Se fecharmos os olhos e pensarmos em Lisboa, o cheiro a bacalhau frito com batata palha e ovos cremosos surge quase de imediato. O Bacalhau à Brás é, sem sombra de dúvida, a “instituição” gastronómica da capital.
Mas, enquanto devoramos este prato em qualquer taberna de Alfama ou restaurante de luxo na Avenida da Liberdade, raramente paramos para perguntar: quem foi, afinal, o Senhor Brás? A verdade é que este prato não nasceu num palácio, nem foi inventado por um chef de renome. Nasceu na penumbra, entre o fumo das tabernas e os segredos de um homem que transformou as sobras numa lenda. Prepare-se, porque a história do “Brás” é tão deliciosa quanto o próprio prato.
O Berço do Mito: O Bairro Alto do século XIX
Para encontrar o Senhor Brás, precisamos de recuar no tempo. Imagine o Bairro Alto de finais do século XIX. Não era o local turístico que conhecemos hoje, mas sim um labirinto de ruelas escuras, frequentado por poetas, fadistas, marinheiros e gente de “má fama”.
Foi aqui, numa pequena taberna cujo nome o tempo tentou apagar, que o Senhor Brás (ou Braz, com a grafia da época) geria o seu negócio. Brás era conhecido pela sua hospitalidade, mas, acima de tudo, pela sua enorme avareza económica — no bom sentido da palavra. No Portugal de então, o bacalhau já era o “fiel amigo”, mas nada se podia desperdiçar.
A “Receita Proibida”: Um ato de sobrevivência
Diz a tradição oral que a receita nasceu de uma necessidade urgente: o que fazer com as lascas de bacalhau que sobravam da limpeza dos lombos? E com as batatas que já estavam demasiado pequenas para serem assadas?
- O Improviso: Brás decidiu desfiar finamente o bacalhau.
- A Inovação: Cortou as batatas em palha (uma técnica rara na época) e fritou-as.
- A Ligação: Uniu tudo com ovos batidos para dar cremosidade e não deixar o prato seco.
Por que dizemos que é uma “história proibida”? Porque, durante décadas, este prato foi considerado “comida de taberna”, indigna das mesas da alta burguesia lisboeta. Era o prato que se comia à pressa, nas madrugadas de fado, para forrar o estômago depois de muito vinho. Era a comida do povo, feita com “restos”, que acabou por se tornar o maior tesouro da nossa culinária.
A Autoridade do Paladar: O que define um Brás autêntico?
Como especialistas no Ncultura, sabemos que a autoridade de um prato reside nos seus detalhes técnicos. Um Bacalhau à Brás original não aceita atalhos. Se quer cozinhar como o Senhor Brás faria na sua taberna, há regras de ouro a seguir:
- A Batata Palha: Esqueça o pacote de batata palha de compra. O segredo de Brás era a batata cortada à mão, muito fina, e frita na hora. Ela deve manter uma ligeira estaladiça mesmo depois de envolvida no ovo.
- O Ponto do Ovo: Este é o maior erro da restauração moderna. O ovo não deve ser uma omelete, nem deve ficar cru. Deve criar um creme aveludado (o famoso velouté natural).
- A Proporção: Deve haver um equilíbrio exato entre a batata, o peixe e o ovo. O bacalhau é a estrela, a batata dá a textura e o ovo faz a união.
O Senhor Brás: Homem ou Lenda?
Embora o nome “Braz” apareça em registos antigos de Lisboa, a figura do taberneiro tornou-se quase mitológica. Alguns historiadores gastronómicos sugerem que Brás era um apelido comum na época, mas a consistência da história do Bairro Alto é demasiado forte para ser ignorada.
Ele terá sido um dos primeiros a compreender o conceito de Economia Circular na cozinha, muito antes de o termo existir. Ao aproveitar as lascas de bacalhau salgado, ele criou uma entidade cultural. Hoje, o Bacalhau à Brás é servido de Macau a Nova Iorque, mas a sua alma permanece presa àquela Lisboa boémia, onde o fado se cantava à luz das velas.
Por que esta receita conquistou Portugal?
A ascensão do prato das tabernas para as mesas nobres aconteceu no século XX. A simplicidade dos ingredientes — bacalhau, batata, ovos, cebola, azeite, azeitonas e salsa — tornou-o acessível a todas as classes.
Mas foi a textura que venceu a batalha. O Bacalhau à Brás é o que chamamos hoje de comfort food. É um prato que abraça o estômago. A genialidade do Senhor Brás foi perceber que o salgado do bacalhau, o doce da cebola refogada e a gordura do ovo criavam uma tríade perfeita de sabores.
O Segredo para não falhar (Dicas de Autoridade)
Se vai tentar replicar a receita do Senhor Brás em casa, siga estes conselhos que raramente aparecem nos livros de receitas comuns:
- Dessalagem Perfeita: O bacalhau desfiado dessala muito mais rápido que o lombo. Cuidado para não o deixar “chocho” (sem sabor).
- Cebolada Transparente: A cebola deve ser refogada em azeite até ficar transparente, nunca dourada ou queimada. Queremos a doçura da cebola, não o seu amargor.
- O Toque Final: O verdadeiro Brás leva salsa fresca picada e azeitonas pretas. Mas atenção: as azeitonas devem ser colocadas apenas no fim, para não tingirem o ovo com a sua salmoura.
Conclusão: O Legado de um Visionário do Povo
O Senhor Brás pode ter morrido há mais de um século, mas o seu nome é pronunciado milhares de vezes por dia em todos os cantos do país. Ele ensinou-nos que a gastronomia não é apenas sobre ingredientes caros, mas sobre a inteligência de transformar o simples em extraordinário.
Da próxima vez que pedir um “Brás”, lembre-se do taberneiro do Bairro Alto. Lembre-se que está a comer uma história de sobrevivência, de criatividade e de Lisboa na sua forma mais pura e autêntica.
E para si? O Bacalhau à Brás deve ser mais cremoso ou com a batata mais estaladiça? Partilhe connosco o seu segredo de família nos comentários!




