Entre uma e três vezes por ano, o calendário marca uma data que provoca arrepio em milhões de pessoas: sexta-feira 13. Elevadores que saltam o número 13, hotéis que evitam o quarto com essa numeração, decisões adiadas, viagens repensadas. Mas afinal, como nasceu a superstição da sexta-feira 13 e porque continua a influenciar comportamentos no século XXI?
A resposta mistura religião, mitologia, história medieval, tragédias reais e o eterno fascínio humano pelo desconhecido.
O número 13: um símbolo de azar que atravessa séculos
O número 13 é, há muito, associado a desequilíbrio e infortúnio. Em várias tradições culturais e religiosas, surge ligado a momentos de rutura, traição e desordem.
Na tradição cristã, a Última Ceia reuniu treze pessoas à mesa — sendo Judas Iscariotes, o traidor, o décimo terceiro. No Apocalipse, é no capítulo 13 que surge a referência ao número da besta, 666, associado ao anticristo.
Na mitologia nórdica, Loki, deus da astúcia e do caos, aparece como o décimo terceiro convidado num banquete divino que termina em tragédia. Já na Cabala judaica, há interpretações que associam o 13 a forças espirituais ambíguas.
Em termos simbólicos, o 12 sempre representou plenitude e ordem — 12 meses do ano, 12 signos do zodíaco, 12 apóstolos. O 13 surge como o número que rompe essa harmonia.
A sexta-feira: um dia de presságios negativos
A própria sexta-feira carrega um peso simbólico negativo em várias tradições.
Segundo a tradição cristã, foi numa sexta-feira que Jesus Cristo foi crucificado. Algumas interpretações sugerem também que o pecado original de Adão e Eva ocorreu nesse dia. Há ainda relatos que apontam que o fratricídio de Caim sobre Abel terá acontecido numa sexta-feira.
Ao longo dos séculos, este dia passou a ser associado a finais abruptos, traições e eventos trágicos.
A união fatal: quando sexta-feira encontra o número 13
A junção destes dois elementos — o dia e o número — tornou-se especialmente marcante após um episódio histórico que mudou a Europa medieval.
A queda dos Cavaleiros Templários: a Sexta-Feira 13 que entrou para a história
A 13 de outubro de 1307, uma sexta-feira, o rei Filipe IV de França ordenou a prisão em massa dos Cavaleiros Templários, uma das ordens mais poderosas da Cristandade.
Acusados de heresia, idolatria e práticas ocultas — acusações amplamente consideradas fabricadas — os Templários foram perseguidos por razões essencialmente políticas e económicas. O rei francês encontrava-se profundamente endividado e via na destruição da Ordem uma forma de confiscar as suas riquezas.
Jacques de Molay, último grão-mestre da Ordem, foi condenado à fogueira. Antes de morrer, segundo a lenda, terá lançado uma maldição sobre o rei e o Papa Clemente V. Ambos morreriam no prazo de um ano, alimentando a crença numa vingança divina associada àquela sexta-feira 13.
Este episódio consolidou definitivamente a aura sombria da data.
Tragédias e coincidências: o medo alimentado pela história
Ao longo do tempo, diversos acontecimentos trágicos que ocorreram numa sexta-feira 13 ajudaram a perpetuar o mito.
Em Portugal, o desmoronamento da zona dos Guindais, no Porto, em 1879, reforçou localmente a ideia de que certas datas parecem carregar um peso simbólico negativo.
No entanto, estatisticamente, não existem provas científicas de que ocorram mais acidentes ou desastres numa sexta-feira 13 do que noutros dias.
Ainda assim, o medo persiste. A fobia específica da sexta-feira 13 tem até nome clínico: parascavedecatriafobia.
Sexta-Feira 13 no mundo atual
Apesar do avanço da ciência e da racionalidade moderna, a superstição mantém-se viva.
Em Portugal e nos Estados Unidos, muitos edifícios evitam o 13.º andar. Companhias aéreas saltam a fila 13. Alguns negócios evitam fechar contratos nesta data.
Curiosamente, noutras culturas o azar está associado a outros números. Na China e no Japão, por exemplo, é o número 4 que simboliza má sorte, devido à semelhança fonética com a palavra “morte”.
Isto demonstra que o medo não reside no número em si, mas na construção cultural que lhe é atribuída.
Superstição ou psicologia?
A sexta-feira 13 é, acima de tudo, um reflexo da mente humana. Quando se acredita que algo pode correr mal, tende-se a interpretar qualquer pequeno contratempo como confirmação dessa crença — um fenómeno conhecido como viés de confirmação.
A força simbólica desta data revela algo mais profundo: a necessidade humana de encontrar significado no acaso.
No fundo, a sexta-feira 13 continua a sobreviver não por provas concretas de azar, mas pela narrativa coletiva construída ao longo dos séculos.
E a pergunta permanece: será realmente um dia amaldiçoado ou apenas mais um capítulo fascinante da história das crenças humanas?




