Conheça a incrível história de Luciano das Ratas, o homem que combateu milhares de roedores nos esgotos de Lisboa e se tornou uma celebridade. Quando se fala das grandes figuras da História de Portugal, é natural recordar reis, navegadores, escritores, militares ou cientistas que marcaram o destino do país. No entanto, existem personagens muito menos conhecidas que, apesar de desempenharem funções absolutamente improváveis, conquistaram fama, respeito e até um lugar especial na memória coletiva do seu tempo.
Uma dessas figuras foi Luciano Moreira, eternizado pela alcunha que atravessou gerações: “Luciano das Ratas”.
Num período em que Lisboa enfrentava uma das maiores ameaças sanitárias da Europa, este homem dedicou a vida a combater um inimigo invisível que se escondia nos esgotos da capital. Durante anos, percorreu quilómetros de galerias subterrâneas, enfrentando a escuridão, a insalubridade e milhares de ratos que poderiam transportar doenças mortais.
Hoje, poucos conhecem a sua história. Mas, há mais de um século, era uma das figuras mais populares de Lisboa.
Quem foi Luciano das Ratas?
Luciano Moreira nasceu a 29 de dezembro de 1859, no histórico bairro de Cedofeita, no Porto.
Era filho de António Miguel, antigo soldado natural de Valpaços, e de Ana Margarida, oriunda de Guimarães.
Desde muito jovem revelou um espírito aventureiro.
Ainda adolescente abandonou a casa paterna e embarcou num paquete, iniciando uma vida de viagens que lhe permitiu conhecer vários países e aprender diferentes idiomas.
Segundo relatos da época, dominava:
- Francês;
- Inglês;
- Espanhol;
- Algumas noções de italiano.
Muito antes de se tornar conhecido em Lisboa, trabalhou em diversas profissões, incluindo a de pedreiro.
No entanto, os baixos rendimentos levaram-no a aceitar um trabalho que praticamente ninguém queria desempenhar.
Essa decisão mudaria completamente a sua vida.
A peste bubónica colocou Lisboa em alerta
No final do século XIX, Portugal enfrentava uma enorme preocupação sanitária.
A peste bubónica, uma das doenças mais devastadoras da História, reaparecera na Europa.
O surto iniciado no Porto gerou enorme receio de propagação à capital.
Na época, sabia-se que as pulgas transportadas por ratos e ratazanas desempenhavam um papel importante na transmissão da doença.
As autoridades decidiram então atacar o problema pela raiz.
Foi nesse contexto que Luciano foi contratado para desempenhar uma missão praticamente impensável.
O homem que caçava ratos nos esgotos
Em 1899, Luciano passou a integrar um serviço municipal com uma função muito específica:
Eliminar os ratos existentes na extensa rede de esgotos de Lisboa.
Não existiam equipamentos modernos.
Não havia pesticidas sofisticados.
Muito menos existiam sistemas automáticos de controlo de pragas.
Luciano descia diariamente aos túneis subterrâneos armado apenas com um forte cacete e uma enorme coragem.
As galerias construídas após o Terramoto de 1755 apresentavam cerca de:
- 2,5 metros de altura;
- 2 metros de largura.
Era nesse ambiente escuro, húmido e insalubre que enfrentava milhares de roedores.
Grande parte dos animais era abatida manualmente.
Uma tarefa extremamente perigosa.
Mais de 100 mil ratos abatidos
Ao longo de apenas sete anos, Luciano terá eliminado mais de 100 mil ratos e ratazanas, segundo os números divulgados pela imprensa da época.
Recebia aproximadamente 20 réis por cada animal abatido, sendo obrigado a apresentar provas do trabalho realizado para receber o pagamento.
Rapidamente os jornais começaram a acompanhar a sua atividade.
O seu desempenho transformou-o numa personagem conhecida por praticamente todos os lisboetas.
A alcunha “Luciano das Ratas” tornou-se inseparável da sua identidade.
Uma celebridade improvável
No início do século XX, Luciano era presença frequente nas páginas dos principais jornais portugueses.
O dramaturgo João da Câmara escreveu sobre ele na revista O Ocidente, afirmando que:
“Na ordem do dia está o Luciano das ratas.”
Também o escritor Júlio Castilho o descreveu como uma verdadeira celebridade municipal.
Num país onde as figuras públicas eram normalmente políticos, militares ou intelectuais, Luciano conseguiu tornar-se famoso graças a um trabalho que quase ninguém estava disposto a realizar.
Nem a fama resolveu os problemas financeiros
Apesar da enorme notoriedade pública, a sua situação económica continuava extremamente difícil.
Os pagamentos prometidos pelas autoridades nem sempre chegavam.
Em várias ocasiões, Luciano recorreu a deputados e antigos ministros para reclamar os valores que lhe eram devidos.
Entre os políticos que defenderam a sua causa destacou-se José Bento Ferreira de Almeida, que levou o assunto ao Parlamento, defendendo que Luciano prestava um serviço público essencial para a saúde da população.
Mais tarde, também Sebastião Baracho interveio para exigir que o Estado cumprisse os compromissos assumidos.
Descobertas inesperadas nos subterrâneos
O trabalho de Luciano não se limitava à caça aos ratos.
Durante as suas incursões pelos esgotos da cidade encontrava frequentemente:
- Objetos perdidos;
- Peças metálicas;
- Fugas de gás;
- Problemas estruturais nas galerias.
Alguns destes achados eram devolvidos aos proprietários, recebendo pequenas recompensas.
Os jornais acompanhavam regularmente estas descobertas, contribuindo ainda mais para alimentar a fama do improvável herói lisboeta.
Quando os criminosos também habitavam os esgotos
As galerias subterrâneas escondiam outros perigos.
Luciano relatou ter encontrado indivíduos suspeitos a medir os canos, acreditando tratar-se de assaltantes que utilizavam os esgotos para planear crimes.
Após esse episódio passou a fazer-se acompanhar por um homem armado com um revólver para garantir a sua segurança.
A notícia rapidamente chegou às páginas dos jornais, aumentando ainda mais o interesse público pela sua vida.
Também foi “banheiro” das crianças pobres
No verão de 1904, Luciano assumiu uma função completamente diferente, sublinha o Expresso.
Na praia do Cais do Sodré, passou a trabalhar como responsável pelos banhos de centenas de crianças.
Só durante o mês de setembro terá acompanhado cerca de 1.600 crianças.
Recebia entre 20 e 50 réis por cada banho.
No entanto, fazia questão de não cobrar qualquer valor às famílias mais pobres.
Este gesto contribuiu para reforçar a imagem de homem solidário que muitos lisboetas tinham dele.
Consultor contra pragas
A fama de especialista tornou-se tão grande que várias entidades públicas passaram a pedir a sua colaboração.
Quando a Alfândega enfrentou uma grave infestação de roedores, foi Luciano quem foi chamado para avaliar a situação e indicar soluções.
Já não era apenas um exterminador.
Era considerado uma referência nacional no combate às pragas urbanas.
O reconhecimento nunca compensou os sacrifícios
Apesar de toda a notoriedade, Luciano nunca conseguiu alcançar estabilidade financeira.
Os problemas de saúde começaram a agravar-se.
Em janeiro de 1907, foi diagnosticado com tuberculose.
Sensibilizado pela situação, o jornal O Século promoveu uma subscrição pública para ajudar aquele que muitos consideravam um verdadeiro servidor da cidade.
A população respondeu com generosidade.
Infelizmente, a ajuda chegou demasiado tarde.
O fim de uma figura inesquecível
Luciano Moreira faleceu a 24 de junho de 1907.
A sua morte mereceu destaque na imprensa nacional.
O jornal Vanguarda resumiu o sentimento de muitos portugueses numa frase que atravessou o tempo:
“Durante muito tempo foi mais útil do que o franquismo.”
Uma personagem quase esquecida da História de Portugal
Mais de um século depois, poucos conhecem o nome de Luciano das Ratas.
Contudo, a sua história continua a revelar um lado pouco conhecido da Lisboa do início do século XX.
Num período marcado pelo medo das epidemias, pela precariedade das condições sanitárias e pela ausência de muitos dos recursos que hoje consideramos indispensáveis, um homem simples tornou-se símbolo de coragem, perseverança e serviço público.
Sem procurar fama, Luciano Moreira acabou por conquistar um lugar singular na História de Portugal.
A sua vida recorda-nos que nem todos os heróis empunham espadas ou governam nações. Alguns percorrem, silenciosamente, os lugares mais sombrios para proteger a saúde e a vida de milhares de pessoas.




