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5 expressões que dizemos mal todos os dias sem saber

Conheça 5 expressões muito usadas em Portugal que podem esconder erros ou usos inadequados e descubra como falar e escrever português com mais rigor.

José Ferreira Por José Ferreira
07/10/2026
em Curiosidades, Língua Portuguesa, Notícias, Português
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5 expressões que dizemos mal todos os dias sem saber

5 expressões que dizemos mal todos os dias sem saber

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Será que fala realmente bem português? Há expressões que ouvimos todos os dias e que parecem perfeitamente corretas, mas que podem esconder problemas de sentido, construção ou uso. Descubra cinco das mais comuns.

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A língua portuguesa está cheia de pequenas armadilhas. Algumas são tão discretas que passam completamente despercebidas.

Outras foram repetidas tantas vezes por familiares, colegas, professores, jornalistas ou figuras públicas que acabaram por soar absolutamente naturais.

E é precisamente aí que reside o perigo.

Nem tudo o que ouvimos repetidamente está necessariamente de acordo com a norma-padrão.

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Mas também é importante não cair no extremo oposto: algumas construções tradicionalmente consideradas erradas ou pouco recomendáveis foram ganhando espaço na língua e são hoje aceites ou analisadas de forma diferente por diferentes gramáticos.

É o que acontece, por exemplo, com “ter que” no sentido de obrigação.

Por isso, mais do que decorar uma lista de palavras proibidas, o verdadeiro segredo está em perceber o significado e o contexto de cada expressão.

Há, contudo, cinco construções que merecem especial atenção.

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1. “Ao encontro de” ou “de encontro a”?

Esta é uma das confusões que mais facilmente pode alterar completamente o sentido de uma frase. As duas expressões existem, mas não significam a mesma coisa.

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“Ao encontro de” significa convergência

A expressão “ao encontro de” transmite uma ideia de aproximação, concordância, correspondência ou convergência.

Por exemplo:

“A proposta vai ao encontro das expectativas dos trabalhadores.”

Significa que a proposta corresponde às expectativas ou está de acordo com aquilo que era pretendido.

Também pode ter um sentido literal de deslocação:

“Fui ao encontro dos meus amigos.”

Neste caso, significa que fui ter com eles ou caminhei na sua direção.

“De encontro a” significa oposição ou choque

Já “de encontro a” transmite uma ideia completamente diferente.

Pode significar chocar com, colidir com, opor-se a ou contrariar.

Por exemplo:

“O carro foi de encontro ao muro.”

Ou:

“A decisão foi de encontro aos interesses da empresa.”

Neste último caso, significa que a decisão entrou em conflito ou contrariou esses interesses.

A diferença parece pequena, mas pode mudar completamente a mensagem.

Imagine alguém escrever num email profissional:

“A sua proposta vai de encontro às nossas expectativas.”

Em vez de elogiar a proposta, poderá estar a dizer precisamente o contrário: que ela choca ou entra em conflito com aquilo que era esperado.

A forma mais fácil de memorizar

Ao encontro de = aproximação, concordância, correspondência.

De encontro a = oposição, choque, conflito.

Uma simples preposição pode mudar tudo.

2. “Tenho de fazer” ou “tenho que fazer”?

Esta é uma das dúvidas mais persistentes da língua portuguesa.

Durante muito tempo, a distinção ensinada tradicionalmente foi muito clara:

“Tenho de trabalhar.”

“Tenho de estudar.”

“Tenho de sair.”

A construção “ter de” é utilizada para expressar necessidade, dever ou obrigação.

Já “ter que” era tradicionalmente explicado como uma construção diferente, relacionada com a existência de alguma coisa para fazer:

“Tenho muito que fazer.”

Aqui, a ideia é que existem muitas coisas ou tarefas para realizar.

Mas existe uma novidade importante

A questão não é hoje tão simples como dizer que “tenho que fazer” está sempre errado.

O uso de “ter que” com sentido de obrigação tornou-se muito frequente, tanto na oralidade como na escrita, e diferentes gramáticos e dicionários passaram a reconhecer essa utilização. O próprio Ciberdúvidas regista que a construção “ter que” com valor de obrigação está hoje amplamente difundida e que há obras de referência que a aceitam como variante de “ter de”.

Ainda assim, existe uma razão prática para preferir “ter de” em textos formais: é a construção tradicionalmente consensual para exprimir obrigação e evita qualquer ambiguidade.

Assim:

“Tenho de enviar o relatório hoje.” — forma tradicional e segura.

“Tenho que enviar o relatório hoje.” — construção muito usada e atualmente aceite por algumas referências, embora continue a existir discussão normativa.

Portanto, dizer simplesmente que “ter que” é um erro absoluto seria excessivo.

3. “Há dois anos atrás”: erro ou redundância?

Esta expressão é tão comum que provavelmente já passou milhares de vezes pelos ouvidos sem provocar qualquer estranheza.

“Há dois anos atrás fui a Paris.”

“Conheci-o há muitos anos atrás.”

“Isso aconteceu há três meses atrás.”

Tradicionalmente, a expressão é criticada por ser redundante.

Quando se utiliza “há” para localizar um acontecimento no passado, já está presente a ideia temporal de distância relativamente ao momento da fala.

Por isso:

“Conheci-o há dois anos.”

já transmite a informação necessária.

E também é possível dizer:

“Conheci-o dois anos atrás.”

Neste caso, desaparece o “há” e mantém-se “atrás”. O Ciberdúvidas regista precisamente esta distinção.

Mas existe uma nuance interessante

A construção “há dois anos atrás” está tão difundida que alguns linguistas não a tratam simplesmente como um erro grosseiro.

O Ciberdúvidas observa que “há x tempo atrás” apresenta algum grau de cristalização no uso e que a expressão é utilizada pelos falantes mesmo sem que estes tenham necessariamente consciência da redundância.

Assim, para uma escrita mais limpa e económica, a recomendação continua a ser:

“Há dois anos.”

ou

“Dois anos atrás.”

É uma pequena alteração, mas elimina uma redundância desnecessária.

4. “A nível de”: uma expressão que entrou em todo o lado

Poucas expressões se espalharam tanto pelo discurso quotidiano como “a nível de”.

O problema não está simplesmente em a expressão existir. Existe.

A questão está no uso indiscriminado que muitas vezes se faz dela.

Ouvem-se frases como:

“A nível de preços, este produto é mais caro.”

“A nível de saúde, está tudo bem.”

“A nível de trabalho, tenho muito para fazer.”

Em muitos destes casos, existem alternativas mais simples e naturais:

“Quanto aos preços…”

“Em termos de saúde…”

“No trabalho…”

“Relativamente ao trabalho…”

“No que toca à saúde…”

Então “a nível de” está errado?

Também aqui é preciso evitar uma simplificação.

Fontes linguísticas de referência reconhecem a expressão e explicam que “a nível de” pode ter usos legítimos, embora seja frequentemente criticada quando funciona apenas como uma espécie de expressão de enchimento. Em Portugal, há também preferência por “ao nível de” em determinados contextos.

Por exemplo:

“A questão será analisada ao nível ministerial.”

pode ser perfeitamente compreensível quando se pretende indicar o âmbito ou plano ministerial.

O problema surge quando “a nível de” é utilizado indiscriminadamente em vez de uma preposição ou expressão muito mais simples.

Dizer:

“A nível de dinheiro, a situação piorou.”

pode ser substituído por:

“Quanto ao dinheiro, a situação piorou.”

A frase fica mais direta e natural.

A regra prática

Antes de utilizar “a nível de”, vale a pena perguntar:

É realmente necessário?

Se a resposta for não, provavelmente existe uma alternativa melhor.

5. “Por causa que”: uma mistura que deve ser evitada

Esta construção aparece sobretudo na linguagem oral:

“Não fui por causa que estava a chover.”

“Cheguei tarde por causa que havia trânsito.”

“Ele faltou por causa que estava doente.”

A forma recomendada é diferente.

Pode dizer-se:

“Não fui porque estava a chover.”

ou:

“Não fui por causa da chuva.”

As duas construções são corretas, mas têm estruturas diferentes.

Porque introduz uma oração causal:

“Não fui porque estava a chover.”

Por causa de é seguido por um nome ou expressão nominal:

“Não fui por causa da chuva.”

O problema de “por causa que” está precisamente na mistura destas duas estruturas.

O Ciberdúvidas classifica “por causa que” como uma construção resultante do cruzamento de “porque” com “por causa de” e considera-a incorreta na norma-padrão.

Como evitar o erro?

É simples:

Porque + oração

“Não fui porque estava cansado.”

Por causa de + nome

“Não fui por causa do cansaço.”

Desta forma, a construção torna-se imediatamente mais clara.

Os erros que mais se repetem tornam-se quase invisíveis

Existe um fenómeno curioso na língua: quanto mais ouvimos uma expressão, menos tendência temos para a questionar.

Uma construção repetida durante anos deixa de soar estranha.

É por isso que alguns erros ou usos controversos conseguem sobreviver durante décadas sem serem reconhecidos como problemáticos por quem os utiliza.

Mas existe uma diferença importante entre erro, variação linguística, mudança da língua e preferência estilística.

Nem todas as formas que um manual antigo desaconselhava continuam necessariamente a ser consideradas incorretas hoje.

A língua muda.

E as próprias gramáticas e dicionários acompanham, em maior ou menor grau, essa evolução.

A melhor forma de falar bem português

Falar e escrever bem não significa transformar cada conversa numa demonstração de erudição.

Significa, sobretudo, escolher as palavras certas para transmitir exatamente aquilo que se pretende dizer.

Num email profissional, num documento oficial, num artigo ou numa candidatura, pequenas diferenças podem ter importância.

Numa conversa familiar, a língua é naturalmente mais flexível.

O verdadeiro domínio do português não está em corrigir constantemente os outros. Está em conhecer as regras, compreender as exceções e saber adaptar o discurso ao contexto.

Cinco pequenas regras para guardar

Se quiser memorizar apenas o essencial deste artigo, ficam cinco ideias simples:

Ao encontro de → aproximação ou concordância.

De encontro a → oposição ou choque.

Ter de → forma tradicional e segura para expressar obrigação, sobretudo em contexto formal.

Há dois anos → forma mais simples do que “há dois anos atrás”.

Porque / por causa de → escolher a construção adequada e evitar “por causa que”.

E, no caso de “a nível de”, a melhor pergunta é ainda mais simples:

Será que esta expressão acrescenta alguma coisa à frase?

Se não acrescentar, provavelmente existe uma alternativa mais direta.

A língua portuguesa não precisa de polícias, precisa de atenção

Conhecer a gramática não deve servir para humilhar quem se engana.

Todos cometemos erros.

Alguns são lapsos. Outros resultam de hábitos familiares. Muitos nascem simplesmente da evolução natural da língua.

Mas conhecer as diferenças entre expressões semelhantes pode fazer uma enorme diferença na comunicação.

“Ao encontro de” não é “de encontro a”.

“Há dois anos” pode evitar uma redundância.

“Por causa de” não deve ser misturado com “porque”.

E “ter que” merece hoje uma explicação mais cuidadosa do que a simples etiqueta de “erro”.

No fundo, falar bem português não é falar de forma artificialmente complicada.

É saber escolher.

É perceber o significado.

É escrever com clareza.

E, sobretudo, é conhecer suficientemente bem a língua para não ser enganado por aquilo que simplesmente soa certo porque é repetido todos os dias.

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José Ferreira

José Ferreira

Professor de Português, sempre gostou de desafiar os seus alunos com jogos de gramática e de ortografia. Para ele, a oportunidade de divulgar esses desafios em artigos que chegam a um público mais vasto é verdadeiramente estimulante e animador.

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