Quem tem ido à praia nos últimos dias tem encontrado uma surpresa pouco habitual: a água do mar está significativamente mais quente do que é normal para esta altura do ano, sobretudo no litoral Norte e Centro de Portugal.
Em algumas praias da costa ocidental, onde habitualmente a água é conhecida pelas temperaturas frias mesmo em pleno verão, os termómetros já registam 22ºC, um valor invulgar que está a surpreender banhistas e especialistas.
Segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), este fenómeno deverá manter-se até ao final da semana e tem uma explicação muito específica: a ausência da tradicional “nortada”, o vento que normalmente refresca as águas da costa portuguesa durante os meses de verão.
Porque está a água do mar tão quente?
De acordo com Jorge Ponte, chefe da Divisão de Meteorologia e Vigilância do IPMA, a principal razão para este aumento da temperatura da água está relacionada com um fenómeno oceanográfico conhecido como afloramento costeiro, ou upwelling.
Em condições normais, durante o verão, a conhecida nortada sopra de norte para sul ao longo da costa portuguesa.
Esse vento empurra a água superficial, mais quente, para o largo.
Como consequência, sobem à superfície águas profundas muito mais frias, renovando constantemente a temperatura junto às praias portuguesas.
É precisamente este processo que explica porque razão o litoral ocidental de Portugal é conhecido pelas suas águas frias, mesmo quando as temperaturas do ar ultrapassam facilmente os 30 graus.
Este verão aconteceu o contrário
Nos últimos dias, esse mecanismo natural praticamente deixou de funcionar.
A ausência ou enfraquecimento da nortada fez com que a água aquecida pelo sol permanecesse junto à costa durante vários dias consecutivos. Sem o habitual afloramento das águas profundas, a temperatura da superfície aumentou rapidamente. O resultado é uma situação pouco comum para o mês de verão em curso, sobretudo nas praias do Norte e da região Oeste.
Norte surpreende com temperaturas superiores ao Algarve
Um dos aspetos mais curiosos deste episódio é a distribuição das temperaturas ao longo da costa portuguesa.
Enquanto tradicionalmente o Algarve apresenta águas significativamente mais quentes, esta semana verificou-se precisamente o contrário.
Segundo os dados divulgados pelo IPMA:
- Leixões registou cerca de 22ºC;
- Faro apresentou temperaturas entre 19ºC e 21ºC;
- Sines registou valores semelhantes.
Esta diferença representa uma inversão pouco habitual da distribuição térmica da água do mar em Portugal.
Quando poderá regressar a água fria?
Segundo o IPMA, esta situação deverá manter-se pelo menos até sexta-feira.
Existe a possibilidade de a nortada regressar durante o fim de semana, permitindo que o afloramento costeiro volte a ocorrer.
Caso isso aconteça, a temperatura da água deverá descer novamente de forma relativamente rápida.
Contudo, os meteorologistas admitem que esse regresso poderá ser temporário.
Se o vento voltar a enfraquecer nos dias seguintes, a água poderá aquecer novamente junto à costa.
As alterações climáticas são responsáveis?
Apesar de muitas pessoas associarem imediatamente este fenómeno às alterações climáticas, os especialistas esclarecem que não é essa a origem direta desta situação.
Segundo Jorge Ponte, trata-se de um fenómeno perfeitamente conhecido pela meteorologia e pela oceanografia portuguesas.
O que as alterações climáticas podem fazer é aumentar a temperatura absoluta da água.
Há alguns anos, era habitual encontrar valores entre:
- 19ºC;
- 20ºC.
Hoje, durante episódios semelhantes, já são frequentes temperaturas entre:
- 22ºC;
- 23ºC.
Ou seja, o mecanismo natural continua a ser o mesmo, mas parte agora de um oceano globalmente mais quente.
O que é o afloramento costeiro?
O chamado upwelling é um fenómeno essencial para o equilíbrio do ecossistema marinho português.
Quando as águas profundas sobem à superfície:
- transportam nutrientes importantes;
- favorecem a produtividade biológica;
- alimentam diversas espécies de peixe;
- ajudam a regular a temperatura da costa.
Sem este processo, as águas superficiais permanecem durante mais tempo aquecidas pela radiação solar.
Há riscos para os banhistas?
O aumento da temperatura da água não representa, por si só, um risco para quem frequenta as praias.
Pelo contrário, muitos banhistas apreciam encontrar uma água menos fria.
No entanto, especialistas recordam que alterações prolongadas na temperatura do mar podem influenciar:
- os ecossistemas costeiros;
- a distribuição de espécies marinhas;
- a proliferação de algumas algas;
- a disponibilidade de pescado.
Por isso, o acompanhamento científico destas situações continua a ser fundamental.
Um fenómeno raro, mas natural
Apesar de invulgar nesta altura do verão, o IPMA sublinha que este episódio não constitui motivo de preocupação.
Trata-se de uma situação meteorológica e oceanográfica conhecida, resultante da diminuição temporária da intensidade da nortada.
Ainda assim, os valores registados este ano demonstram como pequenas alterações nas condições atmosféricas podem produzir mudanças significativas na temperatura do mar.
Para milhares de portugueses e turistas, isso traduz-se em praias com águas surpreendentemente agradáveis.
Para os cientistas, representa mais uma oportunidade para estudar a interação entre atmosfera, oceano e alterações climáticas num planeta cada vez mais quente.
Stock images by Depositphotos




