Uma nova esperança está a surgir para centenas de doentes diagnosticados com cancro da cabeça e pescoço. Um tratamento experimental inovador, administrado através de uma simples injeção sob a pele, vai começar a ser testado em cinco hospitais portugueses no âmbito de um importante ensaio clínico internacional.
O medicamento, denominado amivantamab, tem vindo a despertar grande interesse na comunidade científica depois de ter demonstrado resultados encorajadores em estudos preliminares, incluindo casos em que os tumores desapareceram completamente durante o tratamento.
A entrada de Portugal nesta nova fase da investigação representa um passo importante no acesso dos doentes portugueses a terapias de última geração que poderão transformar o tratamento desta doença.
Uma nova esperança para doentes com opções limitadas
O cancro da cabeça e pescoço continua a ser uma das doenças oncológicas mais desafiantes.
De acordo com a SIC Notícias, todos os anos, são diagnosticados em Portugal entre 2.500 e 3.000 novos casos. O problema é agravado pelo facto de mais de metade dos diagnósticos ocorrerem já em fases avançadas da doença, quando as opções terapêuticas se tornam mais limitadas e complexas.
É precisamente neste contexto que surge o amivantamab.
Os primeiros resultados apresentados durante o congresso anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), um dos eventos científicos mais importantes do mundo na área do cancro, geraram um forte entusiasmo entre especialistas.
Resultados que estão a surpreender os investigadores
Nos estudos iniciais, o medicamento foi administrado a 102 doentes com cancro avançado da cabeça e pescoço.
Os resultados revelaram dados particularmente promissores:
- Redução significativa dos tumores em 28 participantes;
- Desaparecimento completo dos tumores em 15 doentes;
- Taxa reduzida de efeitos adversos graves;
- Boa tolerância ao tratamento pela maioria dos participantes.
Embora os investigadores sublinhem que ainda são necessários estudos mais amplos para confirmar a eficácia e segurança a longo prazo, os dados divulgados até agora são considerados extremamente encorajadores.
Cinco hospitais portugueses vão integrar o ensaio clínico
A próxima fase da investigação envolverá aproximadamente 500 doentes de vários países.
Portugal foi selecionado para participar neste importante estudo internacional através de cinco unidades hospitalares:
- Hospital de Portimão
- Hospital de Gaia-Espinho
- IPO do Porto
- Hospital de Santa Maria
- CUF Descobertas
Os primeiros participantes portugueses deverão começar a integrar o ensaio durante as próximas semanas.
Segundo os responsáveis pela investigação em Portugal, o processo de seleção dos doentes encontra-se já em fase avançada de preparação.
O que torna este tratamento diferente?
Uma das características mais inovadoras do amivantamab está relacionada com a forma como é administrado.
Ao contrário de muitos tratamentos oncológicos tradicionais, que exigem perfusões intravenosas prolongadas em ambiente hospitalar, este medicamento é administrado através de uma injeção subcutânea.
Na prática, significa que o tratamento é aplicado diretamente sob a pele, geralmente de três em três semanas.
Esta abordagem poderá trazer várias vantagens:
- Menor tempo de permanência no hospital;
- Maior conforto para os doentes;
- Administração mais simples;
- Menor impacto na rotina diária;
- Potencial redução dos custos associados ao tratamento.
Como atua o amivantamab?
O medicamento foi concebido para atacar simultaneamente diferentes mecanismos utilizados pelas células cancerígenas para crescer e resistir aos tratamentos.
Entre as suas principais ações destacam-se:
Bloqueio do EGFR
O amivantamab inibe a atividade do EGFR (Recetor do Fator de Crescimento Epidérmico), uma proteína frequentemente associada ao crescimento e multiplicação das células tumorais.
Combate à resistência terapêutica
O tratamento atua também sobre a via MET, um mecanismo utilizado por algumas células cancerígenas para escapar aos efeitos das terapias convencionais.
Estimulação do sistema imunitário
Além de atacar diretamente o tumor, o medicamento ajuda a mobilizar as defesas naturais do organismo, permitindo uma resposta imunitária mais eficaz contra as células malignas.
Efeitos secundários considerados controláveis
Outro dado que está a gerar otimismo entre os investigadores diz respeito à tolerabilidade do tratamento.
Segundo os resultados divulgados até ao momento, a maioria dos efeitos secundários observados foi considerada ligeira ou moderada.
Menos de 10% dos participantes precisaram de interromper a terapêutica devido a reações adversas.
Este aspeto poderá revelar-se particularmente importante para doentes que já passaram por múltiplos tratamentos e apresentam maior fragilidade clínica.
O potencial vai muito além deste tipo de cancro
O interesse científico em torno do amivantamab não se limita ao cancro da cabeça e pescoço.
Atualmente, dezenas de estudos estão a avaliar a sua eficácia noutras doenças oncológicas, incluindo:
- Cancro do pulmão;
- Tumores cerebrais;
- Cancro do estômago;
- Cancro colorretal;
- Tumores do reto.
Caso os resultados continuem a ser positivos, este medicamento poderá vir a desempenhar um papel importante no tratamento de diferentes tipos de cancro.
Um passo importante para a oncologia em Portugal
A participação de hospitais portugueses num ensaio clínico desta dimensão representa também uma oportunidade relevante para a medicina nacional.
Além de permitir aos doentes o acesso precoce a terapias inovadoras, reforça o papel de Portugal na investigação clínica internacional e no desenvolvimento de novas estratégias de combate ao cancro.
Embora ainda seja cedo para tirar conclusões definitivas, os resultados obtidos até agora permitem alimentar uma esperança que muitos doentes e famílias aguardam há anos.
Num cenário em que a ciência continua a avançar a um ritmo impressionante, cada nova descoberta aproxima a medicina de tratamentos mais eficazes, menos agressivos e capazes de melhorar significativamente a qualidade de vida dos doentes oncológicos.




