Portugal volta a encolher-se sob um céu pesado e ameaçador. Ainda ecoam na memória coletiva os estragos deixados pela depressão Kristin — árvores arrancadas como fósforos, telhados destruídos, estradas cortadas, milhares de casas sem eletricidade e famílias obrigadas a recomeçar do zero. Mal houve tempo para limpar a lama, contar prejuízos ou recuperar o fôlego.
E o mau tempo regressa. Sem aviso dramático, mas com uma persistência que pode ser ainda mais perigosa.
A partir deste domingo, o país entra num novo ciclo de instabilidade atmosférica prolongada, com vários dias consecutivos de chuva, vento forte, mar agitado e risco real de cheias. Não será uma tempestade explosiva. Será algo mais traiçoeiro: precipitação contínua, acumulada, insistente — aquela que satura o solo, enche os rios lentamente e transforma pequenas ribeiras em autênticas armadilhas.
Segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), todo o território continental será afetado, mas as regiões Norte e Centro voltam a concentrar as maiores preocupações.
São estas zonas que estarão, uma vez mais, na linha da frente.
Chuva forte e persistente: o perigo que se acumula hora após hora
As previsões indicam períodos de chuva ou aguaceiros frequentes, por vezes fortes, sobretudo a partir da tarde de domingo e ao longo da próxima semana.
Em alguns momentos, a precipitação poderá ser intensa o suficiente para reduzir drasticamente a visibilidade nas estradas, provocar lençóis de água e dificultar a drenagem urbana.
O problema não é apenas a força da chuva. É a duração.
Quando chove durante dias seguidos, o terreno deixa de absorver. As sarjetas entopem. As linhas de água transbordam. E o risco multiplica-se. Cada hora conta. Cada milímetro de precipitação pesa.
Vento forte e mar revolto agravam o cenário
Como se a chuva não bastasse, o vento promete complicar ainda mais a situação. As rajadas poderão atingir os 75 quilómetros por hora nas terras altas e no litoral, aumentando o risco de quedas de árvores, danos em estruturas frágeis, cortes de energia e circulação rodoviária perigosa.
Ao longo da costa, a agitação marítima deverá intensificar-se, com ondulação forte a muito forte. As autoridades alertam para cuidados redobrados junto ao mar, molhes e zonas costeiras expostas, onde as ondas podem surpreender pela violência.
O oceano também estará inquieto.
E quando o mar se revolta, não há margem para distrações.
Rios sob pressão: o espectro das cheias regressa
A Agência Portuguesa do Ambiente mantém várias bacias hidrográficas sob vigilância apertada.
Os solos já se encontram saturados pelas tempestades recentes, o que significa que a nova precipitação terá escoamento rápido — diretamente para rios e ribeiras.
Entre as zonas mais vulneráveis destacam-se:
- Minho e Coura
- Lima e Vez
- Cávado
- Ave
- Douro e Tâmega
- Mondego
- Vouga e Águeda
- Tejo, Nabão e Sorraia
- Sado
Nestes locais, bastam algumas horas de chuva intensa para que ocorram inundações repentinas, cortes de estrada e prejuízos em habitações.
O cenário é bem conhecido por muitas populações: água a subir em garagens, campos agrícolas submersos, comércio afetado, acessos isolados.
Uma realidade que regressa sempre demasiado depressa.
Neve, frio e nevoeiro nas zonas altas
Nas serras, o inverno mostra a sua face mais dura.
Está prevista queda de neve nas cotas mais elevadas, o que poderá condicionar a circulação, especialmente durante a noite e madrugada. O frio e o nevoeiro denso poderão reduzir a visibilidade e aumentar o risco de acidentes.
Para quem vive ou circula nestas zonas, os próximos dias exigem prudência redobrada.
Autoridades pedem prevenção máxima
Perante o agravamento previsto, a Proteção Civil reforça os apelos à precaução:
- evitar atravessar zonas inundadas
- não estacionar junto a linhas de água
- garantir a limpeza de ralos e escoamentos
- proteger bens em áreas historicamente vulneráveis
- acompanhar os avisos oficiais
O Governo mantém a situação de calamidade ativa em dezenas de municípios, sinal claro de que o país ainda vive sob pressão meteorológica.
Um inverno que não larga Portugal
Especialistas alertam que este padrão de sucessivas frentes atlânticas pode prolongar-se.
Não são eventos isolados. É uma sequência.
Uma porta aberta no Atlântico que parece não fechar.
E enquanto o tempo não estabilizar, o país continuará em sobressalto — entre a esperança de tréguas e o receio do próximo aguaceiro.
O inverno segue firme. Persistente. Incómodo.
E Portugal prepara-se, mais uma vez, para resistir.




