Há tratados que se assinam e se esquecem. Há outros que se rompem na primeira tempestade política. E há, raríssimas vezes, um tratado que atravessa séculos, sobrevive a impérios, a guerras mundiais e a mudanças de regime, e continua, tecnicamente, em vigor passados mais de seiscentos e cinquenta anos.
Esse tratado existe. Foi assinado entre Portugal e Inglaterra. E nunca, em todo este tempo, foi formalmente quebrado.
Chama-se Aliança Luso-Britânica e é, oficialmente, a aliança diplomática mais antiga do mundo ainda em vigor entre dois Estados soberanos.
Um pacto nascido da necessidade, selado pela palavra
A história começa em 1373, numa Europa medieval marcada por guerras de sucessão e alianças instáveis. D. Fernando I de Portugal e D. Leonor selaram com o rei Eduardo III de Inglaterra um tratado de “perpétua amizade, sindicato e aliança” – palavras que, à época, eram tão frequentemente quebradas quanto pronunciadas. Os tratados medievais raramente duravam mais do que o interesse imediato que os tinha originado.
Este foi diferente.
Treze anos depois, em 1386, o Tratado de Windsor veio reforçar e formalizar definitivamente esta aliança, desta vez entre D. João I de Portugal e Ricardo II de Inglaterra. O documento continha disposições concretas: socorro militar mútuo em caso de ataque, apoio diplomático, e algo notavelmente moderno para a época – uma declaração de livre circulação de pessoas e bens entre os territórios dos dois reinos.
Mas foi o que se seguiu à assinatura que transformou um tratado político numa ligação verdadeiramente humana.
O casamento que selou um pacto entre nações
Em 1387, D. João I casou com Filipa de Lencastre, filha de João de Gante, duque de Lencastre e figura central da nobreza inglesa. Não foi um casamento de conveniência sem consequência – foi o gesto final que transformou um acordo diplomático numa aliança de sangue entre as duas coroas.
Filipa de Lencastre tornar-se-ia uma das rainhas mais respeitadas da história portuguesa, mãe de uma geração de príncipes que ficaria conhecida como a Ínclita Geração – entre eles, o Infante D. Henrique, figura central dos Descobrimentos portugueses. A aliança que começara como um tratado de papel deu origem, literalmente, à linhagem que levaria Portugal a navegar até à Índia, ao Brasil e a todos os cantos do mundo então conhecido. Uma aliança diplomática que se tornou, através de um casamento, parte do próprio ADN da monarquia portuguesa.
Seiscentos e cinquenta anos de testes
Nenhuma aliança sobrevive intacta a seis séculos e meio sem ser posta à prova. A diferença entre a Aliança Luso-Britânica e qualquer outro tratado da história é que ela resistiu – vezes sem conta – a momentos em que parecia prestes a quebrar-se. No início do século XIX, quando as tropas napoleónicas invadiram Portugal, foi precisamente esta aliança secular que levou o Reino Unido a socorrer o país, numa colaboração militar que ficou conhecida como a Guerra Peninsular. A família real portuguesa, obrigada a fugir para o Brasil em 1807, fê-lo sob proteção naval britânica – uma ajuda direta que decorria de um compromisso assinado quatro séculos antes.
Mas a aliança também conheceu os seus momentos de tensão extrema. Em 1890, o Reino Unido emitiu um ultimato que obrigou Portugal a abandonar as suas pretensões territoriais entre Angola e Moçambique – o chamado Mapa Cor-de-Rosa. Foi um dos episódios mais humilhantes da história diplomática portuguesa, e ainda assim a aliança, tecnicamente, nunca foi denunciada por nenhuma das partes. Resistiu, mesmo quando a relação entre os dois países atravessou um dos seus piores momentos.
No século XX, a aliança voltou a ser invocada formalmente. Em 1916, durante a Primeira Guerra Mundial, o Reino Unido solicitou a Portugal o apresamento de navios alemães ancorados em portos portugueses – um pedido que, justificado pela aliança secular, precipitou a entrada de Portugal na guerra ao lado dos Aliados.
A invocação mais recente, e talvez a mais decisiva, aconteceu em 1943. Em plena Segunda Guerra Mundial, o primeiro-ministro britânico Winston Churchill dirigiu-se à Câmara dos Comuns e anunciou que Portugal aceitara o pedido do Reino Unido para utilizar os Açores como base militar contra a Alemanha nazi. Foi a aliança de 1373 – então já com quase seis séculos de existência – que Churchill invocou para justificar este pedido extraordinário a um país oficialmente neutral na guerra.
Uma aliança que talvez seja ainda mais antiga do que se diz
A história oficial situa o início da aliança em 1373. Mas investigações mais recentes sugerem que a ligação entre os dois povos pode remontar a datas ainda mais antigas.
Um estudo do advogado e investigador Jorge de Abreu identificou acordos entre Portugal e Inglaterra que recuam até ao século XII – nomeadamente o Tratado de Alcácer do Sal, de 1127, e um pacto verbal estabelecido em 1147, imediatamente após o cerco e a conquista de Lisboa aos mouros, com o apoio decisivo de cruzados ingleses. Uma carta escrita por um desses cruzados, hoje guardada na biblioteca do Corpus Christi College, na Universidade de Cambridge, descreve as condições desse entendimento: uso livre dos portos portugueses, prioridade nas pilhagens e participação na distribuição de terras conquistadas.
Se estas datas mais antigas forem consideradas, a relação entre Portugal e o Reino Unido pode ter, na realidade, mais de oitocentos anos – quase tão antiga quanto a própria fundação de Portugal como reino independente.
Porque é que esta aliança nunca se quebrou
Há uma pergunta que se impõe naturalmente: como sobreviveu uma aliança a seiscentos e cinquenta anos de guerras, mudanças de regime, revoluções e impérios que nasceram e desapareceram? A resposta está, em parte, na natureza pragmática e mutuamente vantajosa da relação.
Portugal, com o seu acesso estratégico ao Atlântico e às suas rotas comerciais, sempre representou um parceiro valioso para uma potência insular como a Inglaterra – e, mais tarde, o Reino Unido. Em troca, Portugal beneficiou, em momentos cruciais da sua história, de um aliado poderoso disposto a intervir militarmente em sua defesa. O comércio floresceu através dos armazéns ingleses estabelecidos no Porto, onde bacalhau e tecidos eram trocados por vinho, cortiça, sal e azeite – uma relação comercial que, em certa medida, ainda hoje ecoa na exportação portuguesa.
Mas há também algo menos pragmático e mais simbólico nesta longevidade. Poucas relações entre nações resistem tanto tempo sem que, em algum momento, a conveniência política não tivesse sido suficiente para a quebrar. A Aliança Luso-Britânica tornou-se, ao longo dos séculos, mais do que um instrumento de política externa – tornou-se parte da identidade diplomática de ambos os países, um símbolo que nenhum dos lados quis ser o primeiro a desfazer.
Uma aliança silenciosa, mas viva
Hoje, a Aliança Luso-Britânica já não é formalmente invocada em contextos militares ou de crise – não há, atualmente, qualquer cenário que exija a sua ativação no sentido em que Churchill a invocou em 1943. Mas isso não significa que tenha deixado de existir. Continua tecnicamente em vigor, citada com regularidade por diplomatas e responsáveis governamentais de ambos os países como prova da estabilidade e da profundidade histórica das relações entre Portugal e o Reino Unido.
É um lembrete silencioso de que, nalguns casos, a palavra dada entre nações pode durar mais do que os próprios impérios que a pronunciaram. Reis morreram, dinastias desapareceram, fronteiras mudaram radicalmente em toda a Europa – e, ainda assim, um tratado assinado num século em que a peste negra ainda assombrava o continente continua, tecnicamente, válido.
Da próxima vez que ouvir falar da relação entre Portugal e o Reino Unido – seja a propósito de turismo, de comércio ou de qualquer cimeira diplomática – vale a pena lembrar que essa relação tem uma base que nenhuma outra aliança no mundo pode reivindicar: mais de seis séculos e meio de palavra cumprida, ininterruptamente, desde a Idade Média até aos dias de hoje.
Fontes: Tratado de Windsor (1386) · Tratado Anglo-Português de 1373 · Museu da Presidência da República · Portal Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros · RTP Ensina




