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Dúvidas de Português: o que é um oxímoro?

Alguns dos melhores livros da língua portuguesa possuem os mais belos oxímoros. Tire todas as dúvidas e perceba melhor o que é um oxímoro.

o que é um oxímoro
Dúvidas de Português: o que é um oxímoro?

Alguns dos melhores livros da língua portuguesa possuem os mais belos oxímoros. Tire todas as dúvidas e perceba melhor o que é um oxímoro.

A morte da Dona Perpétua confirmou que ela, tal como os restantes mortais, não se perpetuou. Esta é uma conjugação de palavras insólita, mas perfeitamente possível, cujo objetivo é brincar com o nome Perpétua e a palavra morte, levando à constatação dum aparente paradoxo da morte da Dona Perpétua que, afinal, não se eternizou.

A língua portuguesa tem tido ao longo da história de Portugal alguns talentosos poetas e criativos escritores que não dispensam a oportunidade de recorrer a recursos estilísticos que permitam embelezar ainda mais os seus livros.

Entre os recursos estilísticos, um dos mais cativantes é o oxímoro (ou oximoro). As duas formas escritas são aceites pela língua portuguesa e ambas referem-se ao mesmo significado, apesar de terem raízes etimológicas diferentes.

Dúvidas de Português: o que é um oxímoro?

A combinação improvável  de palavras, cujo sentido literal é incongruente e contraditório, leva à origem de conceitos profundamente interessantes e que enriquecem livros, artigos e crónicas que proliferam no nosso quotidiano.


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Um recurso linguístico que surgiu na Antiguidade com o desenvolvimento da retórica e que revela todo o talento do poeta ou escritor. Por exemplo, quando se escreve “sábia ignorância”, o escritor recorre à sua engenhosa ironia e sarcasmo e, de forma subtil, faz passar a sua mensagem.

Definição do conceito

Este termo vem do grego oxymóron, junção de oxýs (arguto) com mórón (estúpido). É um recurso estilístico que consiste em reunir, no mesmo conceito, palavras de sentido oposto ou contraditório como, por exemplo, “silêncio eloquente”.

É assim uma figura de estilo que se exprime em forma de paradoxo, associando dois termos contraditórios, duas imagens que, vistos em separado, são contrários. Ao juntarmos dois termos com sentidos (aparentemente) totalmente incompatíveis – como “ilustre” e “desconhecido”, por exemplo – para formar o novo conceito “ilustre desconhecido”, criamos um oxímoro.

O oxímoro faz um aproveitamento estilístico de um paradoxo, sendo este último mais abrangente do que o oxímoro, conjugando dois termos antagónicos com o objetivo de criar um terceiro conceito com um novo sentido, num contexto metafórico, preterindo o significado meramente literal (que seria incoerente ou mesmo absurdo).

Música

Também é frequente aparecerem oxímoros na música. São vários as canções que recorrem a este recurso estilístico para tornar a sua mensagem mais profunda e complexa. Caetano Veloso, por exemplo, canta “Menino do rio, Calor que provoca arrepio”. Já Chico Buarque  optou por: “Pra se viver do amor. Há que esquecer o amor. Só o vejo na ausência”.

Vejamos, agora, outros exemplos de oxímoros.

– Cruel bondade

– Silêncio ensurdecedor

– Lúcida loucura

– Silêncio eloquente

– Ilustre desconhecido

– Fanatismo indeciso

– Acidente afortunado

– Gélido calor

– Instante eterno

– Gentileza cruel

– Belo horroroso

– Música silenciosa

– Palha de plástico.

– Piada séria

– Espontaneamente calculada

– Doce Veneno

– Aldeia Global

– Fogo frio

– Doloroso prazer

– Aposta segura

Agostinho da Silva defendeu, notavelmente, que tanto o ortodoxo como o heterodoxo não exprimem, na sua totalidade (e devidamente), a vida. Só o paradoxo é que a contém na sua totalidade.

O oxímoro permite a totalidade da vida. Este belo (falso) paradoxo criado contribui, assim, para enriquecer os textos realizados. Apesar dos termos terem sentido contrário, a sua formulação conjunta é pertinente e faz todo o sentido.


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Conclui-se recordando a obra do grandioso poeta português, Luís Vaz de Camões que, com frequência, recorreu a oxímoros para elaborar alguns dos seus mais belos poemas, nomeadamente:

Amor é fogo que arde sem se ver

Amor é fogo que arde sem se ver,

é ferida que dói, e não se sente;

é um contentamento descontente,

é dor que desatina sem doer.

 

É um não querer mais que bem querer;

é um andar solitário entre a gente;

é nunca contentar-se de contente;

é um cuidar que ganha em se perder.

 

É querer estar preso por vontade;

é servir a quem vence, o vencedor;

é ter com quem nos mata, lealdade.

 

Mas como causar pode seu favor

nos corações humanos amizade,

se tão contrário a si é o mesmo Amor.

Luís Vaz de Camões

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