O euro digital está cada vez mais próximo de se tornar uma realidade na Europa, mas ainda há um longo caminho a percorrer antes de chegar ao dia a dia dos cidadãos.
Portugal foi oficialmente escolhido para integrar a próxima fase de testes do euro digital, um dos projetos mais ambiciosos alguma vez desenvolvidos pelo Banco Central Europeu (BCE). A iniciativa pretende preparar uma versão digital da moeda única europeia, que coexistirá com o dinheiro físico e permitirá realizar pagamentos de forma mais rápida, segura e eficiente.
Os primeiros testes arrancam no segundo semestre de 2027, prolongando-se durante cerca de um ano. Durante este período, o objetivo será avaliar o funcionamento da plataforma em ambiente real antes de qualquer decisão definitiva sobre a emissão da nova moeda.
Embora o projeto esteja a avançar, importa esclarecer que o euro digital ainda não estará disponível para o público e continua dependente da aprovação da legislação europeia.
Portugal integra o grupo restrito de países escolhidos
O Banco de Portugal será um dos 19 bancos centrais nacionais do Eurosistema que participarão nesta importante fase experimental.
Em paralelo, três instituições financeiras portuguesas foram selecionadas pelo BCE para colaborar diretamente no piloto:
- Banco Comercial Português (BCP);
- Caixa Geral de Depósitos (CGD);
- UNICRE.
Estas entidades passam agora a integrar um grupo restrito de 36 prestadores europeus de serviços de pagamento, escolhidos para testar as diferentes funcionalidades do futuro euro digital.
A escolha representa um reconhecimento da capacidade tecnológica e operacional do sistema financeiro português.
Qual será o papel do BCP, da Caixa Geral de Depósitos e da UNICRE?
Cada uma das instituições terá responsabilidades distintas durante o projeto. O BCP e a Caixa Geral de Depósitos atuarão simultaneamente como distribuidores e adquirentes de pagamentos.
Na prática, irão testar:
- abertura e utilização de carteiras digitais;
- acesso dos clientes ao euro digital;
- pagamentos efetuados pelos consumidores;
- aceitação de pagamentos por comerciantes.
Já a UNICRE desempenhará exclusivamente funções relacionadas com os comerciantes, testando os sistemas de receção de pagamentos através da versão experimental da moeda digital.
Os acordos de participação foram assinados em Lisboa, na sede do Banco de Portugal, reforçando o compromisso nacional com este projeto europeu.
O que é, afinal, o euro digital?
O euro digital será uma versão eletrónica oficial do euro, emitida diretamente pelo Banco Central Europeu.
Ao contrário das criptomoedas, como a Bitcoin ou Ethereum, o euro digital será uma moeda pública, regulada e garantida pelo BCE.
O objetivo não passa por substituir o dinheiro físico.
Notas e moedas continuarão a existir.
A intenção é oferecer uma alternativa digital segura para pagamentos diários, permitindo que qualquer cidadão possa utilizar euros digitais com a mesma confiança que atualmente deposita nas notas e moedas.
Como vão decorrer os testes?
Durante o piloto será utilizada uma versão beta do euro digital.
Esta versão reproduzirá grande parte das funcionalidades previstas para a solução definitiva, mas não terá valor legal nem poderá ser utilizada livremente pelo público.
Os testes serão realizados em ambiente controlado.
Participarão:
- colaboradores do Banco Central Europeu;
- técnicos dos bancos centrais nacionais;
- comerciantes selecionados;
- estabelecimentos localizados nas instalações dos próprios bancos centrais, como cafetarias e cantinas;
- operadores de comércio eletrónico.
O objetivo consiste em avaliar o comportamento do sistema em situações muito semelhantes às que ocorrerão no mundo real.
Que operações serão testadas?
O piloto pretende reproduzir os principais cenários de utilização do euro digital.
Entre eles destacam-se:
- pagamentos entre particulares;
- transferências instantâneas;
- pagamentos online;
- pagamentos offline;
- compras em lojas físicas;
- pagamentos em comércio eletrónico.
Será igualmente analisada a velocidade das transações, a segurança informática, a estabilidade da plataforma e a facilidade de utilização por consumidores e comerciantes.
Mais de 50 empresas candidataram-se
O interesse pelo projeto superou as expectativas, escreve o Postal.
Após o lançamento do convite à participação em 2026, o Eurosistema recebeu mais de 50 candidaturas provenientes de instituições financeiras europeias.
A seleção final procurou garantir diversidade geográfica, tecnológica e operacional.
Foram considerados critérios como:
- dimensão das instituições;
- experiência em meios de pagamento;
- cobertura territorial;
- capacidade tecnológica;
- modelo de negócio.
O objetivo é garantir que os testes refletem diferentes realidades existentes na zona euro.
O euro digital vai substituir o dinheiro?
Esta continua a ser uma das dúvidas mais frequentes.
A resposta dada pelo Banco Central Europeu é clara:
Não.
O euro digital deverá funcionar como um complemento ao dinheiro físico e não como um substituto das notas e moedas.
Os consumidores continuarão a poder utilizar numerário normalmente.
O novo formato pretende apenas responder ao crescimento dos pagamentos digitais e reduzir a dependência de sistemas privados internacionais.
Quando poderá entrar em circulação?
Apesar dos progressos alcançados, ainda não existe qualquer data oficial para o lançamento do euro digital.
Antes disso será necessário concluir:
- todos os testes técnicos;
- a avaliação operacional;
- o processo legislativo europeu;
- a decisão final do Conselho do BCE.
Só depois destas etapas poderá ser tomada uma decisão definitiva sobre a emissão da nova moeda digital.
Porque é importante este projeto?
O euro digital poderá transformar profundamente a forma como milhões de europeus realizam pagamentos.
Entre as vantagens apontadas pelo Banco Central Europeu encontram-se:
- pagamentos mais rápidos;
- maior segurança;
- independência tecnológica da Europa;
- redução da dependência de operadores internacionais;
- maior inclusão financeira;
- reforço da soberania monetária europeia.
Ao mesmo tempo, o projeto continua a suscitar debate sobre privacidade, proteção de dados e impacto no setor bancário, temas que deverão acompanhar toda a evolução desta iniciativa.
Portugal entra numa nova era dos pagamentos digitais
A participação portuguesa neste piloto coloca o país na linha da frente da inovação financeira europeia.
Embora os cidadãos ainda tenham de esperar alguns anos para saber se o euro digital chegará efetivamente às suas carteiras, os testes que arrancam em 2027 serão determinantes para perceber se esta nova moeda eletrónica poderá tornar-se parte integrante da economia europeia.
O futuro do dinheiro começa agora a ser desenhado e Portugal fará parte desse processo desde os primeiros ensaios.




