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Portugal já conduziu pela esquerda: a madrugada de 1928 que mudou para sempre as estradas

Portugal já conduziu pela esquerda. Descubra por que razão o país mudou para a direita em 1928 e como Lisboa viveu essa histórica mudança.

Sara Costa Por Sara Costa
27/09/2026
em Curiosidades, Notícias
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Portugal já conduziu pela esquerda: a madrugada de 1928 que mudou para sempre as estradas

Portugal já conduziu pela esquerda: a madrugada de 1928 que mudou para sempre as estradas - Arquivo DN © Global Notícias

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Hoje parece absolutamente natural ver carros portugueses a circular pela direita. Mas houve um tempo em que era precisamente o contrário — e a mudança aconteceu de um dia para o outro.

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Imagine uma Lisboa sem trânsito pela direita.

Imagine os automóveis a aproximarem-se dos cruzamentos pelo lado que hoje parece errado. Imagine carroças, bicicletas, animais de carga, peões e automóveis a adaptarem-se a uma regra completamente nova.

Parece uma realidade retirada de outro país.

Mas aconteceu em Portugal.

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Durante décadas, circulou-se pela esquerda nas estradas portuguesas, numa prática associada à influência britânica. Só em 1 de junho de 1928 o país começou a adotar a circulação pela direita.

E não foi uma mudança pequena.

Foi uma alteração que obrigou milhares de condutores e utilizadores das estradas a abandonar hábitos profundamente enraizados e a aprender uma nova forma de circular.

A mudança ficou marcada por uma campanha nacional, cartazes gigantes, avisos nos jornais e até recomendações para que os condutores reduzissem a velocidade nos primeiros tempos. E há um pormenor particularmente curioso: Lisboa mudou primeiro.

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O dia em que Portugal mudou de lado

A data ficou gravada na história da mobilidade portuguesa: 1 de junho de 1928. Foi nesse dia que entrou em vigor a nova regra que obrigava à circulação pela direita. Mas o horário não foi exatamente igual em todo o território. Em Lisboa, a mudança começou às 5h00 da manhã. No restante território continental, a alteração entrou em vigor à meia-noite. O Automóvel Club de Portugal recorda que os automobilistas da capital foram os primeiros a experimentar a nova regra durante a madrugada.

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A imprensa da época acompanhou o acontecimento com enorme atenção.

O Diário de Lisboa registou, nesse mesmo dia, que desde as cinco da manhã “tudo gira pela direita”, descrevendo uma mudança que, apesar dos receios, decorreu sem os grandes acidentes que alguns tinham antecipado.

Hoje, a ideia de uma cidade inteira mudar o sentido habitual de circulação parece quase surreal.

Em 1928, era uma necessidade prática.

E Portugal preparou-se para ela.

Porque é que Portugal conduzia pela esquerda?

A resposta está ligada à própria história das regras de circulação na Europa.

Antes de 1928, Portugal utilizava a circulação pela esquerda, aproximando-se do modelo britânico. A influência da antiga relação luso-britânica ajudou a consolidar esse hábito durante séculos.

Entretanto, grande parte da Europa continental foi seguindo o sentido oposto.

A circulação pela direita tornou-se predominante em numerosos países europeus e, com o aumento das viagens internacionais, a existência de regras diferentes entre países começou a representar um problema cada vez mais evidente.

Portugal encontrava-se numa posição particularmente curiosa.

De um lado estava a Espanha, onde se circulava pela direita.

Do outro, Portugal mantinha um sistema diferente.

À medida que os automóveis se tornavam mais comuns e as deslocações rodoviárias internacionais aumentavam, a necessidade de harmonizar as regras tornou-se cada vez mais evidente.

O próprio Automóvel Club de Portugal explica que o novo sistema pretendia alinhar o país com um modelo internacional de circulação já seguido por muitos outros Estados.

Não foi, portanto, apenas uma questão de mudar uma regra do trânsito.

Foi uma tentativa de adaptar Portugal a uma Europa onde as estradas começavam a ligar países de forma cada vez mais intensa.

1928: o ano que mudou as estradas portuguesas

A alteração surgiu num momento particularmente importante da história da circulação rodoviária portuguesa.

Em 1928 foi aprovado o primeiro Código da Estrada português, que veio substituir o anterior enquadramento mais limitado da circulação automóvel e estabelecer regras mais abrangentes.

A mudança para a direita fazia parte dessa transformação.

O Automóvel Club de Portugal descreve 1928 como o ano em que surgiu a designação de Código da Estrada associada às novas regras e em que a circulação pela direita se tornou obrigatória.

Portugal tinha, nessa altura, uma frota automóvel muito menor do que a atual.

Fontes históricas apontam para cerca de 28 mil automóveis e aproximadamente 31 mil condutores com carta de condução.

Ainda assim, alterar a regra significava mexer com hábitos de milhares de pessoas.

E não apenas de quem conduzia automóveis.

Não eram apenas os carros que tinham de mudar

Esta é uma das partes mais curiosas da história.

Em 1928, as estradas portuguesas eram utilizadas por uma mistura muito diferente daquela que hoje encontramos.

Havia automóveis, mas também carroças, veículos de tração animal, bicicletas, cavaleiros, animais de carga e peões.

Uma mudança no lado da circulação afetava todos.

O Automóvel Club de Portugal recorda que carreiros e almocreves estiveram entre os utilizadores que mais sentiram a mudança nos primeiros dias.

Para quem tinha passado anos ou décadas a conduzir ou a circular de determinada maneira, uma nova regra exigia muito mais do que simplesmente decorar uma instrução.

Era necessário mudar um reflexo.

E reflexos construídos durante anos não desaparecem numa noite.

O país foi avisado com cartazes gigantes

Uma alteração desta dimensão não podia ser feita em silêncio.

Era preciso avisar a população.

Hoje, uma mudança destas seria comunicada através de televisão, rádio, internet, redes sociais, aplicações de navegação e campanhas digitais.

Em 1928, os instrumentos eram outros.

Jornais, cartazes, faixas e comunicação direta.

O Automóvel Club de Portugal, o Diário de Notícias, a empresa Vacuum Oil Company e entidades oficiais participaram na campanha de sensibilização. Foram colocados grandes letreiros ao longo das estradas e nas principais ruas das cidades e vilas, com uma mensagem simples e impossível de ignorar:

“PELA DIREITA — Desde 1 de Junho”.

A Vacuum Oil Company chegou a produzir centenas desses painéis diariamente, enquanto foram realizadas ações de sensibilização junto das populações.

Era uma verdadeira campanha nacional de mudança de comportamento.

Até os padres foram chamados a ajudar

Há um detalhe da campanha que parece saído de um filme histórico.

Para garantir que a informação chegava também às populações rurais, o Conselho Superior de Viação enviou uma circular aos párocos, pedindo que chamassem a atenção dos paroquianos para as novas regras durante a missa.

É difícil imaginar hoje uma alteração ao Código da Estrada a ser explicada desta forma.

Mas, em 1928, fazia sentido.

Grande parte da população não tinha acesso à informação instantânea. Os jornais não chegavam necessariamente a todas as comunidades e não existiam televisão, internet ou smartphones.

A igreja, a imprensa e os espaços públicos eram importantes canais de comunicação.

A mudança de lado na estrada acabou, assim, por envolver uma parte significativa da sociedade.

Os primeiros dias foram acompanhados de cautela

As autoridades e a imprensa sabiam que a adaptação poderia provocar confusão.

Por isso, os automobilistas foram aconselhados a conduzir com especial prudência.

Entre as recomendações da época estava a indicação de não ultrapassar os 30 km/h nos primeiros tempos, precisamente para reduzir o risco associado à adaptação ao novo sistema.

O receio era compreensível.

Um condutor habituado durante anos a procurar naturalmente o lado esquerdo da estrada podia, perante uma situação inesperada, repetir automaticamente o comportamento antigo.

Nos cruzamentos, nas curvas e nas ultrapassagens, a memória muscular podia entrar em conflito com a nova regra.

Portugal estava, literalmente, a aprender a conduzir de outra maneira.

A mudança não aconteceu da mesma forma em todos os territórios

A alteração de 1928 também teve particularidades fora do território continental português.

No contexto do antigo império português, Moçambique, Goa e Macau mantiveram a circulação pela esquerda, em grande medida devido à sua posição geográfica e às ligações rodoviárias com territórios vizinhos que também utilizavam esse sistema.

A situação era particularmente relevante em Moçambique, rodeado por países da África Austral onde a circulação pela esquerda era predominante.

Goa e Macau também conservaram essa tradição.

A história de Portugal acabou, assim, por produzir uma situação curiosa: enquanto Portugal continental passava para a direita, alguns territórios sob administração portuguesa continuavam a circular pela esquerda.

Portugal não foi o único país a fazer esta mudança

A divisão entre circulação pela esquerda e pela direita continua a existir no mundo.

O Reino Unido é provavelmente o exemplo europeu mais conhecido de circulação pela esquerda.

Mas também países como Irlanda, Malta e Chipre mantêm esse sistema.

Na Ásia, África e Oceânia existem igualmente vários países onde os veículos circulam pela esquerda.

A maioria dos países do mundo, contudo, utiliza a circulação pela direita.

Esta divisão tem uma longa história e não existe uma explicação única que permita dizer que um dos sistemas nasceu exclusivamente por causa de cavaleiros, espadas ou Napoleão.

Essas explicações são frequentemente repetidas, mas a origem histórica da circulação pela esquerda e pela direita é muito mais complexa.

No caso português, o que está bem documentado é outra coisa: em 1928, o país decidiu alterar oficialmente o sistema para alinhar a circulação com o modelo seguido pela maioria dos países continentais.

A mudança ficou associada ao primeiro Código da Estrada

A transformação de 1928 não foi apenas uma alteração isolada.

Fez parte de uma reorganização mais ampla das regras de circulação.

O Código da Estrada aprovado naquele período estabeleceu um conjunto de normas para veículos, condutores e restantes utilizadores das estradas.

A circulação pela direita tornou-se uma das suas alterações mais marcantes.

Documentação histórica da época mostra como a nova regra foi recebida com preocupação por alguns condutores, que receavam acidentes e confusão. No entanto, os relatos dos primeiros dias indicam que a transição decorreu com relativa normalidade.

O país tinha conseguido mudar um hábito nacional sem que as estradas mergulhassem no caos previsto por alguns pessimistas.

E se Portugal tivesse continuado a conduzir pela esquerda?

É uma pergunta quase impossível de evitar.

Imagine Lisboa atual com carros a circular pela esquerda.

Imagine os elétricos, os autocarros, as rotundas, os acessos às autoestradas e as portagens organizados segundo regras semelhantes às britânicas.

Imagine atravessar a fronteira com Espanha e ter de mudar imediatamente de sistema.

É precisamente esse tipo de dificuldade que ajuda a perceber a importância da decisão tomada em 1928.

A circulação rodoviária tornou-se cada vez mais internacional durante o século XX.

A existência de regras semelhantes entre países simplificava as deslocações e reduzia a possibilidade de confusão nas fronteiras.

A decisão portuguesa acabou por aproximar o país do sistema dominante na Europa continental.

E hoje? O Código da Estrada continua a mandar circular pela direita

Quase um século depois, a regra continua perfeitamente presente.

O atual Código da Estrada determina, no artigo 13.º, que a posição de marcha dos veículos deve fazer-se pelo lado direito da faixa de rodagem, mantendo uma distância adequada das bermas ou passeios.

A mesma disposição estabelece que o lado esquerdo pode ser utilizado quando necessário para ultrapassar ou mudar de direção.

Quando existem várias vias no mesmo sentido, a regra geral também determina a utilização da via mais à direita, com as exceções previstas no próprio Código.

Ou seja, uma decisão tomada em 1928 continua a determinar um dos gestos mais básicos de quem conduz em Portugal.

Quase 100 anos depois, a mudança parece impossível

Talvez seja isso que torna esta história tão fascinante.

Para quem nasceu depois de 1928, circular pela direita parece uma realidade que sempre existiu.

Não existe memória familiar da mudança.

Não existem condutores vivos que tenham vivido aquela transição como adultos.

A regra tornou-se tão natural que é difícil imaginar que, há menos de um século, Portugal conduzia do outro lado da estrada.

Mas durante décadas foi exatamente assim.

Os automóveis portugueses circulavam pela esquerda.

As carroças circulavam pela esquerda.

Os condutores estavam habituados à esquerda.

E, numa madrugada de junho de 1928, tudo começou a mudar.

Lisboa deu o primeiro passo às cinco da manhã.

Poucas horas depois, o novo sistema estendia-se ao restante território continental.

Nas estradas surgiram grandes cartazes.

Nos jornais multiplicaram-se os avisos.

Nas comunidades, a mensagem foi transmitida de pessoa para pessoa.

E Portugal aprendeu uma nova regra.

Uma simples mudança que ficou escondida na memória do país

A história da circulação pela esquerda em Portugal é uma daquelas pequenas histórias que parecem insignificantes até se perceber a sua dimensão.

Hoje, ninguém pensa duas vezes antes de entrar numa estrada.

A mão muda de posição na caixa de velocidades, o volante está onde sempre esteve, o veículo segue pela direita e tudo parece absolutamente normal.

Mas essa normalidade foi construída.

Foi legislada.

Foi explicada.

Foi anunciada.

E foi aprendida por uma geração inteira.

Durante décadas, Portugal conduziu pela esquerda.

Depois, numa madrugada de 1928, mudou de lado.

E aquela mudança continua, quase cem anos depois, debaixo das rodas de todos os automóveis que percorrem as estradas portuguesas.

Fontes e referências

Automóvel Club de Portugal — História da circulação pela direita: ACP — Há 89 anos que em Portugal se conduz à direita

Automóvel Club de Portugal — Portugal começou a circular pela direita em 1928: ACP — Portugal começou a circular pela direita há 90 anos

Diário de Notícias — O dia em que Portugal começou a circular pela direita: Diário de Notícias — O dia em que se começou a circular pela direita em Portugal

Diário da República — Código da Estrada, artigo 13.º: Código da Estrada — Artigo 13.º, posição de marcha

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Etiquetas: circulação pela esquerda Portugalcondução pela esquerda em PortugalPortugal circulava pela esquerdaPortugal conduzia pela esquerdaPortugal passou a conduzir pela direitaquando Portugal passou a conduzir pela direita
Sara Costa

Sara Costa

Sempre adorou comunicar. Por isso, tornou-se uma profissional bem-sucedida no marketing digital e na produção de conteúdos. Paralelamente, formou-se em Turismo e dedica-se à organização de viagens e tours pelo mundo, escrevendo sobre os lugares mais fascinantes que há para conhecer.

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