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Viagem às línguas escondidas nas nossas notas

Vamos dar uma volta pelo nosso continente, à descoberta das línguas que levamos no bolso. Viagem às línguas escondidas nas nossas notas.

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Viagem às línguas escondidas nas nossas notas
Viagem às línguas escondidas nas nossas notas

Viagem às línguas escondidas nas nossas notas

Vamos dar uma volta pelo nosso continente, à descoberta das línguas que levamos no bolso. Viagem às línguas escondidas nas nossas notas.

Marco Neves
Marco Neves

É certo que viajar de avião é cada vez mais barato, mas cinco euros ainda não nos levam a lado nenhum — a não ser que olhemos, com atenção, para a própria nota. Basta isso para darmos uma volta pelo nosso continente, à descoberta das línguas que levamos no bolso.

A nossa moeda chama-se «evro»?

Convido o leitor a fazer este exercício: pegue numa nota de 5 euros da segunda série (emitida ali por volta de 2013). Olhe para o nome da moeda:

Esconde-se aqui, muito sumida, uma velha guerra linguística. Mas, antes, note como o nome da moeda aparece nos três alfabetos usados na União Europeia: o alfabeto latino («EURO»), o alfabeto grego («ΕΥΡΩ») e o alfabeto cirílico («ЕВРО»).

O alfabeto cirílico tem a honra de aparecer na nota porque o búlgaro é uma das línguas oficiais da União. E é precisamente esta a língua que originou a tal guerra linguística.

Explico: por uma questão de uniformização, o nome da moeda escreve-se «euro» em todas as línguas europeias, mesmo que a palavra «Europa» comece doutra maneira. Por exemplo, em letão, o nome do continente é «Eiropa» — mas a moeda não é «eiro». É mesmo «euro», sempre assim, em todas as línguas. Isto também se aplica ao alfabeto grego, onde a transliteração é pacífica: «ευρώ» («euro»), que passa à forma maiúscula «ΕΥΡΩ».

Ora, os búlgaros chamam à Europa o seguinte: «Европа». No nosso alfabeto, a palavra búlgara é: «Evropa». Para um búlgaro, o que faz sentido é chamar à moeda «evro» («eвро») e não «euro».

O Banco Central Europeu e a Comissão Europeia insistiram que o nome búlgaro fosse igual ao nome da moeda em todas as outras línguas da União, mudando apenas o alfabeto: «еуро» (ou seja, em letras latinas, «euro»). Mas, não, os búlgaros bateram o pé: queriam uma moeda com um nome em búlgaro.

Ora, em 2007, em Lisboa, os governos europeus, reunidos, aceitaram por fim esta pequena ruga na uniformidade monetária europeia: o euro é «euro» em toda a União, excepto na Bulgária, onde é «evro».

Tantas línguas no nosso bolso

Avancemos. Pode não acreditar, mas o meu caríssimo leitor tem mais de vinte línguas no bolso. Repare, na sua nota de cinco euros, naquelas letras à esquerda:

Para poupar ao leitor o inclinar da cabeça, aqui fica a transcrição das letrinhas todas:

BCE ECB ЕЦБ EZB EKP ΕΚΤ EKB BĊE EBC

Temos aqui, em rápida sucessão, vinte e três das línguas oficiais da União. Falta uma, mas já lá chegaremos. Antes de mais, reparemos nisto: a União tenta dar a mesma dignidade oficial a todas as línguas oficiais. Ao mesmo tempo, convém poupar tinta. Assim, as línguas em que, por acaso, as três palavras «Banco Central Europeu» começam pelas mesmas letras partilham o espaço na nota. O terreno monetário é caro: não convém desperdiçar.

(cont.)

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