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Início Histórias Curiosidades

As 6 vacas que ajudaram a conquistar o castelo de Monsaraz: uma história insólita de Portugal

Conheça a história das seis vacas que ajudaram Nuno Álvares Pereira a recuperar o castelo de Monsaraz e descubra o que visitar nesta vila alentejana. Não perca.

Sara Costa Por Sara Costa
01/11/2026
em Curiosidades, História de Portugal, Notícias
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As 6 vacas que ajudaram a conquistar o castelo de Monsaraz: uma história insólita de Portugal

As 6 vacas que ajudaram a conquistar o castelo de Monsaraz: uma história insólita de Portugal - Depositphotos

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Imagine um castelo medieval, poucos soldados a defendê-lo e uma fortaleza que parece impossível de conquistar. Agora imagine que, em vez de um exército a avançar com espadas e catapultas, a estratégia decisiva envolve… meia dúzia de vacas!

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Parece uma história inventada, mas este episódio está relatado numa das mais importantes crónicas da história portuguesa. Aconteceu durante a crise de 1383-1385 e teve como protagonista D. Nuno Álvares Pereira, uma das figuras militares mais extraordinárias de Portugal.

O cenário foi Monsaraz, no Alentejo, e o objetivo era recuperar o domínio do seu castelo, que tinha passado a estar do lado do rei de Castela. O estratagema foi tão engenhoso que continua a ser recordado séculos depois.

A história tornou-se conhecida como a das seis vacas que salvaram o castelo de Monsaraz. Há, contudo, um pormenor curioso: Fernão Lopes, o cronista que registou o episódio, escreveu «cinco ou seis vacas», deixando alguma margem para a dúvida.

Mas como conseguiram estes animais ajudar a conquistar uma fortaleza medieval? E quem teve a ideia de utilizar vacas como arma de guerra?

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As 6 vacas que ajudaram a conquistar o castelo de Monsaraz
As 6 vacas que ajudaram a conquistar o castelo de Monsaraz

A crise de 1383-1385 e a importância estratégica de Monsaraz

Para compreender esta história, é necessário recuar até um dos períodos mais delicados da história de Portugal: a crise de sucessão de 1383-1385.

A morte de D. Fernando, em 1383, sem um herdeiro masculino legítimo, abriu uma grave disputa pelo trono português. A sua filha, D. Beatriz, estava casada com D. João I de Castela, que reivindicava a coroa portuguesa.

Uma parte significativa da população e da nobreza opôs-se a essa possibilidade, apoiando o Mestre de Avis, futuro D. João I de Portugal.

O reino dividiu-se. Muitas localidades mudaram de posição, fortalezas passaram para o lado castelhano e o controlo militar dos territórios tornou-se essencial para o desfecho da crise.

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Monsaraz tinha uma importância estratégica particular. Situada numa elevação com grande domínio visual sobre a planície alentejana, a sua fortaleza permitia controlar uma área importante junto à fronteira. O castelo estava então sob a influência de Gonçalo Rodrigues de Sousa, que se tinha aliado aos castelhanos e ordenado que a fortaleza reconhecesse a autoridade do rei de Castela. Foi esta situação que levou D. Nuno Álvares Pereira a procurar recuperar o castelo.

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castelo de Monsaraz
D. Nuno Álvares Pereira

O plano genial de D. Nuno Álvares Pereira

Segundo a Crónica de D. João I, escrita por Fernão Lopes, Nuno Álvares Pereira encontrava-se em Évora quando recebeu notícias sobre a mudança de posição de Monsaraz.

O futuro Condestável ficou desagradado, sobretudo porque a localização da fortaleza era importante para a defesa do território português.

Mas havia um problema: o castelo não era fácil de tomar pela força.

Nuno Álvares Pereira soube que o alcaide responsável pela defesa tinha consigo apenas a mulher e poucos homens, além de estar com falta de mantimentos.

Em vez de ordenar um ataque direto, decidiu recorrer à astúcia.

Chamou um escudeiro em quem confiava e entregou-lhe um pequeno grupo de dez a doze homens. A missão consistia em aproximarem-se da povoação durante a noite e esconderem-se nas imediações do castelo, aguardando o momento certo.

Entretanto, Nuno Álvares Pereira preparou a parte mais surpreendente do plano: mandaria soltar cinco ou seis vacas num vale próximo da fortaleza.

Os animais deveriam parecer abandonados, como se tivessem ficado para trás depois de algum roubo ou incursão das tropas castelhanas.

O Condestável calculou que o alcaide, ao avistá-los, sairia do castelo para os recuperar. E foi precisamente isso que aconteceu.

Como seis vacas conseguiram abrir as portas de um castelo medieval

Ainda antes de amanhecer, as vacas foram conduzidas para o vale indicado por Nuno Álvares Pereira.

Quando o alcaide as avistou, julgou que tinha diante de si uma oportunidade inesperada. Os animais pareciam estar abandonados e poderiam representar uma recuperação de mantimentos numa altura em que a fortaleza já sofria com a escassez de provisões.

Decidiu sair para os apanhar.

Na pressa de chegar às vacas, cometeu um erro que acabaria por ser decisivo: deixou a porta do castelo sem a devida proteção.

Era exatamente o que Nuno Álvares Pereira tinha previsto.

Os escudeiros escondidos nas proximidades observaram a saída do alcaide e avançaram imediatamente para a entrada da fortaleza.

Conseguiram entrar, tomar o controlo da porta e conquistar o castelo antes que os defensores pudessem reagir.

O estratagema tinha resultado.

Sem necessidade de um grande combate ou de um cerco prolongado, os homens de Nuno Álvares Pereira conseguiram recuperar uma posição estratégica para a causa portuguesa.

E tudo começou com alguns animais a pastar num vale!

Esta história está registada no capítulo CXLIII da Crónica de D. João I, cujo título original é particularmente revelador: «Como Nun’Alvarez ordenou de tomar Monsaraz per arte, e de que guisa foi filhado».

Ou seja, não estamos perante uma simples anedota popular. O episódio faz parte de uma fonte histórica fundamental para conhecer a crise de 1383-1385.

Porque é que a história ficou conhecida como a das seis vacas?

Existe uma pequena curiosidade na forma como este episódio chegou aos nossos dias.

Na crónica de Fernão Lopes, o número de animais não é apresentado como uma certeza absoluta. O autor refere expressamente que Nuno Álvares Pereira mandaria soltar «cinco ou seis vacas».

Ao longo dos séculos, a tradição popular acabou por fixar a versão das seis vacas, tornando a história mais fácil de recordar.

O episódio passou a ser associado à inteligência militar do Condestável e à capacidade de encontrar soluções inesperadas perante situações aparentemente difíceis.

É também uma história que mostra que, na guerra medieval, nem sempre a vitória dependia da força das armas. A informação, a observação do inimigo, a paciência e a capacidade de antecipar os seus movimentos podiam ser tão importantes como um grande exército.

Quem foi D. Nuno Álvares Pereira, o Condestável que recuperou Monsaraz?

D. Nuno Álvares Pereira foi uma das figuras mais importantes da história militar portuguesa.

Nasceu em 1360 e destacou-se desde jovem pelas suas capacidades militares. Durante a crise de 1383-1385, colocou-se ao lado do Mestre de Avis, desempenhando um papel determinante na defesa da independência portuguesa.

Foi nomeado Condestável do Reino por D. João I, tornando-se responsável pelo comando militar das forças portuguesas.

A sua liderança ficou especialmente associada à Batalha de Aljubarrota, travada a 14 de agosto de 1385, na qual as tropas portuguesas derrotaram o exército castelhano, apesar da superioridade numérica do adversário.

A vitória foi decisiva para a consolidação da independência de Portugal e transformou Nuno Álvares Pereira numa das figuras mais admiradas da nossa história.

Mas a sua vida não ficou limitada às campanhas militares.

Em 1423, afastou-se definitivamente da vida militar e ingressou no Convento do Carmo, em Lisboa, onde passou a viver como religioso, adotando o nome de Nuno de Santa Maria.

Foi beatificado em 1918 pelo Papa Bento XV e canonizado em 2009 pelo Papa Bento XVI, passando a ser conhecido como São Nuno de Santa Maria.

Morreu em 1431, deixando um legado que ultrapassa a história das batalhas e das conquistas militares.

O castelo de Monsaraz tem uma história ainda mais antiga

A fortaleza que foi recuperada graças ao estratagema das vacas tem uma história que começou muito antes da crise de 1383-1385.

A construção do conjunto medieval desenvolveu-se ao longo de vários reinados, depois da Reconquista Cristã.

Foi durante o reinado de D. Afonso III que começaram a ser erguidas a nova alcáçova e várias torres quadrangulares. Mais tarde, no reinado de D. Dinis, foi construída a Torre de Menagem e grande parte da barbacã exterior. Já D. Fernando mandou construir a cortina interior que separava a área fortificada do casario da vila.

O conjunto foi sendo adaptado ao longo dos séculos, acompanhando as necessidades defensivas e militares da região.

Uma das curiosidades mais interessantes aconteceu já no século XIX. Por volta de 1830, algumas das antigas construções da praça de armas encontravam-se bastante degradadas.

Os habitantes aproveitaram materiais das estruturas em ruína e iniciaram a construção da praça de touros que ainda hoje caracteriza o interior do castelo.

A tradição das corridas de touros permanece ligada às festas em honra do Senhor Jesus dos Passos.

É um exemplo curioso de como uma antiga fortificação militar acabou por ganhar uma nova utilização, mantendo-se como espaço de encontro e tradição popular.

O que visitar em Monsaraz? 7 lugares que merecem uma visita

A história das seis vacas é uma excelente razão para conhecer Monsaraz, mas está longe de ser a única.

Esta vila medieval alentejana conserva um património histórico extraordinário, ruas de casas brancas, monumentos megalíticos e uma paisagem dominada pelo Grande Lago Alqueva.

Se estiver a planear uma visita, estes são alguns dos locais que vale a pena conhecer.

1. Castelo de Monsaraz

É impossível visitar a vila sem passar pelo castelo.

A fortaleza oferece uma vista impressionante sobre a paisagem alentejana e o Lago Alqueva. No interior, encontra-se a antiga praça de armas, onde funciona a tradicional praça de touros.

É também o local ideal para recordar o episódio das vacas e imaginar como os homens de Nuno Álvares Pereira conseguiram surpreender os defensores da fortaleza.

2. Igreja Matriz de Nossa Senhora da Lagoa

Situada no centro histórico, é um dos edifícios religiosos mais importantes de Monsaraz.

A sua presença marca a paisagem da vila e merece uma visita pela arquitetura, pelo ambiente histórico e pelo património artístico que conserva.

Aproveite para percorrer as ruas próximas, descobrir os pormenores das fachadas caiadas e apreciar a tranquilidade característica desta localidade.

3. Casa da Inquisição

Este edifício desperta a curiosidade de muitos visitantes devido à sua designação e às histórias associadas ao período da Inquisição.

No entanto, existe uma particularidade importante: segundo a Câmara Municipal, Monsaraz nunca teve um tribunal próprio da Inquisição. A tradição local atribuiu essa função ao edifício, mas é mais provável que tenha servido de alojamento a um familiar do Santo Ofício ou de local de estadia temporária para pessoas que seriam posteriormente julgadas em Évora.

Atualmente, acolhe o Centro Interativo da História Judaica, permitindo conhecer melhor a presença e a memória das comunidades judaicas na região.

4. Praia Fluvial de Monsaraz

Depois de explorar as ruas medievais, pode seguir até ao Centro Náutico e à Praia Fluvial de Monsaraz, junto ao Grande Lago Alqueva.

É um espaço preparado para receber visitantes, com zonas de lazer, instalações de apoio, parque de merendas e atividades náuticas.

A praia dispõe de Bandeira Azul e da distinção Praia + Acessível, de acordo com a informação municipal.

É uma excelente opção para quem pretende combinar património, natureza e descanso, sobretudo durante os meses mais quentes.

5. Cromeleque do Xerez

A região de Monsaraz guarda vestígios de uma ocupação humana com milhares de anos.

Um dos monumentos mais curiosos é o Cromeleque do Xerez, um conjunto megalítico com uma disposição quadrangular e um menir central de grandes dimensões.

O monumento é constituído por 55 monólitos de granito e apresenta uma configuração pouco habitual.

Existe ainda uma história interessante associada à sua localização: devido à construção da barragem de Alqueva e à consequente subida das águas, o cromeleque foi escavado e transferido em 1998 para o local onde hoje se encontra, junto ao Convento da Orada, na zona do Telheiro.

6. Menir da Belhoa e Antas do Olival da Pega

Para quem aprecia arqueologia e monumentos pré-históricos, esta região tem verdadeiros tesouros.

O Menir da Belhoa, também conhecido como Menir da Bulhoa ou da Abelhoa, foi erguido entre o início do quarto milénio e meados do terceiro milénio antes de Cristo.

Destaca-se pelas gravuras que apresenta, incluindo motivos solares, linhas onduladas e representações que poderão corresponder a um báculo.

Também merece atenção o conjunto das Antas do Olival da Pega, testemunhos da ocupação humana da região há milhares de anos.

São lugares que ajudam a perceber como o território de Monsaraz já era habitado muito antes da construção do castelo medieval.

7. Observatório do Lago Alqueva

A região de Monsaraz é também conhecida pelas condições favoráveis à observação astronómica.

O Observatório do Lago Alqueva, conhecido como OLA, proporciona experiências de observação do céu noturno, com recurso a telescópios e acompanhamento especializado.

É possível aprender a identificar constelações, localizar a Estrela Polar e observar enxames de estrelas, nebulosas e galáxias.

É uma experiência especialmente interessante para famílias e para quem gosta de astronomia. Convém consultar previamente a programação e reservar a atividade, uma vez que as sessões dependem das condições meteorológicas.

Outros lugares para descobrir na região de Monsaraz

Se tiver mais tempo, vale a pena prolongar a visita pelo concelho de Reguengos de Monsaraz.

A Herdade do Esporão, por exemplo, é uma referência da produção de vinho e azeite no Alentejo. Disponibiliza experiências de enoturismo que permitem conhecer as vinhas, as adegas e os processos de produção, com diferentes modalidades de visita e prova.

Também merece destaque São Pedro do Corval, conhecido pela tradição oleira e pela atividade artesanal ligada à cerâmica.

São excelentes sugestões para complementar uma visita à vila medieval e descobrir outras dimensões da cultura alentejana.

Uma história de estratégia que continua a surpreender Portugal

A história das seis vacas de Monsaraz mostra que os episódios mais memoráveis da História nem sempre envolvem grandes batalhas, exércitos numerosos ou armas poderosas.

Por vezes, uma ideia engenhosa, alguns homens escondidos e um pequeno grupo de animais são suficientes para mudar o destino de uma fortaleza.

O episódio ficou registado na crónica de Fernão Lopes e continua a ser uma das histórias mais curiosas associadas a D. Nuno Álvares Pereira.

Hoje, quem percorre as ruas brancas de Monsaraz pode admirar o castelo, contemplar o Alqueva e imaginar a manhã em que algumas vacas apareceram num vale, levando o alcaide a abandonar momentaneamente a segurança das muralhas.

E talvez seja esse o encanto desta história: perceber que, há mais de seis séculos, um dos homens mais importantes da História de Portugal conseguiu conquistar um castelo recorrendo a um estratagema tão simples que ainda hoje provoca um sorriso.

Porque, afinal, nem sempre é preciso um exército para conquistar uma fortaleza. Às vezes, bastam cinco ou seis vacas!

Fontes e leitura complementar

  • Fernão Lopes – Crónica de D. João I, capítulo CXLIII, Imprensa Nacional
  • Câmara Municipal de Reguengos de Monsaraz – História de Monsaraz
  • Câmara Municipal – Castelo e fortificação medieval de Monsaraz
  • Panteão Nacional – D. Nuno Álvares Pereira
  • Câmara Municipal – Património megalítico de Reguengos de Monsaraz
  • Observatório do Lago Alqueva

Stock images by Depositphotos

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Etiquetas: alentejocastelo de MonsarazCuriosidades históricashistória de portugalLago AlquevamonsarazNuno Álvares Pereirapatrimónio portuguêsseis vacasturismo histórico
Sara Costa

Sara Costa

Sempre adorou comunicar. Por isso, tornou-se uma profissional bem-sucedida no marketing digital e na produção de conteúdos. Paralelamente, formou-se em Turismo e dedica-se à organização de viagens e tours pelo mundo, escrevendo sobre os lugares mais fascinantes que há para conhecer.

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