Erguido no imponente Monte Farinha, o Santuário de Nossa Senhora da Graça é muito mais do que um local de culto. É um dos mais emblemáticos santuários marianos do Norte de Portugal, um espaço onde a espiritualidade, a história, a arquitetura e a natureza se unem numa experiência verdadeiramente memorável.
Situado na freguesia de Vilar de Ferreiros, no concelho de Mondim de Basto, este santuário pertence eclesiasticamente à Diocese de Vila Real, sendo o rio Tâmega a fronteira natural que delimita esta diocese da Arquidiocese de Braga.
A sua localização privilegiada torna-o facilmente acessível a partir de várias cidades do Norte de Portugal. Encontra-se a cerca de 100 quilómetros do Porto, 40 quilómetros de Guimarães, 30 quilómetros de Amarante e aproximadamente 50 quilómetros de Vila Real, sendo um destino de eleição para peregrinos, amantes da natureza e visitantes que procuram descobrir um dos locais mais emblemáticos da região.
Uma história centenária marcada pela devoção
A história do Santuário de Nossa Senhora da Graça perde-se no tempo. O edifício atualmente existente corresponde, muito provavelmente, à quarta construção erguida neste local sagrado. Ao longo dos séculos, as anteriores capelas foram sendo destruídas ou profundamente danificadas pela ação do tempo, das intempéries e da própria erosão provocada pela altitude do Monte Farinha.
Os primeiros registos apontam para a existência de uma pequena capela dedicada a Nossa Senhora da Graça, construída durante o século XVI. Deste período sobrevive a antiga imagem da padroeira, cuidadosamente preservada e atualmente substituída, no culto diário, pela imagem que hoje ocupa o altar principal.
Em 1747, os mordomos e a confraria solicitaram ao então Arcebispo de Braga, D. José de Bragança, autorização para reconstruir integralmente a capela, “desde os fundamentos”. Na época, a Diocese de Vila Real ainda não existia — apenas seria criada em 1922 — e o pároco das freguesias de Vilar de Ferreiros e Atei justificava a necessidade urgente da obra devido ao avançado estado de degradação do templo, descrito como “antiquíssimo” e em ruína.
A reconstrução ficou concluída cerca de dez anos depois, em 1758, embora diversos elementos decorativos e arquitetónicos tenham sido acrescentados posteriormente. A inscrição gravada num dos púlpitos, datada de 1775, testemunha uma dessas importantes fases de melhoramento.
Uma arquitetura singular em pleno coração da serra
Construído integralmente em granito da região, o santuário apresenta uma arquitetura invulgar e de enorme valor patrimonial.
O edifício distingue-se pela sua elegante torre sineira quadrangular, pela nave de planta octogonal e pela capela-mor alinhada com a sacristia. Todo o interior revela uma impressionante qualidade construtiva, onde a cantaria cuidadosamente aparelhada demonstra o saber dos mestres pedreiros da época.
A nave encontra-se coberta por uma magnífica cúpula de granito, elemento raro e distintivo que confere ao espaço uma sensação de imponência e recolhimento. O coro-alto, apoiado num arco abatido, é complementado por uma elegante balaustrada em granito, enquanto duas antigas pias de água benta acolhem os visitantes logo à entrada.
O espaço interior organiza-se em torno de quatro robustos arcos de volta perfeita sustentados por pilastras dóricas, criando uma atmosfera harmoniosa e profundamente espiritual.
Os dois púlpitos laterais merecem especial destaque. Decorados com elementos fitomórficos e rematados por delicadas sanefas em talha, conservam inscrições históricas como:
- “Feito Este Santuário”
- “Ano de 1775”
testemunhando importantes momentos da evolução deste monumento religioso.
O património religioso do Santuário
No altar-mor sobressai o símbolo mariano AM, expressão da devoção à Virgem Maria.
A imagem de Nossa Senhora da Graça ocupa naturalmente o lugar central, acompanhada por diversas representações religiosas de elevado valor devocional, entre as quais:
- Sagrado Coração de Jesus;
- São Tiago;
- Crucificado;
- Nossa Senhora de Fátima.
Este conjunto iconográfico constitui um dos principais patrimónios religiosos do santuário e continua a atrair milhares de fiéis todos os anos.
As capelinhas da montanha
O complexo religioso estende-se muito para além da igreja principal.
Ao longo de um dos antigos caminhos de acesso ao monte encontram-se três pequenas capelas que convidam à oração e à contemplação.
Cada uma representa um momento marcante da vida de Maria e de Jesus:
- Capela da Anunciação (1886) — representa o Pai Eterno e o Anjo São Gabriel anunciando a Maria a Encarnação de Cristo.
- Capela do Presépio (1889) — celebra o nascimento de Jesus em Belém.
- Capela da Visitação (1933) — recorda o encontro entre Nossa Senhora e Santa Isabel.
Este percurso espiritual enriquece ainda mais a visita, proporcionando momentos de silêncio e reflexão ao longo da subida.
Um centro de peregrinação no Norte de Portugal
O Santuário de Nossa Senhora da Graça é considerado um dos mais importantes centros marianos situados entre o Douro e o Minho.
Durante todo o ano recebe milhares de peregrinos, romeiros, caminhantes e turistas que procuram não apenas cumprir promessas ou participar nas celebrações religiosas, mas também desfrutar da extraordinária paisagem que envolve o Monte Farinha.
O complexo dispõe atualmente de diversas infraestruturas de apoio, incluindo:
- Centro de Acolhimento para Peregrinos;
- Restaurante;
- Casa das Estampas;
- Antiga casa e bouça do ermitão;
- Espaços preparados para acolher grupos e visitantes.
Estas valências tornam o santuário num destino acessível e confortável para quem pretende permanecer mais tempo e explorar toda a riqueza da região.
A peregrinação de setembro
Entre as diversas celebrações anuais destaca-se a tradicional Peregrinação de Setembro.
A primeira edição realizou-se em 1945, por iniciativa da Juventude do Concelho de Mondim de Basto. Jovens e adultos dos concelhos vizinhos uniram-se numa grande manifestação de fé para agradecer o fim da Segunda Guerra Mundial.
Desde então, esta peregrinação transformou-se numa das maiores manifestações religiosas da região, reunindo milhares de participantes num ambiente profundamente emotivo, onde tradição, espiritualidade e identidade cultural caminham lado a lado.
Um lugar onde a fé encontra a natureza
Visitar o Santuário de Nossa Senhora da Graça é muito mais do que conhecer um monumento religioso. É subir ao topo de um dos lugares mais emblemáticos do Norte de Portugal, respirar o ar puro da serra, contemplar panorâmicas deslumbrantes sobre os vales do Tâmega e do Douro e descobrir um património que atravessa séculos de história.
Entre o silêncio da montanha, a imponência do granito, a riqueza arquitetónica e a profunda devoção mariana, este santuário continua a ser um destino incontornável para peregrinos, visitantes e todos aqueles que procuram um local onde a beleza natural e a espiritualidade coexistem em perfeita harmonia.




