O mundo poderá estar prestes a enfrentar um dos fenómenos climáticos mais intensos alguma vez registados. Diversos especialistas internacionais alertam que o próximo episódio de El Niño poderá tornar-se o mais forte da história moderna, potenciando ondas de calor extremas, secas prolongadas, incêndios florestais de grandes dimensões e fenómenos meteorológicos severos em várias regiões do planeta.
Apesar da gravidade das previsões, os cientistas fazem questão de deixar uma mensagem clara: não existe motivo para entrar em pânico, mas há razões para acompanhar atentamente a evolução do clima e reforçar as medidas de adaptação às alterações climáticas, refere o Euronews.
Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), os sinais observados no Oceano Pacífico indicam que um novo episódio de El Niño está em desenvolvimento e poderá ganhar força ao longo dos próximos meses.
O que é o fenómeno El Niño?
O El Niño é um fenómeno climático natural que resulta do aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial.
Este aquecimento altera profundamente a circulação atmosférica global, modificando os padrões de vento, precipitação e temperatura em praticamente todos os continentes.
O fenómeno oposto chama-se La Niña, caracterizando-se pelo arrefecimento das águas do Pacífico e produzindo efeitos climáticos distintos.
Habitualmente, o El Niño ocorre entre cada dois e sete anos e pode prolongar-se durante cerca de nove a doze meses.
Porque poderá este episódio ser tão intenso?
Os investigadores acreditam que as atuais condições do Pacífico são excecionais.
Segundo o climatologista Daniel Swain, do California Institute for Water Resources, os grandes volumes de água invulgarmente quente acumulados nas camadas profundas do oceano são dos mais elevados alguma vez registados.
Estas massas de água estão agora a deslocar-se para a superfície, alimentando o desenvolvimento do fenómeno. Embora ainda não seja possível garantir que este venha a ser oficialmente um “super El Niño”, os especialistas reconhecem que existem condições favoráveis para um episódio de enorme intensidade.
Alterações climáticas poderão agravar os efeitos
O El Niño é um fenómeno natural.
Contudo, o planeta encontra-se atualmente muito mais quente devido ao aquecimento global provocado pelas atividades humanas.
Esta combinação preocupa os cientistas.
Segundo o meteorologista Jeff Berardelli, o calor adicional acumulado no sistema climático poderá potenciar fenómenos meteorológicos nunca antes observados em tempos modernos.
Entre os efeitos esperados destacam-se:
- ondas de calor mais intensas;
- secas prolongadas;
- precipitação extrema;
- cheias repentinas;
- alterações nos padrões de circulação atmosférica;
- aumento dos fenómenos meteorológicos severos.
Incêndios florestais poderão agravar-se
Um dos maiores receios prende-se com o aumento do risco de incêndios florestais.
Segundo investigadores do Imperial College London, um El Niño muito forte poderá criar condições extremamente favoráveis à propagação de grandes incêndios em diversas regiões do mundo.
O aumento das temperaturas, associado à redução da humidade em determinadas zonas, favorece:
- vegetação mais seca;
- propagação rápida das chamas;
- épocas de incêndios mais prolongadas;
- maior dificuldade no combate ao fogo.
Os dados mais recentes mostram que, apenas este ano, mais de 150 milhões de hectares já foram consumidos por incêndios florestais em todo o planeta.
O impacto vai muito além das chamas
Os incêndios florestais não representam apenas um risco direto para quem vive nas zonas afetadas.
O fumo libertado pode percorrer centenas ou milhares de quilómetros, deteriorando significativamente a qualidade do ar.
As partículas finas produzidas pelos incêndios estão associadas a:
- doenças respiratórias;
- problemas cardiovasculares;
- aumento das hospitalizações;
- mortalidade prematura.
Os especialistas recordam que os incêndios australianos de 2019 provocaram dezenas de mortes diretas, mas centenas de vítimas adicionais devido aos efeitos do fumo.
Calor global poderá atingir novos recordes
Outro dos cenários mais prováveis é o estabelecimento de novos recordes de temperatura à escala mundial.
O excesso de calor libertado pelo Pacífico poderá juntar-se ao aquecimento provocado pelas emissões de gases com efeito de estufa, elevando ainda mais a temperatura média global.
Os climatologistas admitem que os próximos meses e o próximo ano possam tornar-se os mais quentes desde que existem registos instrumentais.
Que impactos poderão ocorrer em diferentes regiões?
Embora seja impossível prever todos os efeitos com precisão, os especialistas apontam para alterações importantes em diversas partes do planeta.
Poderão verificar-se:
- ondas de calor persistentes na América do Norte;
- secas severas nas Caraíbas;
- alterações na época dos furacões no Atlântico;
- aumento das chuvas intensas em determinadas regiões;
- agravamento da degradação da Amazónia;
- maior instabilidade meteorológica em várias zonas tropicais.
Cada país poderá sentir impactos diferentes consoante a interação entre o El Niño e os restantes sistemas atmosféricos.
Portugal será afetado?
Os efeitos do El Niño em Portugal tendem a ser indiretos e variáveis.
O fenómeno não provoca automaticamente secas, ondas de calor ou tempestades no território nacional.
Ainda assim, diversos estudos indicam que pode influenciar os padrões atmosféricos europeus, alterando a distribuição das temperaturas e da precipitação.
O acompanhamento permanente por parte do IPMA continuará a ser essencial para avaliar eventuais impactos no país.
Não é motivo para pânico, dizem os cientistas
Apesar das previsões preocupantes, a comunidade científica insiste numa mensagem de equilíbrio.
A professora Friederike Otto, especialista em Ciências Climáticas do Imperial College London, lembra que o El Niño é um fenómeno natural que faz parte do funcionamento normal do sistema climático.
O verdadeiro desafio, afirma, reside nas alterações climáticas provocadas pela ação humana.
Enquanto o El Niño desaparece naturalmente ao fim de alguns meses, o aquecimento global continuará a agravar-se enquanto persistirem elevadas emissões de gases com efeito de estufa.
A preocupação deve centrar-se no futuro do planeta
Segundo vários investigadores internacionais, o problema não é apenas o próximo El Niño.
O maior risco resulta da combinação entre fenómenos naturais e um planeta progressivamente mais quente.
Os cientistas defendem que a redução da utilização de combustíveis fósseis continua a ser a medida mais importante para limitar o agravamento das alterações climáticas.
Apesar dos avanços tecnológicos e do crescente conhecimento científico, muitos especialistas consideram que os compromissos internacionais continuam aquém do necessário para travar o aquecimento global.
Preparação e adaptação serão fundamentais
Independentemente da intensidade que o próximo El Niño venha a atingir, os especialistas concordam que investir em sistemas de previsão, proteção civil, gestão florestal, recursos hídricos e adaptação climática será decisivo.
O fenómeno poderá representar mais um teste à capacidade das sociedades responderem a um clima cada vez mais extremo.
A boa notícia é que existe hoje um conhecimento científico muito superior ao de décadas anteriores, permitindo antecipar riscos, reforçar medidas preventivas e proteger melhor as populações perante um cenário climático em rápida transformação.




