Chamadas desconhecidas, publicidade indesejada, burlas telefónicas e esquemas com inteligência artificial estão a mudar a forma como atendemos o telefone. Descubra os cinco motivos para ter mais cautela, saiba identificar sinais de perigo e conheça as medidas que ajudam a proteger os seus dados e o seu dinheiro.
O telemóvel toca. No ecrã aparece um número que não conhece. Durante alguns segundos, hesita: será uma chamada importante, uma oportunidade de trabalho, um familiar a utilizar outro número ou mais uma tentativa de vender um serviço de que não precisa?
Há alguns anos, uma chamada inesperada podia despertar curiosidade. Hoje, para muitas pessoas, o primeiro impulso é a desconfiança. As chamadas comerciais insistentes, as gravações automáticas e as notícias sobre burlas telefónicas fizeram com que atender um número desconhecido deixasse de ser um gesto tão inocente como parecia.
E existem motivos para ter cautela. Os burlões podem fazer-se passar por funcionários bancários, autoridades públicas ou familiares em dificuldades. Alguns utilizam números de telefone falsificados para que a chamada pareça legítima. Outros recorrem a gravações e a tecnologias de inteligência artificial para tornar as suas histórias mais convincentes.
Em Portugal, o problema é suficientemente sério para justificar alertas das próprias autoridades. Em junho de 2026, a ANACOM divulgou um aumento de queixas relacionadas com chamadas fraudulentas em que os interlocutores se faziam passar por agentes da Autoridade, recorrendo à falsificação do número de origem, uma técnica conhecida como spoofing. Consulte o alerta da ANACOM sobre chamadas fraudulentas.
Mas será que devemos deixar de atender todas as chamadas de números desconhecidos? Não necessariamente. O importante é reconhecer os riscos, saber quando desligar e nunca permitir que a pressão de uma conversa nos leve a tomar decisões precipitadas.
Conheça cinco motivos para pensar duas vezes antes de atender o telemóvel e descubra como agir sem deixar que o medo condicione as suas comunicações.
1. Chamadas de spam: o toque que interrompe o dia
Uma das razões mais comuns para evitar chamadas desconhecidas é a publicidade telefónica indesejada.
Quem nunca recebeu uma chamada durante o trabalho, enquanto estava a almoçar ou precisamente no momento em que tentava descansar? Do outro lado, surge frequentemente uma proposta comercial, uma oferta aparentemente imperdível ou uma gravação que convida a carregar numa tecla para continuar a conversa.
Algumas destas chamadas têm origem em campanhas comerciais legítimas. Outras podem estar associadas a sistemas automatizados, tentativas de recolha de dados ou esquemas fraudulentos. O problema está na dificuldade em distinguir imediatamente uma situação da outra.
Porque é que recebe tantas chamadas desconhecidas?
Os sistemas automatizados permitem efetuar chamadas em grande escala. Algumas campanhas recorrem a números diferentes, enquanto determinadas operações fraudulentas utilizam números falsificados para esconder a verdadeira origem do contacto.
Quando uma chamada fica silenciosa ou termina logo depois de ser atendida, pode existir uma explicação técnica relacionada com sistemas automáticos de marcação ou falhas de ligação. Porém, esse comportamento, por si só, não prova que o número esteja a ser testado para futuras burlas.
O mais prudente é observar o contexto e evitar devolver chamadas suspeitas sem verificar a sua origem.
Como reduzir as chamadas indesejadas?
Pode ativar os filtros de chamadas disponíveis no telemóvel, utilizar as ferramentas de identificação de spam da operadora ou encaminhar números desconhecidos para o correio de voz, quando essa funcionalidade estiver disponível.
Se não estiver à espera de uma chamada importante, também pode deixar o telefone tocar e verificar se a pessoa envia uma mensagem ou deixa informação que permita confirmar a sua identidade.
No entanto, não assuma que todas as chamadas comerciais são fraudulentas nem que todos os números desconhecidos representam um perigo. A cautela deve servir para tomar melhores decisões, não para criar uma suspeita permanente sobre qualquer contacto.
2. Burlas telefónicas: quando a pessoa do outro lado não é quem diz ser
Este é um dos riscos mais importantes.
As burlas telefónicas, também conhecidas como vishing quando envolvem técnicas de manipulação para obter informações ou provocar ações fraudulentas, exploram frequentemente o medo, a urgência e a confiança.
O interlocutor pode apresentar-se como funcionário de um banco, representante de uma autoridade, técnico de uma empresa ou agente policial. Depois, inventa um problema que exige uma resposta imediata.
Pode afirmar que a conta bancária está comprometida, que existe uma investigação em curso ou que o número de telemóvel será bloqueado caso não cumpra determinadas instruções.
A história muda, mas o objetivo pode ser o mesmo: conseguir dados pessoais, credenciais de acesso, códigos de autenticação ou uma transferência de dinheiro.
O falso funcionário do banco
Imagine receber uma chamada de alguém que afirma ter detetado uma transferência suspeita na sua conta. A pessoa conhece o seu nome e demonstra estar familiarizada com procedimentos bancários. Parece credível e transmite urgência.
O interlocutor pede-lhe que abra a aplicação do banco, forneça um código recebido por SMS ou transfira o dinheiro para uma alegada conta segura.
Este é um sinal de alerta grave. Não forneça códigos de autenticação, palavras-passe nem dados bancários numa chamada inesperada. Nunca transfira dinheiro para supostamente o proteger por indicação de alguém que lhe telefonou.
Desligue e contacte o banco através da aplicação oficial, do número indicado no cartão bancário ou de outro contacto que já saiba ser legítimo.
A Polícia Judiciária tem divulgado alertas sobre esquemas de vishing em que os criminosos se fazem passar por autoridades e convencem as vítimas de que precisam de transferir o saldo bancário para contas alegadamente seguras. Leia o alerta da Polícia Judiciária sobre burlas através de chamadas telefónicas.
O perigo de confiar no número que aparece no ecrã
Há um detalhe que torna estes esquemas particularmente preocupantes: o número apresentado no telemóvel não é uma garantia absoluta da identidade de quem telefona.
A técnica de spoofing permite manipular a identificação de origem da chamada para fazer parecer que o contacto vem de um número diferente daquele que está efetivamente a ligar.
Foi precisamente esta técnica que esteve na origem dos alertas divulgados pela ANACOM em 2026, quando cidadãos receberam chamadas de pessoas que se identificavam falsamente como colaboradores da Autoridade.
Por isso, mesmo que o número apresentado pareça pertencer a uma instituição conhecida, confirme a identidade do interlocutor através de um canal independente.
3. Clonagem de voz com inteligência artificial: o perigo das falsas emergências
A inteligência artificial trouxe possibilidades extraordinárias, mas também abriu novas oportunidades para os burlões.
Uma das mais preocupantes é a clonagem de voz. Com uma amostra de áudio, determinadas ferramentas conseguem produzir uma voz artificial que se aproxima da voz de uma pessoa real.
Os criminosos podem aproveitar gravações disponíveis nas redes sociais, vídeos públicos ou outros conteúdos para imitar familiares, amigos ou responsáveis de empresas.
A chamada pode parecer assustadoramente convincente.
«Mãe, preciso de dinheiro imediatamente!»
Imagine receber uma chamada de alguém cuja voz parece ser exatamente a de um filho ou de uma filha. A pessoa afirma estar em apuros, pede ajuda urgente e insiste que precisa de dinheiro imediatamente.
Em situações destas, o receio pode ser tão intenso que a vítima acaba por agir antes de confirmar se a história é verdadeira.
O esquema pode envolver um alegado acidente, uma detenção, uma emergência médica ou a perda do telemóvel.
A Federal Trade Commission, dos Estados Unidos, alerta que os burlões podem utilizar inteligência artificial para imitar a voz de familiares e tornar pedidos fraudulentos de dinheiro mais convincentes. A recomendação é contactar diretamente a pessoa através de um número que já conheça e confirmar a história antes de agir. Saiba como reconhecer burlas baseadas em falsas emergências familiares.
Uma palavra pode permitir clonar a sua voz?
Circula há vários anos um alerta segundo o qual nunca se deve atender uma chamada a dizer «sim», porque os burlões podem gravar essa palavra e utilizá-la para clonar a voz ou aceder automaticamente às contas bancárias.
É importante separar os factos do alarmismo.
Não existe fundamento para afirmar que uma simples gravação da palavra «sim», por si só, permite clonar a voz de alguém ou aceder às suas contas bancárias. A clonagem de voz por inteligência artificial é uma ameaça real, mas depende das ferramentas utilizadas e da quantidade e qualidade do áudio disponível. Uma palavra isolada não deve ser confundida com uma chave universal que abre as contas da vítima.
Isto não significa que deva responder a perguntas suspeitas ou aceitar condições que não compreende. Algumas campanhas fraudulentas procuram obter respostas, identificar pessoas que atendem ou recolher informação para futuras tentativas.
A regra mais útil é evitar divulgar informações pessoais, não aceitar propostas pouco claras e desligar perante perguntas insistentes ou comportamentos suspeitos.
Como confirmar se a chamada de um familiar é verdadeira?
Se receber um pedido inesperado de dinheiro, mesmo que a voz pareça autêntica, não faça transferências imediatamente.
Desligue e telefone à pessoa para o número que já tem guardado. Se não conseguir contactá-la, procure outro familiar ou amigo que possa confirmar a situação.
Pode também combinar antecipadamente uma palavra de segurança familiar para situações excecionais, mas não dependa exclusivamente desse método.
Acima de tudo, não deixe que a urgência, o medo ou a pressão impeçam a verificação dos factos.
4. Aplicações e filtros de chamadas: ajudam, mas não são infalíveis
Existem ferramentas que identificam chamadas potencialmente indesejadas, bloqueiam números conhecidos por spam ou permitem silenciar contactos que não estão guardados na agenda.
Aplicações de identificação de chamadas e funcionalidades integradas em diferentes marcas de telemóveis podem ajudar a reduzir as interrupções e a reconhecer alguns números suspeitos.
No entanto, nenhuma destas soluções garante proteção absoluta.
Porque é que os filtros podem falhar?
Os burlões podem mudar frequentemente de número ou falsificar a identificação da chamada. Um contacto ainda não identificado pela aplicação pode, por isso, escapar ao filtro.
Também pode acontecer o contrário: uma chamada legítima ser identificada incorretamente como suspeita.
É igualmente importante ter cuidado com as permissões solicitadas pelas aplicações. Antes de instalar um serviço de identificação de chamadas, confirme que é legítimo, leia as condições de utilização e avalie se as permissões pedidas são compatíveis com a finalidade da ferramenta.
O que pode fazer no seu telemóvel?
Comece pelas opções já disponíveis no equipamento ou junto da sua operadora. Pode ativar a identificação de spam, bloquear números específicos e silenciar chamadas de contactos desconhecidos, se a funcionalidade existir no seu modelo.
Se utilizar uma aplicação externa, mantenha-a atualizada e reveja periodicamente as permissões concedidas.
Lembre-se, contudo, de que os avisos apresentados no ecrã são apenas indicadores. Um número marcado como suspeito merece cautela, mas a ausência de um aviso não comprova que a chamada seja legítima.
A melhor proteção combina tecnologia com comportamentos seguros: verificar a identidade de quem telefona, evitar partilhar dados e nunca realizar operações financeiras sob pressão.
5. A chamada inesperada também é uma questão de tempo e privacidade
Nem todas as razões para evitar uma chamada desconhecida estão relacionadas com fraude.
Uma chamada telefónica interrompe aquilo que está a fazer e exige atenção imediata. Ao contrário de uma mensagem, não permite escolher livremente o momento da resposta nem preparar antecipadamente o que pretende dizer.
Para quem está a trabalhar, a conduzir, a cuidar de crianças ou simplesmente a descansar, esta interrupção pode ser incómoda.
Além disso, nem todas as pessoas preferem a comunicação por telefone. Algumas sentem-se mais confortáveis com mensagens escritas, que permitem responder quando têm disponibilidade e conservar um registo da conversa.
Não tem de atender todas as chamadas
É perfeitamente legítimo estabelecer limites à sua disponibilidade.
Pode deixar uma chamada desconhecida seguir para o correio de voz, verificar se existe uma mensagem ou responder por escrito quando for conveniente.
Se estiver à espera de uma chamada de uma entidade pública, de um hospital, de um empregador ou de outro contacto importante, convém manter maior atenção às chamadas desconhecidas. Algumas instituições utilizam números diferentes dos que aparecem nos seus sites ou em contactos anteriores.
Nestes casos, o mais sensato é verificar a identidade do interlocutor, sem ignorar automaticamente todos os números que não conhece.
A ideia não é deixar de comunicar. É recuperar o controlo sobre o momento, a forma e as condições em que aceita uma conversa.
Como agir perante uma chamada suspeita: regras essenciais
Não precisa de decorar uma lista interminável de sinais de perigo. Existem alguns cuidados simples que ajudam a reduzir o risco de fraude.
Não forneça dados pessoais ou bancários. Não partilhe palavras-passe, códigos recebidos por SMS, códigos de autenticação ou outros elementos de segurança numa chamada inesperada.
Desconfie da urgência excessiva. Ameaças de prisão imediata, bloqueio de contas, perda de benefícios ou consequências graves se desligar são sinais de alerta, sobretudo quando acompanhadas por pedidos de dinheiro ou informação.
Não transfira dinheiro para contas indicadas por desconhecidos. Nenhuma alegação de segurança deve ser aceite sem verificação independente.
Desligue e confirme a identidade do interlocutor. Utilize a aplicação oficial, o site da instituição ou um número de contacto que já saiba ser legítimo. Não se limite a devolver a chamada para o número apresentado no ecrã.
Verifique os pedidos de familiares. Se alguém disser que está em perigo e precisar de dinheiro, contacte diretamente a pessoa ou outro familiar antes de agir.
Evite carregar em teclas ou seguir instruções automáticas suspeitas. Se uma gravação anunciar alegadas infrações e pedir que carregue numa tecla para falar com uma autoridade, não prossiga sem verificar a legitimidade do contacto.
Guarde informação relevante. Se suspeitar de uma tentativa de fraude, registe o número apresentado, a data, a hora e o conteúdo da chamada, quando for possível fazê-lo em segurança. Não volte a contactar o suspeito apenas para tentar obter mais informação.
E se já tiver atendido uma chamada suspeita?
Atender uma chamada desconhecida não significa, por si só, que tenha sido vítima de uma fraude.
Se apenas atendeu e desligou sem fornecer dados, seguir instruções ou realizar operações, não há motivo para presumir automaticamente que as suas contas ou a sua identidade estão comprometidas.
Se, por outro lado, partilhou códigos, palavras-passe, dados bancários ou autorizou uma operação, deve agir rapidamente.
Contacte o seu banco através dos canais oficiais se existir risco para a conta ou se tiver autorizado uma transferência que agora considera suspeita. Altere as credenciais comprometidas a partir de um dispositivo seguro, se necessário, e siga as instruções da instituição.
Se foi vítima de uma burla ou recebeu uma tentativa de fraude, pode comunicar a situação às autoridades policiais. A Polícia Judiciária disponibiliza informação sobre crimes e formas de contacto no seu site oficial.
Consulte o site oficial da Polícia Judiciária.
Conclusão: atender ou não atender? A decisão deve ser sua
Atender o telemóvel não é, por si só, um comportamento perigoso. O risco surge quando uma chamada é utilizada para manipular, obter dados pessoais, induzir transferências financeiras ou levar alguém a tomar decisões sem verificar os factos.
O spam telefónico pode ser incómodo, o vishing é uma ameaça real e a clonagem de voz por inteligência artificial merece atenção. Os filtros ajudam, mas não são infalíveis. E, mesmo quando não existe fraude, ninguém é obrigado a estar permanentemente disponível para atender todas as chamadas.
A melhor estratégia não consiste em viver desconfiado de qualquer número desconhecido. Consiste em manter a calma, reconhecer os sinais de alerta e verificar a identidade de quem telefona antes de partilhar informação ou tomar decisões importantes.
Se a chamada for legítima, poderá normalmente confirmar o contacto por outra via. Se for uma tentativa de burla, desligar e verificar os factos pode ser precisamente o passo que impede o prejuízo.
E por aí, costuma atender chamadas de números desconhecidos ou prefere deixá-las tocar? Partilhe a sua experiência e conte-nos quais são os sinais que o levam a desconfiar de uma chamada.
Links oficiais e leitura recomendada
- ANACOM — alerta sobre chamadas fraudulentas e falsificação do número de origem
- Polícia Judiciária — como funciona uma burla através de vishing
- CNCS/CERT.PT — alerta sobre chamadas fraudulentas com gravações automáticas
- Federal Trade Commission — burlas com falsas emergências e clonagem de voz
- Federal Trade Commission — como agir perante chamadas inesperadas que alegam problemas com o seu dinheiro




