Poucos monarcas portugueses deixaram uma marca tão profunda na História como D. João V. O seu reinado ficou associado a uma riqueza sem precedentes, alimentada pelo ouro e pelos diamantes provenientes do Brasil, mas também a uma vida de luxo, ostentação e excessos que continua a despertar curiosidade mais de 250 anos depois da sua morte.
Enquanto financiava algumas das maiores obras arquitetónicas alguma vez construídas em Portugal, o monarca cultivava uma corte inspirada no esplendor de Versalhes, rodeava-se de artistas, cientistas e religiosos e alimentava uma reputação que rapidamente ultrapassou fronteiras.
Entre monumentos grandiosos, relações amorosas polémicas e um estilo de vida faustoso, D. João V permanece uma das figuras mais fascinantes da monarquia portuguesa.

Um rei que nasceu para governar
D. João V nasceu em 22 de outubro de 1689, filho de D. Pedro II e de D. Maria Sofia de Neuburgo.
Subiu ao trono em 1707, com apenas 17 anos, iniciando um dos reinados mais longos e marcantes da História de Portugal.
Casou com D. Maria Ana da Áustria, arquiduquesa da Casa de Habsburgo, reforçando a posição diplomática do reino na Europa.
No entanto, foi sobretudo a extraordinária prosperidade económica do país que acabaria por definir o seu reinado.
O ouro do Brasil transformou Portugal
Quando D. João V assumiu o trono, Portugal vivia um período excecional.
As minas descobertas no Brasil produziam enormes quantidades de ouro e, mais tarde, diamantes.
A Coroa recebia o chamado “quinto”, um imposto correspondente a 20% de todo o ouro oficialmente extraído. Em determinados anos chegaram a Portugal dezenas de toneladas de ouro, proporcionando uma capacidade financeira praticamente sem paralelo na Europa. Essa abundância permitiu ao rei desenvolver uma política de enorme investimento em arquitetura, arte, ciência, religião e cultura.
Foi este contexto que lhe valeu o cognome de “O Magnânimo”.
Uma corte inspirada nos grandes reis europeus
D. João V admirava profundamente o modelo da corte francesa de Luís XIV.
Pretendia transformar Lisboa numa das grandes capitais europeias.
O protocolo tornou-se mais elaborado.
As cerimónias ganharam maior imponência.
A etiqueta da corte foi reforçada.
Tudo deveria refletir a grandeza da monarquia portuguesa.
Essa visão estendeu-se igualmente à arquitetura.
As grandes obras que eternizaram o seu reinado
Grande parte da riqueza proveniente do Brasil foi canalizada para construções monumentais que ainda hoje figuram entre os maiores símbolos do património nacional.
Entre elas destacam-se:

O Palácio Nacional de Mafra
Poucos edifícios impressionam tanto quanto o Palácio Nacional de Mafra.
Iniciado em 1717, tornou-se uma das maiores construções barrocas da Europa.
O complexo integra:
- palácio real;
- convento;
- basílica;
- biblioteca histórica.
A dimensão da obra continua a impressionar:
- cerca de 1.200 divisões;
- mais de 4.700 portas e janelas;
- 156 escadarias;
- dezenas de pátios interiores.
Milhares de operários participaram na construção daquele que continua a ser um dos maiores símbolos do reinado joanino.

A magnífica Biblioteca Joanina
Na Universidade de Coimbra nasceu outra das joias do Barroco português.
A Biblioteca Joanina destaca-se pelos seus tetos pintados, talha dourada, madeiras exóticas e uma coleção bibliográfica de enorme valor histórico.
Entre milhares de obras conservam-se edições raríssimas que fazem deste espaço uma referência mundial.
Mais do que um investimento arquitetónico, representou também uma aposta no conhecimento e no prestígio académico do reino.

O Aqueduto das Águas Livres
Outra obra emblemática iniciada durante o seu reinado foi o Aqueduto das Águas Livres.
Durante séculos garantiu o abastecimento de água a Lisboa e revelou extraordinária robustez ao resistir ao terramoto de 1755.
O seu monumental arco sobre o Vale de Alcântara continua a ser um dos maiores exemplos da engenharia portuguesa do século XVIII.
O lado menos conhecido do rei
Apesar da imagem de grande mecenas das artes, D. João V também ficou conhecido pelos inúmeros episódios relacionados com a sua vida privada.
Diversos cronistas da época referem que o monarca manteve várias relações extraconjugais ao longo da vida.
Embora algumas histórias tenham sido amplificadas pela tradição popular, existe documentação que confirma o reconhecimento oficial de vários filhos nascidos fora do casamento.
Os chamados “Meninos de Palhavã”
Entre os episódios mais conhecidos encontra-se o reconhecimento de três filhos ilegítimos, popularmente conhecidos como “Meninos de Palhavã”.
Foram educados com elevado estatuto e desempenharam funções importantes ao serviço da Coroa e da Igreja.
Este episódio demonstra que, apesar do rigor moral oficialmente defendido pela monarquia e pela Igreja, a realidade da corte era frequentemente bem diferente.
As visitas aos conventos
Outro aspeto frequentemente referido pelos historiadores prende-se com a relação de D. João V com diversos conventos femininos.
Alguns cronistas antigos atribuem-lhe uma presença assídua em determinados conventos, sobretudo no de Odivelas.
Foi precisamente neste contexto que nasceu uma das figuras femininas mais conhecidas associadas ao rei: Madre Paula, religiosa que, segundo múltiplas fontes históricas, manteve uma longa relação com o monarca.
Madre Paula viveu rodeada de privilégios pouco comuns para uma religiosa da época, recebendo presentes, propriedades e rendimentos concedidos pelo rei.
O uso de afrodisíacos
Um dos episódios mais debatidos pelos historiadores relaciona-se com o alegado consumo de substâncias afrodisíacas.
Algumas fontes históricas referem que D. João V recorreria regularmente às chamadas cantáridas, uma preparação utilizada na época com supostos efeitos estimulantes.
Hoje sabe-se que estas substâncias podiam provocar graves efeitos tóxicos, afetando os rins, o aparelho urinário e outros órgãos.
Contudo, não existe consenso absoluto entre os historiadores quanto ao impacto real que este consumo poderá ter tido na saúde do rei.
Um mecenas da ciência e da cultura
Reduzir D. João V aos episódios da sua vida privada seria profundamente injusto.
Durante o seu reinado verificou-se um enorme investimento:
- na Universidade de Coimbra;
- na produção científica;
- na impressão de livros;
- na música sacra;
- na pintura;
- na escultura;
- na arquitetura.
Portugal aproximou-se dos grandes centros culturais europeus e consolidou prestígio internacional.
Um legado que permanece
Mais de dois séculos depois da sua morte, a marca de D. João V continua bem visível.
Os monumentos erguidos durante o seu reinado recebem milhões de visitantes todos os anos.
São testemunhos de um período excecional da História portuguesa, marcado simultaneamente por riqueza, ambição, religiosidade, luxo e contradições.
Um rei impossível de esquecer
D. João V continua a dividir opiniões.
Para uns, foi um monarca extravagante que desperdiçou uma fortuna incomparável.
Para outros, foi um visionário que utilizou parte dessa riqueza para criar um património artístico e arquitetónico que hoje constitui um dos maiores orgulhos nacionais.
Independentemente da perspetiva, poucos contestam uma realidade: nenhum outro rei português reuniu tanto poder económico, promoveu tantas obras monumentais e alimentou tantas histórias que continuam a fascinar historiadores e curiosos.
Mais de 250 anos depois, o reinado de D. João V permanece um dos capítulos mais extraordinários da História de Portugal.




