Com a chegada do verão, das festas populares, festivais, romarias e encontros entre familiares e amigos, aumenta também o consumo de bebidas alcoólicas. Paralelamente, regressam os velhos mitos sobre alegados truques capazes de “enganar” o alcoolímetro ou reduzir rapidamente a taxa de alcoolemia antes de um controlo policial.
Apesar de estas crenças circularem há décadas, a realidade científica mantém-se inalterada: não existe qualquer método milagroso para eliminar rapidamente o álcool do organismo. Beber água, tomar café, mascar pastilhas elásticas, comer rebuçados de menta ou recorrer a outros truques populares não altera o resultado de um teste de alcoolemia.
Segundo o El Motor, portal espanhol especializado no setor automóvel, a Guardia Civil voltou a alertar para a persistência destes falsos conselhos, que continuam a ser partilhados nas redes sociais e entre condutores. A mensagem das autoridades é clara: a única forma de garantir um resultado negativo num teste de álcool é não conduzir depois de consumir bebidas alcoólicas.
Água e café não aceleram a eliminação do álcool
Entre os mitos mais difundidos está a ideia de que beber grandes quantidades de água ajuda o organismo a eliminar mais depressa o álcool.
Embora a hidratação seja importante para minimizar alguns efeitos da desidratação provocada pelo consumo de bebidas alcoólicas, não reduz a concentração de álcool presente no sangue.
O álcool é absorvido rapidamente pelo organismo e a sua eliminação depende quase exclusivamente do trabalho do fígado, que o metaboliza a um ritmo relativamente constante. Este processo biológico não pode ser acelerado pela ingestão de água ou qualquer outra bebida.
O mesmo acontece com o café.
É verdade que a cafeína pode proporcionar uma sensação temporária de maior estado de alerta, levando algumas pessoas a acreditarem que recuperaram totalmente as suas capacidades. Contudo, essa sensação é enganadora. O álcool continua presente no organismo e continua a afetar os reflexos, a coordenação motora, a visão, a concentração e a capacidade de tomar decisões.
Em consequência, um condutor pode sentir-se desperto e, ainda assim, apresentar uma taxa de alcoolemia acima do limite legal.
Pastilhas, rebuçados e truques para o hálito não enganam o alcoolímetro
Outro dos erros mais comuns consiste em acreditar que mascar pastilhas elásticas, comer rebuçados de menta ou mastigar grãos de café pode influenciar o resultado do teste. Estas práticas podem apenas alterar temporariamente o odor do hálito. Contudo, o alcoolímetro não mede o cheiro da boca.
O equipamento analisa a concentração de álcool presente no ar expirado pelos pulmões, que está diretamente relacionada com a quantidade de álcool existente na corrente sanguínea. Assim, qualquer tentativa de disfarçar o hálito revela-se completamente inútil para alterar o resultado.
Correr, suar ou beber leite também são falsos remédios
Existem ainda crenças segundo as quais correr, praticar exercício físico intenso ou provocar transpiração ajuda a eliminar rapidamente o álcool.
Outros defendem que beber leite ou ingerir azeite antes de consumir bebidas alcoólicas cria uma espécie de proteção no estômago que impede a absorção do álcool.
Segundo a Guardia Civil, nenhuma destas práticas possui qualquer fundamento científico.
Embora alguns alimentos possam atrasar ligeiramente a absorção do álcool quando ingeridos antes da bebida, não impedem que este entre na circulação sanguínea nem reduzem a taxa de alcoolemia após o consumo.
Também circularam ao longo dos anos recomendações insólitas, como chupar moedas de cobre, mascar erva aromática ou controlar a respiração durante o teste.
Além de não produzirem qualquer efeito, algumas destas práticas podem colocar a saúde em risco ou transmitir uma falsa sensação de segurança, incentivando decisões potencialmente perigosas.
O álcool começa a fazer efeito poucos minutos após o consumo
Depois de ingerida uma bebida alcoólica, o organismo inicia rapidamente o processo de absorção.
Em poucos minutos, o álcool já pode ser detetado no sangue e, regra geral, atinge a concentração máxima entre 30 minutos e uma hora e meia, dependendo de vários fatores.
A partir desse momento, inicia-se um processo lento de metabolização realizado essencialmente pelo fígado.
Ao contrário do que muitos imaginam, este mecanismo não pode ser acelerado através de cafés, banhos frios, caminhadas, água ou suplementos.
É simplesmente uma questão de tempo.
Cada organismo reage de forma diferente
Não existe uma fórmula universal que permita calcular quanto tempo demora o organismo a eliminar totalmente o álcool.
Esse período varia significativamente consoante diversos fatores, entre eles:
- quantidade de álcool ingerida;
- peso corporal;
- idade;
- sexo;
- metabolismo individual;
- alimentação;
- velocidade de consumo das bebidas;
- estado geral de saúde.
Por esse motivo, esperar apenas uma ou duas horas depois de beber não garante, de forma alguma, que a taxa de alcoolemia esteja abaixo dos limites legais ou que o condutor tenha recuperado plenamente as suas capacidades.
Mais importante ainda, sentir-se bem não significa estar apto para conduzir.
O álcool compromete funções essenciais muito antes de provocar sintomas evidentes de embriaguez.
O álcool continua entre as principais causas de acidentes mortais
As autoridades rodoviárias continuam a alertar para o impacto do álcool na sinistralidade.
De acordo com dados divulgados pela Dirección General de Tráfico (DGT), citados pelo El Motor, o consumo de álcool está associado a entre 30% e 50% dos acidentes rodoviários com vítimas mortais.
Mesmo pequenas quantidades podem aumentar significativamente o risco de acidente, reduzindo a capacidade de reação perante um imprevisto, aumentando o tempo de resposta e diminuindo a perceção do perigo.
Por isso, cada decisão de conduzir depois de beber representa um risco não apenas para o próprio condutor, mas também para passageiros, peões e restantes utilizadores da estrada.
Percursos curtos também podem terminar em tragédia
Outro dos erros frequentes consiste em pensar que uma viagem de poucos quilómetros não representa perigo.
É precisamente durante deslocações curtas — muitas vezes entre o restaurante, a festa ou o local de convívio e a residência — que acontecem inúmeros acidentes relacionados com o consumo de álcool.
A familiaridade com o percurso pode aumentar excessivamente a confiança do condutor, levando-o a subestimar os efeitos da bebida e a assumir riscos desnecessários.
As autoridades recordam que muitos acidentes graves ocorrem precisamente perto do ponto de partida ou do destino final.
A única taxa verdadeiramente segura continua a ser 0,0
Embora a legislação estabeleça limites legais para a taxa de álcool no sangue, especialistas em segurança rodoviária recordam que qualquer quantidade de álcool pode afetar a capacidade de condução.
Mesmo abaixo do limite permitido, a atenção, os reflexos, a perceção das distâncias e a capacidade de decisão podem ficar comprometidos.
Por isso, a recomendação continua a ser simples, clara e inalterável:
Se consumiu bebidas alcoólicas, não conduza.
Sempre que possível, opte por um táxi, transporte público, aplicações de mobilidade, um familiar ou amigo que não tenha bebido, ou deixe o veículo estacionado até estar completamente sóbrio.
No final, a decisão mais segura não protege apenas quem conduz. Pode também salvar vidas, sublinha o Postal.




