Há lugares em Lisboa que passam despercebidos apesar de esconderem séculos de história. Entre as Janelas Verdes, Santos, a Lapa e o Tejo, ergue-se um palácio que parece observar a cidade a partir de um antigo rochedo.
É o Palácio dos Condes de Óbidos, também conhecido como Palácio da Rocha do Conde de Óbidos ou Palácio da Cruz Vermelha. Apesar da localização privilegiada, continua relativamente desconhecido para muitos lisboetas e visitantes.
Construído no século XVII e profundamente transformado ao longo dos séculos, o palácio sobreviveu ao terramoto de 1755, esteve ligado a uma importante família aristocrática, recebeu figuras ilustres e tornou-se, em 1919, a sede nacional da Cruz Vermelha Portuguesa.
Hoje, continua a reunir história, arte, património e uma das vistas mais impressionantes sobre o Tejo.
Onde fica o Palácio dos Condes de Óbidos?
O palácio situa-se na freguesia da Estrela, em Lisboa, junto ao Jardim 9 de Abril e próximo do Museu Nacional de Arte Antiga.
A sua posição é uma das características mais marcantes. O edifício foi implantado sobre um antigo promontório junto ao Tejo, numa zona de onde se avistam as docas da Rocha e de Alcântara, a Ponte 25 de Abril, o Cristo-Rei, Almada e Cacilhas.
A proximidade do rio ajuda também a explicar a designação histórica de Palácio da Rocha do Conde de Óbidos.

Um palácio com origem no século XVII
A origem do atual palácio remonta ao século XVII. As fontes patrimoniais associam a iniciativa da construção a D. Vasco de Mascarenhas, primeiro Conde de Óbidos, embora existam diferentes formulações sobre as fases iniciais e posteriores do edifício.
A propriedade permaneceu ligada à família dos Condes de Óbidos durante gerações e foi sendo modificada ao longo do tempo. Por isso, a construção atual reúne elementos de diferentes épocas, desde a arquitetura aos azulejos, tetos decorados e espaços nobres.
O terramoto de 1755 mudou o palácio
O terramoto de 1 de novembro de 1755 provocou danos significativos em Lisboa e afetou também o Palácio dos Condes de Óbidos. O edifício foi posteriormente alvo de uma profunda reconstrução, associada ao arquiteto Eugénio dos Santos, uma das figuras importantes da reconstrução da capital após a catástrofe. O palácio que hoje existe é, por isso, resultado de várias fases históricas: conserva a memória da residência aristocrática original, mas também das grandes transformações provocadas pelo terramoto e pela reconstrução de Lisboa.
A família dos Condes de Óbidos
O título de Conde de Óbidos está ligado à família Mascarenhas, uma linhagem com importante presença na história política e militar portuguesa.
D. Vasco de Mascarenhas destacou-se durante o período da Restauração e ficou associado à história do palácio. A propriedade permaneceu ligada à família durante séculos, mas essa relação terminou no início do século XX.
O edifício passou por diferentes utilizações e esteve arrendado ao Clube Inglês, que ali permaneceu até 1919. Durante esse período, recebeu o rei Eduardo VII, em 1903, durante a sua visita oficial a Portugal.
Em 1919, o palácio passou para a Cruz Vermelha Portuguesa
Em 30 de junho de 1919, o Palácio dos Condes de Óbidos foi adquirido pela Cruz Vermelha Portuguesa.
Começava uma nova etapa. A antiga residência aristocrática passou a estar ligada a uma instituição de caráter humanitário e tornou-se a sua sede nacional, função que mantém atualmente.
O edifício recebeu posteriormente obras de renovação, conservação e decoração, sobretudo durante as décadas de 1930 e 1940, contribuindo para o ambiente interior que hoje caracteriza o palácio.
Um edifício ligado à história humanitária
A ligação à Cruz Vermelha acrescentou uma nova dimensão à história do imóvel.
Durante a Segunda Guerra Mundial, algumas dependências foram utilizadas no contexto da assistência humanitária a prisioneiros das potências envolvidas no conflito.
O palácio deixou, assim, de representar apenas uma antiga residência aristocrática e passou também a fazer parte da história humanitária portuguesa.
O património artístico no interior
Por trás da fachada encontra-se um conjunto de espaços de grande riqueza decorativa.
A área nobre inclui salões com azulejos, pinturas, tetos ornamentados, mobiliário histórico e outros elementos decorativos. A Cruz Vermelha Portuguesa identifica seis salões principais: Conselho Supremo, Parábolas, D. João de Castro, Grinaldas, Mitologia e Sala de Jantar.
Os azulejos assumem particular importância, com painéis de inspiração histórica e decorativa que contribuem para a identidade do conjunto.
O palácio não corresponde, portanto, a um único período artístico: diferentes épocas deixaram marcas na arquitetura e na decoração.

A biblioteca e a capela
Entre os espaços mais interessantes encontra-se a biblioteca, descrita pela Cruz Vermelha Portuguesa como biblioteca renascentista. O mobiliário, os livros e os elementos decorativos criam um ambiente particularmente distinto.
O edifício possui ainda uma capela dedicada a Nossa Senhora da Conceição, espaço mais íntimo que recorda a presença habitual de áreas religiosas nas grandes residências aristocráticas.
O terraço e a vista sobre o Tejo
Um dos grandes atrativos do palácio encontra-se no terraço.
Dali, a paisagem abre-se sobre a frente ribeirinha de Lisboa, permitindo observar as docas da Rocha e de Alcântara, a Ponte 25 de Abril, o Cristo-Rei e a margem sul.
A localização elevada do edifício ganha aqui todo o seu significado. O Tejo deixa de ser apenas parte da paisagem e torna-se elemento central da experiência do palácio.
Jorge Colaço também deixou a sua marca
A história artística do edifício está também ligada a Jorge Colaço, conhecido pintor e ceramista português.
O artista esteve associado ao palácio e é autor de um importante painel de azulejos situado no terraço, relacionado com a chegada dos portugueses ao Brasil.
A presença desta obra reforça a ligação entre arquitetura, azulejaria e memória histórica que caracteriza o espaço.
Um imóvel de interesse público
O valor histórico e artístico do Palácio dos Condes de Óbidos foi reconhecido oficialmente.
O edifício está classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1993, através do Decreto n.º 45/93.
A classificação considera o valor patrimonial do conjunto, incluindo a arquitetura, os interiores, os azulejos, os tetos decorados e a relação do edifício com a paisagem envolvente.
É possível visitar o Palácio dos Condes de Óbidos?
Sim, mas a visita requer marcação prévia.
A Cruz Vermelha Portuguesa disponibiliza visitas guiadas, segundo a informação divulgada pela própria instituição. As visitas são gratuitas, têm duração aproximada de uma hora e estão indicadas para dias úteis, entre as 10h00 e as 16h00, mediante marcação.
Como os horários e condições podem sofrer alterações, é aconselhável confirmar previamente com a Cruz Vermelha Portuguesa.
O palácio continua a ter funções institucionais, pelo que não funciona como um monumento de acesso livre e permanente.
Um palácio que também recebe eventos
O edifício mantém uma utilização contemporânea.
A Cruz Vermelha Portuguesa tem uma parceria com a Casa do Marquês para a exploração do espaço para eventos, podendo receber casamentos, batizados, cocktails, jantares de gala, conferências, concertos, lançamentos de produtos e outros acontecimentos sociais, culturais e empresariais.
A Casa do Marquês indica uma capacidade de até 500 pessoas para eventos no conjunto dos espaços disponibilizados.
É mais uma transformação na longa história do palácio: de residência aristocrática a sede de uma instituição humanitária e, atualmente, também espaço para encontros e eventos.
O Jardim 9 de Abril e a envolvente
A visita pode ser complementada com um passeio pelo Jardim 9 de Abril, junto ao palácio.
Nas proximidades encontram-se as Janelas Verdes, o Museu Nacional de Arte Antiga, Santos e a frente ribeirinha, numa zona de Lisboa marcada pela arquitetura histórica e por uma atmosfera mais tranquila do que a dos principais circuitos turísticos da Baixa.
Um dos segredos mais interessantes de Lisboa
O Palácio dos Condes de Óbidos reúne, num único edifício, várias épocas da história de Lisboa.
Nasceu associado à aristocracia do século XVII, sobreviveu ao terramoto de 1755, recebeu uma visita real, passou pelo Clube Inglês, tornou-se sede da Cruz Vermelha Portuguesa e esteve ligado a episódios da história humanitária do século XX.
No interior, os salões, azulejos, biblioteca, capela e obras artísticas revelam uma riqueza que dificilmente se adivinha a partir da rua.
E, no exterior, o terraço oferece uma perspetiva privilegiada sobre o Tejo e a margem sul.
Um palácio onde a história continua
Talvez uma das características mais interessantes deste lugar seja precisamente o facto de não ter ficado preso ao passado.
A família aristocrática que lhe deu origem desapareceu, a cidade transformou-se e a frente ribeirinha mudou profundamente. No entanto, o palácio continua a desempenhar uma função em Lisboa.
Mantém ali a sua sede a Cruz Vermelha Portuguesa, preserva um importante património artístico e histórico e continua a receber visitantes e eventos.
Entre o antigo rochedo e o Tejo, o Palácio dos Condes de Óbidos permanece como um dos lugares menos conhecidos e mais singulares da capital: um pedaço da velha Lisboa que continua a olhar para o rio enquanto a cidade se transforma à sua volta.




