: aos 49 anos, após um período de profunda depressão e doença.
Sepultura: Mosteiro da Batalha.
D. João II (1455–1495) — “O Príncipe Perfeito”
Morreu: aos 40 anos, provavelmente devido a insuficiência renal ou nefrite.
Sepultura: Mosteiro da Batalha.
D. Manuel I (1469–1521) — “O Venturoso”
O seu reinado coincidiu com o auge da expansão marítima portuguesa.
Morreu: aos 52 anos, durante uma epidemia de peste.
Sepultura: Mosteiro dos Jerónimos.
D. João III (1502–1557) — “O Piedoso”
Morreu: aos 55 anos, vítima de trombose cerebral.
Sepultura: Mosteiro dos Jerónimos.
D. Sebastião (1554–1578) — “O Desejado”
Desapareceu na Batalha de Alcácer-Quibir.
Morreu: aos 24 anos, em combate.
Sepultura: Mosteiro dos Jerónimos.
D. Henrique (1512–1580) — “O Casto”
Último rei da Dinastia de Avis.
Morreu: aos 68 anos, provavelmente vítima de tuberculose.
Sepultura: Mosteiro dos Jerónimos.
D. António, Prior do Crato (1531–1595)
Pretendente ao trono português após a crise de 1580.
Morreu: em Paris, aos 64 anos, vítima de uremia.
Sepultura: antigo Convento dos Franciscanos de Paris.
3.ª Dinastia – Filipina (1581–1640)
Filipe I de Portugal (1527–1598)
Correspondente a Filipe II de Espanha.
Morreu: aos 71 anos, devido a complicações provocadas pela gota.
Sepultura: Mosteiro de El Escorial, Espanha.
Filipe II de Portugal (1578–1621)
Correspondente a Filipe III de Espanha.
Morreu: aos 43 anos, vítima de erisipela.
Sepultura: El Escorial.
Filipe III de Portugal (1605–1665)
Correspondente a Filipe IV de Espanha.
Morreu: aos 60 anos.
Sepultura: El Escorial.
4.ª Dinastia – Bragança (1640–1910)
Média de vida: cerca de 51 anos
D. João IV (1604–1656)
Restaurador da independência portuguesa.
Morreu: aos 52 anos, vítima de litíase vesical.
Sepultura: Panteão Real de São Vicente de Fora.
D. Afonso VI (1643–1683)
Morreu: aos 40 anos, com tuberculose.
Sepultura: São Vicente de Fora.
D. Pedro II (1648–1706)
Morreu: aos 58 anos, provavelmente devido a tuberculose ou sífilis.
Sepultura: São Vicente de Fora.
D. João V (1689–1750)
Conhecido pela riqueza proveniente do ouro do Brasil.
Morreu: aos 61 anos, após sucessivos AVC e problemas neurológicos.
Sepultura: São Vicente de Fora.
D. José I (1714–1777)
Morreu: aos 63 anos, vítima de trombose cerebral.
Sepultura: São Vicente de Fora.
D. Maria I (1734–1816)
Primeira mulher a reinar Portugal em nome próprio.
Morreu: aos 81 anos (frequentemente referida como 82, consoante a contagem cronológica da época), após vários anos de doença mental.
Sepultura: Basílica da Estrela.
D. João VI (1767–1826)
Investigações científicas realizadas no início do século XXI revelaram elevados níveis de arsénio nos seus restos mortais.
Morreu: aos 59 anos, sendo hoje admitida a hipótese de envenenamento por arsénio.
Sepultura: São Vicente de Fora.
D. Pedro IV (1798–1834)
Também imperador do Brasil como D. Pedro I.
Morreu: aos 35 anos, vítima de tuberculose.
Sepultura: Monumento à Independência, São Paulo, Brasil.
D. Miguel I (1802–1866)
Morreu: aos 64 anos, provavelmente devido a enfarte do miocárdio ou edema pulmonar.
Sepultura: São Vicente de Fora.
D. Maria II (1819–1853)
Conhecida como “A Educadora”.
Morreu: aos 34 anos, durante o parto do seu 11.º filho.
Sepultura: São Vicente de Fora.
D. Pedro V (1837–1861)
Um dos monarcas mais admirados do século XIX.
Morreu: aos 24 anos, vítima de febre tifóide.
Sepultura: São Vicente de Fora.
D. Luís I (1838–1889)
Morreu: aos 50 anos, devido a neurossífilis.
Sepultura: São Vicente de Fora.
D. Carlos I (1863–1908)
Assassinado no Regicídio de 1908, no Terreiro do Paço.
Morreu: aos 44 anos.
Sepultura: São Vicente de Fora.
D. Manuel II (1889–1932)
Último rei de Portugal.
Após a Implantação da República viveu exilado em Inglaterra.
Morreu: aos 42 anos, devido a edema da laringe.
Sepultura: Panteão Real de São Vicente de Fora.
Os grandes panteões da monarquia portuguesa
Os reis portugueses encontram-se distribuídos por alguns dos monumentos mais importantes do património nacional:
- Mosteiro de Santa Cruz (Coimbra) — primeiros reis de Portugal.
- Mosteiro de Alcobaça — túmulos de vários monarcas da Dinastia Afonsina.
- Mosteiro da Batalha — panteão da Dinastia de Avis.
- Mosteiro dos Jerónimos — repousam os reis do período áureo dos Descobrimentos.
- Panteão Real de São Vicente de Fora — principal mausoléu da Casa de Bragança.
- Basílica da Estrela — túmulo de D. Maria I.
- El Escorial (Espanha) — reis da Dinastia Filipina.
- Monumento à Independência (São Paulo, Brasil) — D. Pedro IV.
O legado eterno dos reis de Portugal
Cada túmulo guarda muito mais do que restos mortais. Guarda capítulos decisivos da construção de Portugal.
Alguns destes monarcas fundaram cidades, consolidaram fronteiras, promoveram universidades, expandiram o império além-mar ou enfrentaram guerras que mudaram o rumo da História. Outros ficaram ligados a tragédias, conspirações ou episódios que continuam a alimentar lendas e debates entre historiadores.
Visitar os locais onde repousam os reis de Portugal é também percorrer quase nove séculos da história nacional. Dos claustros românicos de Coimbra ao majestoso Mosteiro dos Jerónimos, passando pelo Mosteiro da Batalha ou pelo Panteão Real de São Vicente de Fora, cada monumento preserva a memória daqueles que ajudaram a construir o país que hoje conhecemos.
Fonte de datas: Cronologia dos Reis de Portugal da Casa Real Portuguesa.




