A língua portuguesa está em constante transformação. Todos os anos entram novas palavras no vocabulário, sobretudo influenciadas pela tecnologia, pelas redes sociais e pela globalização. Ao mesmo tempo, centenas de termos vão desaparecendo lentamente da linguagem corrente, permanecendo apenas na memória dos mais velhos, em livros antigos ou em filmes de época.
Muitas destas palavras eram comuns nas conversas dos nossos avós e bisavós. Eram utilizadas nas aldeias, nas cidades, nas escolas e até nos jornais. Hoje, algumas parecem estranhas, outras soam divertidas e muitas são completamente desconhecidas para as gerações mais novas.
Recordar estas expressões é também preservar uma parte importante da identidade cultural portuguesa. Afinal, cada palavra conta uma história e revela muito sobre a forma como as pessoas viviam, comunicavam e viam o mundo.
Conheça 23 palavras antigas da língua portuguesa que praticamente desapareceram do uso quotidiano.
1. Vitrola
Muito antes dos leitores de música digitais, existia a vitrola.
Tratava-se do aparelho utilizado para reproduzir discos de vinil, presença obrigatória em muitas salas portuguesas durante grande parte do século XX.
Exemplo:
“O meu avô ainda guarda uma antiga vitrola que continua a funcionar.”
2. Tabefe
Uma palavra que continua a ser compreendida por muitos portugueses, embora seja cada vez menos utilizada. Significa um estalo, uma bofetada ou um sopapo.
Exemplo:
“Levou um tabefe por causa da má educação.”
3. Sacripanta
Era uma forma particularmente forte de chamar patife, canalha, velhaco ou pessoa sem escrúpulos. Atualmente praticamente desapareceu do vocabulário comum.
Exemplo:
“Não confie naquele sacripanta.”
4. Basbaque
Designava alguém ingénuo, distraído, simplório ou facilmente enganado.
Hoje é uma palavra mais conhecida através da literatura clássica.
Exemplo:
“Ficou parado a olhar como um verdadeiro basbaque.”
5. Petiz
Durante décadas foi uma das formas mais carinhosas de falar de uma criança.
Hoje quase toda a gente prefere dizer “menino”, “miúdo” ou “criança”.
Exemplo:
“Quando era petiz sonhava ser aviador.”
6. Quiproquó
Originada a partir da expressão em latim quid pro quo (que significa “uma coisa pela outra”), a palavra descreve uma confusão ou um engano que, muitas vezes, gera situações cómicas.
Ainda aparece ocasionalmente na imprensa e em textos literários.
Exemplo:
“Tudo não passou de um enorme quiproquó.”
7. Balela
Uma palavra antiga que continua surpreendentemente atual.
Significa mentira, conversa fiada ou boato.
Exemplo:
“Não acredite nessas balelas.”
8. Supimpa
Expressão cheia de boa disposição que significa excelente, fantástico ou muito bom.
Exemplo:
“Foi um almoço simplesmente supimpa.”
9. Alpendre
Embora ainda exista em muitas regiões do país, tem vindo a ser substituída por “varanda” ou “terraço coberto”.
O alpendre era um espaço muito característico das casas tradicionais portuguesas.
Exemplo:
“Passavam as tardes de verão sentados no alpendre.”
10. Janota
Era o elogio perfeito para um homem muito elegante, bem vestido e vaidoso.
Exemplo:
“Foi ao casamento todo janota.”
11. Gorar
Significa falhar, frustrar ou não resultar.
É hoje muito menos utilizada do que verbos como “falhar” ou “estragar”.
Exemplo:
“Os planos acabaram por gorar.”
12. Cacareco
Objeto velho, tralha, peça sem grande valor ou utilidade.
Ainda sobrevive em alguns mercados de antiguidades e feiras.
Exemplo:
“A garagem está cheia de cacarecos.”
13. Botica
Durante muitos séculos foi a designação habitual das farmácias.
O boticário era precisamente quem preparava os medicamentos.
Exemplo:
“O meu bisavô trabalhava na botica da vila.”
14. Brunir
Significava polir, dar brilho ou passar cuidadosamente a ferro.
É hoje praticamente exclusivo de textos antigos.
Exemplo:
“A criada brunia cuidadosamente os lençóis.”
15. Garçon
Palavra importada do francês que era utilizada para chamar o empregado de mesa.
Durante décadas foi extremamente popular.
Exemplo:
“Garçon, faça o favor de trazer a conta.”
16. Jorna
Representava um dia de trabalho ou o salário correspondente a esse dia.
Era muito utilizada no mundo agrícola.
Exemplo:
“Recebia uma jorna por cada dia trabalhado.”
17. Ladroa
A antiga forma feminina de ladrão.
Hoje utiliza-se praticamente apenas “ladra”.
Exemplo:
“A ladroa foi apanhada pela polícia.”
18. Lambisgoia
Palavra usada para descrever uma mulher considerada pretensiosa, intriguista ou mexeriqueira.
Embora ainda seja conhecida, tornou-se pouco frequente.
Exemplo:
“Não ligue ao que diz aquela lambisgoia.”
19. Patego
Designava alguém considerado pacóvio, simplório ou pouco sofisticado.
Exemplo:
“Chamaram-lhe patego por não conhecer a cidade.”
20. Safanão
Empurrão forte, abanão ou puxão brusco.
Exemplo:
“Levou um safanão no meio da confusão.”
21. Sirigaita
Antigamente era uma das maiores ofensas dirigidas a uma jovem considerada atrevida, mal-educada ou respondona.
Hoje sobrevive sobretudo em contexto humorístico.
Exemplo:
“A velha senhora chamou-lhe sirigaita.”
22. Soer
Verbo que significava ser costume, ser habitual ou acontecer frequentemente.
Ainda pode ser encontrado em documentos históricos.
Exemplo:
“Como soía acontecer naquela época…”
23. Vosmecê
Talvez uma das palavras antigas mais famosas.
Deriva de “Vossa Mercê” e foi evoluindo ao longo dos séculos até dar origem ao atual “você”.
É frequentemente utilizada em romances históricos e filmes de época.
Exemplo:
“Que deseja vosmecê?”
Porque desaparecem as palavras?
A língua acompanha a evolução da sociedade.
Mudam os costumes, as profissões, os objetos e até a forma como as pessoas comunicam. Palavras como “vitrola” ou “botica” perderam utilização porque os próprios objetos ou profissões mudaram.
Outras foram simplesmente substituídas por sinónimos mais modernos, enquanto algumas sobreviveram apenas na literatura, no teatro ou na memória dos mais idosos.
Ainda assim, preservar estas palavras é preservar parte da história de Portugal.
Cada termo representa uma época, uma tradição e uma forma muito própria de comunicar que continua a enriquecer a extraordinária diversidade da língua portuguesa.
Talvez seja precisamente esse o maior encanto destas palavras esquecidas: recordar-nos que a nossa língua tem séculos de história e continua viva, reinventando-se todos os dias sem nunca esquecer as suas raízes.





Quiproquo vem do latim. https://dicionario.priberam.org/quiproqu%C3%B3